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(A) :: Vale a pena ir às aulas? Vale.

Vale a pena ir às aulas? Vale.

Vale porque a aula é o lugar onde o conhecimento ganha temperatura humana. Vale porque há aprendizagens que não nascem da velocidade, mas da permanência.

Fernando Moreira
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Há uma pergunta que parece simples, mas que toca o nervo central da universidade contemporânea: vale a pena ir às aulas? A resposta, na minha opinião, é clara: vale. Não porque todas as aulas sejam memoráveis, nem porque todos os professores sejam brilhantes em todos os dias. Vale porque a universidade não é apenas um repositório de conteúdos. É uma comunidade de pensamento, uma rede de encontros, um laboratório de hesitações, erros, perguntas e descobertas.

O Moodle guarda ficheiros, o YouTube guarda vídeos, os chatbots de inteligência artificial (ChatGPT, Claude, Gemini, entre outros) ajudam a explicar conceitos. Mas nenhum deles substitui por completo a experiência de estar diante de outros, de ouvir uma dúvida que não era nossa, de ver um professor desmontar um problema em tempo real, de perceber que aprender é também suportar a demora, a dificuldade e a presença.

A ausência tornou-se barata, mas o seu custo continua caro, apenas se tornou menos visível.

A questão que, depois de mais de 30 anos de experiência universitária, tenho colocado, mais este ano letivo que se aproxima do seu final, é: Porque é que os estudantes estão a deixar de frequentar as aulas?

Os dados recentes confirmam que não se trata apenas de uma perceção, mas de uma realidade. Como prova o relatório da HEPI, publicado em maio de 2026, no Reino Unido, a proporção de estudantes que dizem frequentar todas as aulas caiu de 63% em 2006 para 48% em 2025. O mesmo relatório indica que as horas de ensino perdidas duplicaram: de cerca de 8% do horário em 2006 para 16% em 2025. Em média, os estudantes perdiam cerca de uma hora semanal em 2006; em 2025, perdiam 2,4 horas por semana. Entre aqueles que faltavam a alguma aula, a média subia para 5 horas semanais perdidas.

A primeira explicação e, talvez a mais imediata, é tecnológica. Antigamente, faltar a uma aula exigia uma pequena logística de sobrevivência académica: pedir apontamentos, fotocopiar cadernos, reconstruir o fio perdido. Hoje, grande parte desse esforço desapareceu. Diapositivos, gravações, fóruns, grupos de mensagens, vídeos, resumos automáticos e chatbots de IA reduzem drasticamente o custo imediato da ausência. O estudante não sente que perdeu a aula, sente que a transferiu para outro momento. O problema é que, muitas vezes, esse “outro momento” nunca chega com a mesma intensidade, nem com a mesma qualidade cognitiva.

A segunda explicação é cultural. A pandemia normalizou uma relação mais flexível, fragmentada e negociada com o ensino. A aula gravada, a sessão remota, o acompanhamento assíncrono e o estudo por recursos digitais trouxeram vantagens reais, tais como a inclusão, a acessibilidade, o apoio a quem trabalha, a quem está doente ou a quem vive longe. Seria absurdo negar esse progresso. Contudo, o problema surge quando o complemento passa a substituto e quando a aula presencial é percebida como uma versão menos cómoda de algo que se pode consumir mais tarde.

Há ainda um terceiro motivo: a aula passou a ser julgada, por alguns estudantes, pela lógica do consumo. Se é lenta, parece fraca. Se exige concentração prolongada, parece antiquada. Se não oferece estímulos contínuos, parece desinteressante. O professor é então empurrado para uma figura ambígua, onde deve ensinar, mas também prender a atenção, deve exigir, mas sem causar desconforto, deve aprofundar, mas sem abrandar, deve formar, mas sem contrariar a expectativa de entretenimento.

Ora, ensinar não é entreter! Sempre recusei, recuso e continuarei a recusar esta nova abordagem de transformar uma aula numa atividade de entretenimento. Uma boa aula pode ser viva, clara, dialogante e bem desenhada. Deve sê-lo, mas há aprendizagens que pedem silêncio, demora, repetição e, fundamentalmente, resistência, porque a atividade de aprender custa é dolorosa, exigem transformação. O professor não é um animador de sala, não é um promotor de tiktoks, é um arquiteto de dificuldade. A sua função não é eliminar todo o esforço, mas tornar o esforço fértil.

A quarta causa é relacional. Muitos estudantes faltam não apenas porque têm recursos digitais, mas porque não sentem pertença. Não conhecem colegas, não se sentem vistos pelos docentes, não reconhecem a universidade como comunidade. A pertença não é um ornamento sentimental, é uma infraestrutura invisível da aprendizagem.

A quinta causa é psicológica, porque a ansiedade, a depressão, o sono insuficiente, a solidão e a exaustão afetam a presença. Dados recentes da American College Health Association indicam que cerca de 30% dos estudantes reportaram que a ansiedade prejudicou o seu desempenho académico, e mais de três quartos dormiam menos de oito horas durante as noites de semana. O Healthy Minds Study 2024–2025 assinalou níveis elevados de sintomas depressivos e ansiosos entre estudantes universitários, bem como sentimentos de isolamento.

