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Passismo-agressivo

Há uma fase em que o bebé chora e os pais não conseguem perceber porquê. Estamos nessa fase com Passos Coelho. Refila muito, mas não sabemos a razão. É sono? Fome?  Quer ser outra vez PM?

José Diogo Quintela
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Durante os últimos anos, habituámo-nos a ver Passos Coelho como alguém que paira acima das paixões humanas. Um homem racional, que não cede às emoções. Foi, aliás, essa frieza que lhe permitiu guiar o país num momento de particular aperto. Quando todos à sua volta pareciam perder a cabeça, Passos Coelho manteve-se sereno. Nesses tempos, revelou possuir um autocontrolo mais próprio de uma máquina.

Mesmo depois de sair do Governo e de abandonar a vida pública, manteve-se impassível. Aparentemente, nada o perturbava. A ideia que dava é que, se estivesse a navegar na Internet e o Captcha lhe pedisse, Passos não conseguiria identificar os semáforos todos de uma imagem. É que parecia mesmo um autómato.

Felizmente, podemos estar descansados: no outro dia Passos Coelho provou que, afinal, é mesmo humano. As declarações públicas que tem vindo a fazer já o indiciavam, mas a última intervenção, aquela em que chamou “prostituto” ao Primeiro-Ministro sem o nomear, demonstrou-o. Foi uma manifestação do muito pouco robótico ressentimento. Um ataque colérico, mas sem apontar o destinatário. Óbvio passismo-agressivo.

Quando Passos Coelho fala, as pessoas ouvem-no porque reconhecem que ele percebe muito sobre muitos temas. Ele coloca o “sábio” em “ressábio”. Durante a troika, fez o que mais ninguém faria e foi admirado. Agora, fala como ninguém falaria e as pessoas também se admiram. Ficam espantadas. Não estão habituadas a ouvir um homem tão correcto usar este tipo de linguagem.

Fico mais aliviado. Como alguém que votou em Passos Coelho, estava-me a fazer confusão achar que tinha elegido uma espécie de replicant – embora um replicant com grande capacidade RAM: é preciso ter muita memória para ainda guardar rancor do que se passou há mais de dez anos.

Passos Coelho ainda está aborrecido com o que sucedeu em 2015. Compreende-se. Estranho é que não estivesse. É um defeito humano natural. Mas outro defeito humano natural é a curiosidade mórbida, que é o que o resto do país sente. Toda a gente está em pulgas para saber, afinal, o que quer Passos Coelho? Apetece-me vasculhar o lixo de Passos em busca de indícios. Talvez o rascunho dos estatutos de um novo partido. Ou bilhetinhos trocados com a oposição interna do PSD. Ou uma ficha de inscrição no Chega. Enfim, ninguém sabe. E não é por falta de lhe perguntarem.

Quem já teve filhos sabe que há uma fase em que o bebé chora e os pais não conseguem perceber porquê. É desesperante. Damos por nós a pensar que era bom que a criança já falasse, para poder explicar-nos porque é que faz birra. Estamos nessa fase com Passos Coelho. Refila muito, mas não sabemos a razão. É sono? Fome?  Quer ser outra vez PM? Dentinhos? Ajustar contas no partido? Cólicas? Pelo sim, pelo não, é melhor trocar-lhe a fralda.