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A tecnologia precisa de empatia

A tecnologia tem que ter por Norte a empatia, para que os sistemas sejam pensados a partir das pessoas, das suas fragilidades, limitações e expectativas.

Soledad González
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Num mundo marcado por contrastes, a tecnologia e a inteligência artificial (IA) afirmam-se como ferramentas capazes de encurtar distâncias, derrubar barreiras e transformar vidas. Mais do que avanços técnicos, representam oportunidades concretas para reduzir desigualdades e acelerar o desenvolvimento sustentável. Contudo, nenhuma inovação é neutra. O seu impacto, positivo ou negativo, depende da forma como é pensada, desenhada e aplicada às necessidades reais das pessoas.

A importância da transformação digital torna-se particularmente evidente quando consideramos o seu impacto potencial na concretização dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS): estima-se que as tecnologias digitais possam contribuir para cerca de 70% das metas dos ODS. Mas esta promessa só poderá ser cumprida se garantirmos que ninguém fica para trás.

Atualmente, cerca de um terço da população mundial continua sem acesso à internet (aproximadamente 2,6 mil milhões de pessoas, estima a International Telecommunication Union). Este dado recorda-nos que a transformação digital, para ser eficaz, tem de ser inclusiva. Mas como assegurar que chega a todos?

Serviços públicos assentes em IA

De acordo com a Comissão Europeia, a digitalização dos serviços públicos tem vindo a melhorar a acessibilidade, a eficiência e a experiência do utilizador. Pensemos numa pessoa idosa que vive sozinha e precisa de renovar um documento: com um assistente virtual baseado em IA, poderá fazê-lo a partir de casa, sem depender de terceiros. A utilização de interfaces em linguagem natural reduz barreiras técnicas e simplifica processos administrativos. E quando estes sistemas são concebidos e melhorados a partir da experiência do utilizador tornam-se instrumentos de cada vez maior proximidade. Para muitos cidadãos, não se trata apenas de conveniência; passou a ser uma questão de autonomia.

Mais transparência na governação

A digitalização está também a alterar a forma como os governos prestam contas. Plataformas de acesso a dados públicos tornam a informação mais transparente, facilitam o escrutínio da despesa e reforçam a confiança institucional. A Estónia é frequentemente apontada como referência europeia em governação digital, com sistemas interoperáveis e análise automatizada de dados administrativos (e-Estonia). Importa sublinhar que a possibilidade de monitorização quase em tempo real aumenta a capacidade de resposta das autoridades e o envolvimento dos cidadãos.

Mas transparência não é apenas publicar dados: é torná-los compreensíveis e úteis para quem não é especialista. É assim que cresce a participação democrática.

Aprender sem limites

A educação é a base de qualquer futuro sustentável. Em muitos contextos, estudar continua a ser um privilégio. Durante o conflito na Ucrânia, iniciativas apoiadas por organizações internacionais como a UNICEF criaram centros digitais de aprendizagem para permitir a continuidade do ensino a crianças deslocadas. O acesso a plataformas educativas através de dispositivos móveis tornou possível manter o percurso escolar, mesmo em condições de desigualdade, como o contexto de guerra. Aqui, a tecnologia não substitui o vínculo humano, mas ajuda a garantir continuidade e dignidade num contexto de rutura.

Uma oportunidade, um caminho comum

Estes são apenas três exemplos do impacto que a digitalização e a IA podem ter na construção de um mundo mais digno e mais justo. A transformação digital não se resume à inovação tecnológica nem ao aumento de competitividade económica: pode criar oportunidades concretas para acelerar o desenvolvimento sustentável e reduzir desigualdades à escala global. Pode fornecer instrumentos essenciais para a construção de sociedades mais inclusivas e resilientes.

Ainda assim, investir em tecnologia não basta. Esta só cumpre o seu propósito quando é orientada por empatia; isto é, quando os sistemas são pensados a partir das pessoas, das suas fragilidades, limitações e expectativas, e não apenas da eficiência técnica. Isto exige políticas públicas que assegurem acessibilidade e igualdade de oportunidades. Porque o progresso só é real quando chega a todos.

O Observador associa-se à comunidade PortugueseWomeninTech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.