Finalmente, há a economia da atenção. Os estudantes vivem rodeados por dispositivos desenhados para interromper. A aula compete com mensagens, notificações, vídeos curtos, trabalho remoto, plataformas sociais e múltiplas janelas abertas. A investigação sobre multitarefa digital mostra efeitos negativos na atenção, na memória de trabalho, na compreensão, no escrever apontamentos e no desempenho académico. Uma meta-análise recente encontrou ainda uma associação negativa, embora pequena, entre frequência de uso do smartphone e desempenho universitário.

O resultado é uma tempestade perfeita: a ausência tornou-se fácil, o trabalho tornou-se necessário, a atenção tornou-se disputada, a pertença tornou-se frágil e a aula passou a ser comparada com estímulos digitais que nunca dormem.

Depois de identificar as causas, a questão seguinte é: O que se perde quando se deixa de ir às aulas?

Perde-se, antes de tudo, formação. E formação não é apenas informação. A informação pode ser descarregada. A formação precisa de fricção, exige contacto com a dúvida, confronto com exemplos, exposição à crítica, capacidade de reformular uma ideia diante dos outros. Uma aula não é apenas o local onde se transmite conteúdo, é o espaço onde se aprende a pensar com método, a perguntar com precisão, a ouvir uma explicação até ao fim, a tolerar a complexidade antes de a simplificar.

A frequência das aulas, segundo alguns autores está associada ao desempenho académico. Este estudo, já com alguns anos, concluiu que a assiduidade era um forte preditor das classificações universitárias, mesmo quando comparada com outros indicadores como resultados prévios, hábitos de estudo ou competências de estudo. Mas a perda não é apenas quantitativa, não se resume a uma nota mais baixa. Há uma perda de aprendizagem tácita. O estudante que falta perde o modo como o professor escolhe um caminho entre vários, a forma como responde a uma pergunta inesperada, a hesitação produtiva antes de uma solução, a ligação entre conceitos que não aparece no diapositivo. Perde também as perguntas dos colegas. E, muitas vezes, são essas perguntas que iluminam a zona escura que o estudante nem sabia que não compreendia.

Perde-se desempenho profissional futuro. A vida profissional raramente se organiza como um conjunto de recursos online. Exige reuniões, negociação, pontualidade, linguagem, colaboração, capacidade de estar presente. Quem aprende a faltar sempre que o estímulo não é imediato pode levar consigo um hábito perigoso, a incapacidade de permanecer intelectualmente disponível perante tarefas longas, ambíguas ou pouco sedutoras. E não é a solução básica da presença obrigatória dos alunos nas aulas que vai resolver o problema, pelo contrário, vai criar problemas adicionais; estão porque sim, porque são obrigados a ter pelo menos x% de aulas “assistidas”.

A aula pode funcionar como uma tecnologia antiga, mas poderosa, de atenção partilhada. Obriga o estudante a entrar num ritmo. Dá-lhe um tempo protegido, interrompe a dispersão, cria momentos de recuperação, discussão, aplicação e síntese. Quando é bem desenhada, uma aula presencial ou síncrona não é um monólogo, é uma arquitetura de pensamento.

Perde-se ainda dimensão social. A universidade é uma das últimas instituições onde pessoas de origens, opiniões, ambições e temperamentos diferentes são chamadas a pensar juntas durante anos. Quem não frequenta aulas reduz a probabilidade de construir redes de confiança, amizades intelectuais, projetos comuns e contactos profissionais.

A sala de aula é, por isso, mais do que um lugar, é uma pequena república de atenção. Nela aprende-se a discordar sem destruir, a esperar pela vez, a formular objeções, a reconhecer competência, a lidar com frustração. Tudo isto parece lateral ao conteúdo. Não é. É parte da educação.

Quando os estudantes deixam de ir às aulas, a sociedade também perde. Perde capital humano, sim, mas perde sobretudo capital cívico. Universidades com salas vazias, como se tem verificado nos dias de hoje, tornam-se fábricas de credenciais frágeis. Produzem diplomas, mas nem sempre formam comunidades de pensamento. E uma sociedade que desaprende a estar junta para compreender problemas difíceis fica mais vulnerável à simplificação, ao ruído, à polarização e essencialmente, a ser controlada pelas facilidades que os novos tutores digitais proporcionam, devido à falta de desenvolvimento do pensamento crítico.

Existem medidas para levar os estudantes às aulas?

A resposta não pode ser nostálgica. Não basta dizer: “No meu tempo era diferente.” Esse argumento é pobre e, quase sempre, injusto. Os estudantes de hoje enfrentam condições diferentes, mais pressão económica, mais deslocações, mais ansiedade, mais estímulos digitais, etc. A universidade não deve culpabilizá-los, deve convocá-los.

