A marinha de França intercetou um petroleiro associado à chamada “frota fantasma” utilizada pela Rússia para contornar as sanções internacionais sobre as exportações de petróleo. A operação, realizada no Oceano Atlântico com o apoio de países aliados, envolveu o navio Tagor, um dos muitos que, na opinião de especialistas, representam uma “bomba relógio” ambiental.
A operação foi confirmada pelo Presidente francês, através das redes sociais. Emmanuel Macron classificou como inaceitáveis as tentativas de evasão às sanções, defendendo que estas operações contribuem para financiar a guerra na Ucrânia e violam normas internacionais de navegação.
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Desde a invasão da Ucrânia, Moscovo tem recorrido a uma rede de petroleiros envelhecidos, frequentemente registados através de empresas de fachada e sob bandeiras de conveniência, para manter o escoamento de petróleo para os mercados internacionais.
O navio Tagor, um dos que foram identificados como pertencendo a essa “frota fantasma”, encontra-se sob sanções da União Europeia, do Reino Unido e da Ucrânia, por alegado envolvimento nesse esquema de transporte de crude e derivados russos.
Este é o terceiro navio russo da chamada “frota fantasma”, ligada ao transporte de petróleo russo, que a França intercetou nos últimos meses. O primeiro foi o petroleiro Grinch, apreendido no Mar de Alborão em 22 de janeiro de 2016. O segundo caso envolve o petroleiro Deyna, intercetado em 20 de março no Mediterrâneo Ocidental, também suspeito de operar sob bandeira falsa para transportar crude russo sujeito a sanções.
A interceção surge no contexto do endurecimento da estratégia francesa contra a evasão às sanções. Nos últimos meses, as autoridades francesas já tinham atuado contra embarcações suspeitas em várias ocasiões, procurando limitar a capacidade da Rússia para sustentar as receitas energéticas que financiam o esforço de guerra.
Macron alertou ainda que as embarcações, que, na sua opinião, desrespeitam até as regras mais básicas de navegação, representam uma ameaça para o ambiente e para a segurança marítima internacional.
Petroleiros podem originar desastres ambientais. São “bomba relógio”
Mais de metade dos petroleiros utilizados por países sujeitos a sanções internacionais, incluindo a Rússia, poderá representar um risco elevado de provocar acidentes ambientais graves, avisou Anil Sharma, líder de uma das principais empresas mundiais de reciclagem naval, a Global Marketing Systems (GMS).
Em declarações ao Financial Times, Sharma defendeu que uma parte significativa desta frota já deveria ter sido abatida. “Pelo menos um terço, talvez mais. Honestamente, penso que são mais de metade”, afirmou o responsável.
A chamada “frota fantasma” é composta por navios envelhecidos, frequentemente com manutenção deficiente e cobertura de seguros limitada ou inexistente, utilizados para transportar petróleo de países sob sanções, incluindo a Rússia. O objetivo é contornar restrições impostas ao comércio internacional de crude.
Segundo estimativas da corretora marítima Clarksons, existem cerca de 1.500 petroleiros associados a este sistema à escala global. Desses, entre 300 e 600 estarão ligados à Rússia.
Sharma alertou que o setor pode estar próximo de um grande desastre ambiental, comparável ao acidente de 1979 entre os superpetroleiros SS Atlantic Empress e Aegean Captain, que provocou dezenas de mortes e derramou cerca de 287 mil toneladas de petróleo no Mar das Caraíbas.
Também Alexander Saverys, responsável pela empresa de transporte marítimo CMB Tech, descreveu a situação como uma “bomba-relógio”, sublinhando que muitos destes navios operam sem seguros adequados, com tripulações abaixo dos padrões exigidos e em condições técnicas precárias.
Além das preocupações ambientais, autoridades ocidentais têm alertado para a possibilidade de algumas destas embarcações serem usadas pela Rússia em operações híbridas, incluindo recolha de informação e outras atividades de natureza estratégica em águas europeias.