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Segurança europeia e soberania cognitiva

Uma Europa militarmente forte, economicamente competitiva e tecnologicamente avançada continuará vulnerável se perder algo mais fundamental: a capacidade autónoma

Luís Vaz Santos
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A discussão sobre a segurança europeia regressou ao centro do debate público. A invasão da Ucrânia, a crescente rivalidade entre grandes potências, a reindustrialização estratégica e o reforço dos investimentos em defesa colocaram novamente a questão da soberania no topo das prioridades europeias.

Mas existe uma dimensão da soberania que continua relativamente ausente do debate: a soberania cognitiva.

Durante décadas, a segurança foi sobretudo entendida em termos militares, económicos ou energéticos. Hoje, porém, as sociedades europeias enfrentam um desafio diferente. O ambiente informacional onde cidadãos, instituições, empresas e decisores operam tornou-se simultaneamente acelerado, mediado por algoritmos e permanentemente contestado.

A quantidade de informação disponível cresce a uma velocidade sem precedentes. Plataformas digitais, redes sociais, sistemas de recomendação e ferramentas de inteligência artificial influenciam diariamente aquilo que vemos, lemos e discutimos. Ao mesmo tempo, a competição estratégica entre Estados e outros atores estende-se cada vez mais ao domínio da informação, da narrativa e da perceção. Não se trata apenas de desinformação. O problema é mais profundo. O desafio consiste em compreender como ambientes informacionais altamente acelerados afetam a capacidade das sociedades para produzir sentido, deliberar racionalmente e tomar decisões coletivas de forma autónoma.

A pandemia de COVID-19 ofereceu um exemplo relevante. A própria Organização Mundial de Saúde popularizou o conceito de “infodemia” para descrever a proliferação massiva de informação contraditória, incompleta ou enganadora que dificultava a tomada de decisões por parte dos cidadãos. O problema não era apenas a existência de informação falsa. Era também a incapacidade crescente para distinguir o relevante do irrelevante num ambiente saturado de estímulos.

Desde então, a situação tornou-se ainda mais complexa. A guerra na Ucrânia demonstrou que os conflitos contemporâneos já não se desenrolam apenas no terreno físico. Narrativas, imagens, vídeos e campanhas digitais passaram a integrar o próprio espaço operacional. Em paralelo, vários processos eleitorais ocidentais foram acompanhados por operações de influência, campanhas coordenadas de manipulação informacional e tentativas de amplificação artificial de divisões sociais.

Importa, contudo, evitar conclusões precipitadas. Nem toda a polarização resulta de interferência externa. Nem toda a fragmentação social é produto de operações coordenadas. As sociedades democráticas possuem tensões legítimas, divergências genuínas e conflitos políticos normais.

Mas seria igualmente ingénuo ignorar que atores estatais e não estatais procuram explorar essas vulnerabilidades.

A questão central não é quem controla totalmente as opiniões dos cidadãos. A questão é saber até que ponto ambientes informacionais contestados conseguem moldar agendas, amplificar emoções, acelerar reações e dificultar processos de reflexão coletiva.

É neste contexto que emerge a necessidade de pensar a soberania cognitiva.

Tal como a soberania energética procura reduzir dependências críticas e a soberania tecnológica procura preservar capacidades estratégicas essenciais, a soberania cognitiva visa proteger a capacidade das sociedades para compreender a realidade, avaliar informação e tomar decisões de forma autónoma.

Não se trata de censura. Não se trata de controlo governamental da informação. E muito menos se trata de definir uma verdade oficial.

Pelo contrário, a soberania cognitiva pressupõe cidadãos mais capazes de navegar ambientes complexos, instituições mais resilientes à manipulação e sistemas democráticos capazes de absorver choques informacionais sem comprometer os seus princípios fundamentais.

A Europa dispõe de vantagens importantes para enfrentar este desafio. Possui instituições sólidas, sistemas educativos desenvolvidos, uma tradição democrática consolidada e crescente consciência sobre os riscos associados à manipulação informacional. Contudo, estas vantagens não eliminam o problema do tempo. Num ambiente digital onde conteúdos circulam em segundos, algoritmos amplificam emoções e narrativas se propagam antes da verificação dos factos, as democracias enfrentam frequentemente um desfasamento crescente entre a velocidade da informação e a velocidade da deliberação.

Talvez o grande desafio estratégico europeu da próxima década não seja apenas produzir mais tecnologia, investir mais em defesa ou reforçar a competitividade económica.

Talvez seja preservar a capacidade de pensar coletivamente num ambiente concebido para acelerar reações.

Porque uma Europa militarmente forte, economicamente competitiva e tecnologicamente avançada continuará vulnerável se perder algo mais fundamental: a capacidade autónoma de produzir sentido sobre a realidade que enfrenta.