A primeira medida é tornar a aula verdadeiramente necessária, não por punição, mas por valor. A aula deve oferecer algo que o diapositivo não oferece, mesmo tendo a perfeita consciência que a competição com os chatbosts de IA é quase impossível: resolução de problemas, discussão, feedback imediato, exemplos vivos, estudo de casos, demonstrações, debate, colaboração e aplicação.

A segunda medida é explicar aos estudantes, logo no início, por que razão a presença importa. Não como sermão, mas como contrato pedagógico. Mostrar evidência, explicar que a aula não é apenas conteúdo transmitido; é treino de raciocínio, socialização académica e oportunidade de feedback. É recomendado que os docentes comuniquem claramente o valor das sessões presenciais e desenhem atividades que não sejam meras repetições do material depositado no Moodle. Quando os estudantes compreendem o propósito das sessões, a frequência deixa de parecer obediência e passa a parecer investimento.

A terceira medida é usar os mais variados recursos, incluindo os chatbots IA como andaimes, não como substitutos. O material digital deve preparar, apoiar e consolidar. Não deve tornar a aula redundante. Um bom desenho pedagógico pode reservar para o espaço presencial aquilo que exige interação, tais como perguntas mais complexas, exercícios aplicados, discussão crítica, trabalho em grupo, análise de erros, apresentação oral, decisão sob incerteza. O digital fica com a função de biblioteca, enquanto a aula fica com a função de oficina.

A quarta medida é reconstruir a pertença. Chamar os estudantes pelo nome, criar pequenos grupos, integrar mentoria entre pares, promover projetos colaborativos, abrir espaços de atendimento, ligar aulas a investigação e a problemas reais. A pertença não se decreta, cultiva-se.

A quinta medida é redesenhar horários com realismo. Aulas demasiado cedo, blocos dispersos, sessões isoladas em dias pouco frequentados e horários incompatíveis com transportes ou trabalho aumentam a probabilidade de ausência. Isto não significa transformar a universidade numa plataforma à medida de cada preferência individual. Significa reconhecer que a presença também depende de condições materiais. Se queremos estudantes em aula, temos de desenhar percursos frequentáveis.

A sexta medida é alinhar avaliação e presença. Não para premiar a cadeira ocupada, mas para valorizar o processo. Pequenos questionários, exercícios em aula, resolução progressiva de problemas, debates avaliados com rubricas simples, apresentações curtas e momentos de recuperação ativa criam continuidade. A avaliação deve mostrar ao estudante que o caminho também conta.

A sétima medida é educar a atenção. Não basta proibir telemóveis ou fingir que eles não existem. É preciso estabelecer normas: quando o dispositivo é ferramenta, usa-se; quando é fuga, proíbe-se. Pausas breves, atividades segmentadas, perguntas intermédias, momentos de escrita, discussão a pares e sínteses finais ajudam a recuperar a atenção sem transformar a aula num espetáculo.

A oitava medida é formar professores para ensinar melhor, não para entreter mais. Há aulas monótonas que merecem crítica. Há exposições longas sem estrutura, sem exemplos e sem interação que afastam qualquer estudante razoável. Mas a solução não é converter a docência em espetáculo. É melhorar a clareza, o ritmo, o desenho das atividades, a ligação entre teoria e prática, a qualidade do feedback e a exigência intelectual. Uma aula pode ser exigente e acolhedora, pode ter silêncio e intensidade, pode ser difícil sem ser obscura.

A última medida é envolver empregadores e instituições na proteção do tempo de estudo. Quando o estágio ou o trabalho “engole” a universidade, todos perdem. O estudante fica dividido, a instituição perde comunidade, o empregador recebe alguém em formação incompleta. É preciso criar uma cultura em que o trabalho académico seja respeitado como trabalho real. A presença em aula não é tempo roubado ao mercado, é tempo investido na qualidade futura desse mesmo mercado.

Conclusão: vale a pena ir às aulas?

Vale.

Vale porque a aula é o lugar onde o conhecimento ganha temperatura humana. Vale porque há aprendizagens que não nascem da velocidade, mas da permanência. Vale porque um colega pode fazer a pergunta que nos salva. Vale porque um professor pode mostrar, num desvio de cinco minutos, aquilo que nenhum diapositivo dizia. Vale porque a universidade é mais do que uma sequência de unidades curriculares, é uma comunidade que ensina a pensar com outros.

Faltar a uma aula parece, muitas vezes, uma pequena decisão sem consequências. E, isoladamente, pode sê-lo. O problema é a repetição. A ausência, quando se torna hábito, não retira apenas conteúdos, retira encontros, linguagem, disciplina, pertença, memória e futuro.

Ir às aulas não significa aceitar aulas más. Significa exigir aulas melhores e participar nelas. Significa compreender que a educação superior não é uma aplicação instalada no telemóvel, nem um ficheiro descarregado na véspera do exame. É uma travessia. E nenhuma travessia séria se faz apenas a olhar para o mapa.

A universidade precisa de estudantes presentes. Não presentes como espectadores, mas como autores da sua própria formação.

E é por isso que a resposta, apesar de todos os incómodos, continua a ser simples: vale a pena ir às aulas. Vale muito.