(c) 2023 am|dev

(A) :: Sócrates, Escária, Moral. O PS é visado na "Imergente"? Claro

Sócrates, Escária, Moral. O PS é visado na "Imergente"? Claro

O PS teve de lidar com Sócrates e recusou fazê-lo. Teve de lidar com 75 mil euros escondidos em São Bento e agarrou-se a um alegado golpe. Agora agarra-se ao 28 de Maio. Outra tese virá. Até quando?

Miguel Santos Carrapatoso
text

Mais uma moeda, mais uma voltinha. O carrossel das megaoperações que atingem partidos e detentores de cargos políticos não pára nunca. Buscas, gente nos calabouços, fugas seletivas de informação, constituição de arguidos, três ou quatro dias de noticiários. Depois, desligam-se as câmaras e os microfones, os arguidos ficam, a feira popular muda-se para outra freguesia e os processos marinam. Por muito estranho que seja escrevê-lo numa democracia com mais de 50 anos, era importante que esta “Operação Imergente” fosse aquilo que muitas das suas antecessoras (demasiadas) não foram: consequente. O escrutínio vale para todos e ninguém está acima dele — nem mesmo o imperturbável Ministério Público.

Exigir que este carrossel apresente, só de quando em vez, alguns resultados não significa alinhar num discurso sonso (“todos têm direito à presunção de inocência…”), nem alinhar em alucinadas teses da cabala — a última, divertidíssima, tentou relacionar os 100 anos do fim da Primeira República e o início da ditadura militar com as buscas no Largo do Rato. Pelo contrário, desjudicializar o debate é importante porque permite falar de outra dimensão: a dimensão ética. No fundo, avaliar e julgar o comportamento de uma determinada figura ou de uma determinada organização política em função dos factos conhecidos antes e depois de a feira popular se instalar.

E é isso que muita gente com responsabilidades políticas e partidárias se recusa a fazer. Foi isso que, num primeiro momento, José Luís Carneiro se recusou a fazer. No dia em que a Justiça entrou na sede nacional do Partido Socialista, em Lisboa, em que se tornou pública uma investigação que atingiu o PS nas suas dimensões local e nacional, e em que se deteve o até ali principal assessor do líder do partido (histórico homem de mão de António Costa), o melhor que o líder socialista conseguiu dizer foi que o PS “não era visado nestas investigações”. Sábado, dois dias depois, Carneiro corrigiu e disse o óbvio ululante: “Estas informações prejudicam a imagem do partido”. Menos mal.

A questão — o verdadeiro problema — é o que se faz a seguir. Todas as organizações têm gente boa e gente má. Nenhum partido tem o monopólio dos puros, tal como nenhum partido tem o monopólio dos corruptíveis e dos corruptos. Acontece que PS e PSD, por serem os dois pilares do regime que se fundou a seguir ao 25 de Abril, têm especiais responsabilidades e exigências neste debate. E os dois partidos teimam em não compreender o que casos como este — no limite da legalidade, eticamente muito duvidosos — fazem à credibilidade dos próprios partidos e à saúde do regime democrático. De todo o modo, não há como dizer de outra forma: o PS tem obrigações especiais nesta matéria.

Os socialistas tiveram de lidar com José Sócrates e, em grande medida, recusaram-se a fazê-lo. Os poucos que o tentaram fazer (Pedro Delgado Alves à cabeça) acabaram a falar sozinhos. António Costa atirou tudo para debaixo do tapete com a sonsice do “à Justiça o que é da Justiça” e quase todos fingiram que não era nada com eles. Os socialistas tiveram de lidar com 75 mil euros em dinheiro vivo escondidos em São Bento pelo chefe de gabinete do primeiro-ministro e agarraram-se a um parágrafo e a um alegado golpe de Estado. O assessor principal do líder vive de uma rede de cumplicidades montada nas estruturas autárquicas — rede denunciada nos jornais em 2022 (!) — e os socialistas falam em conspirações centenárias, reação a sondagens animadoras e no número de inspetores da PJ que foram ou não foram ao Rato.

O que ninguém parece querer perguntar é como é que isto continua a acontecer. Como é que a cultura organizativa do partido continua a permitir e a promover a ascensão de figuras muito pouco recomendáveis. Uma coisa é certa: nestas coisas não há azares; é preciso mesmo muita gente fechar os olhos, os ouvidos e a boca para que isto se repita ciclicamente. Nas últimas três décadas, o PS ocupou predominantemente o poder em ciclos longos. A Câmara Municipal de Lisboa, freguesias incluídas, esteve nas mãos do partido durante quase 15 anos. Sem autorregulação, sem escrutínio entre os pares, sem uma cultura interna eticamente exigente, aplica-se a velha máxima. O poder tende a corromper; o poder absoluto corrompe absolutamente.

José Luís Carneiro promete agora retomar a (boa) ideia que tinha na sua moção estratégica e acelerar a criação de um “Código de Ética dos Militantes e Eleitos Socialistas”, limpando o partido de baixo para cima. Que seja bem-sucedido, é o que todos lhe devem genuinamente desejar. O PSD, por ora a rir-se do que vai acontecendo no Rato, espera a sua vez para ser atingido (outra vez) por mais um caso de Justiça. Devia atalhar caminho, aprender já a lição e fazer o mesmo. Porque a única coisa que distingue a cultura organizativa dos dois partidos é que, nas últimas décadas, os primeiros tiveram mais acesso ao poder e de forma mais continuada.

Aqueles que acham que dizer que o Chega também tem muitos ‘casos e casinhos’ vai diminuir o partido de André Ventura e devolver o regime ao bipartidarismo estão muito enganados. Quando os dois principais partidos do regime o violentam, os eleitores convencem-se de que mais vale olhar para aqueles que prometem limpar tudo à espaldeirada. Não façam nada para mudar e divirtam-se a contar as malas roubadas, os oportunistas e os pedófilos que andam pelo Chega. Depois não se queixem. Sobretudo, não culpem os eleitores.