(c) 2023 am|dev

(A) :: A grande substituição

A grande substituição

Esta é a substituição da verdade histórica por uma narrativa pseudo-histórica que legitima as aspirações e metas políticas dos povos de outros continentes, em particular os de África.

João Pedro Marques
text

Sim, eu sei que a expressão “grande substituição” se aplica usualmente à ideia de ultrapassagem demográfica das populações brancas, as tradicionais ocupantes da Europa, por vagas de pessoas vindas de outros continentes, gente que por via da imigração descontrolada e da subsequente alta taxa de reprodução biológica, poderá, segundo a antevisão, vir a sobrepor-se às populações que cá estão e a dominá-las. Mas eu aqui uso a expressão com outro significado, o da substituição da verdade histórica por uma narrativa pseudo-histórica que legitima as aspirações e metas políticas dos povos de outros continentes, em particular os de África.

Quando, no passado dia 25 de Março, a Assembleia Geral da ONU aprovou a aberrante proposta do Gana que caracterizou o tráfico transatlântico de escravos e a escravidão de africanos nas cidades, minas e plantações nas Américas como “o mais grave crime contra a humanidade”, e exigiu aos países ocidentais que nele se envolveram o pagamento de reparações, muita gente na Europa veio dar conta da sua oposição a essa aprovação e tentou demonstrar o mal fundado, tanto histórica como jurídica e logicamente falando, da referida proposta. Também em Portugal isso se verificou. Miguel Morgado, por exemplo, apontou com grande clareza a hipocrisia de tudo aquilo e criticou duramente a cobardia, ignorância e desorientação de uma Europa — Portugal incluído — que se absteve perante tão aberrante proposta. Eu também o fiz, primeiro preventivamente, antes da votação da proposta, e depois após a sua aprovação. Poderia ter escrito um terceiro artigo para apontar o dedo à desfaçatez da Rússia e dos países árabes, grandes traficantes e/ou utilizadores de trabalho escravo, que agora votaram a favor da exclusiva penalização da Europa, ou para apontá-lo com ainda maior veemência à hipocrisia do Gana, o patrocinador ou porta-voz desta aberração, e de outros países africanos que foram grandes actores do tráfico transatlântico de escravos, com o qual lucraram, e que agora vieram exigir ser ressarcidos, como se tivessem um passado angélico e impoluto nessa matéria. Mais. Poderia apontá-lo igualmente à falsidade ou duplicidade do governo de Angola, que após ter prometido, pela voz do seu Presidente da República, que nunca exigiria a Portugal o pagamento de reparações, apareceu agora, como membro da União Africana, a exigi-las. E não me esqueceria certamente de apontar também o meu dedo aos embaixadores europeus na ONU que em vez de se sentirem orgulhosos por representarem países que se tinham empenhado em pôr fim ao tráfico transatlântico de escravos, surgiam agora cabisbaixos, compungidos e encolhidos. De facto, como é possível que os países europeus — nomeadamente o Reino Unido —, não obstante reconhecerem e reafirmarem a impossibilidade e o erro de estabelecer uma hierarquia entre atrocidades históricas, e sublinharem que não há qualquer dever de reparação por acções de agentes históricos que não eram ilegais na época em que aconteceram, ainda assim se tenham abstido em vez de votarem frontalmente contra?

Porém, tudo isso seria inútil, um trabalho baldado, porque nada nesta tendência culpabilizadora e reparacionista é permeável à luz dos factos e dos argumentos. O que está aqui em jogo não é a lógica nem a verdade, mas sim a vontade política de mais uma vez relançar a esperança e ajudar os países de África a vencer os seus problemas internos como a pobreza, a saúde pública, a corrupção das elites, o atraso no desenvolvimento, etc. Houve, no final do século XVIII e primeira metade do século XIX, a convicção de que, terminado o tráfico transatlântico de escravos, a África se desenvolveria rapidamente e os europeus, com destaque para os britânicos, empenharam-se fortemente nisso, mas o desenvolvimento não arrancou como imaginado. Houve, depois, um reavivar dessa esperança com o fim do colonialismo e o movimento das independências, mas muitos dos novos países ficaram na mão de elites parasitárias e corruptas. Há agora, patrocinado pela ONU, um terceiro renascer da esperança e o desejo de canalizar, por intermédio das ditas reparações, mais fundos para os países africanos e caribenhos.

O problema é que a África e as Caraíbas não querem aparecer como entidades ajudadas, mas sim compensadas ou ressarcidas. Não querem actos de auxílio, de boa vontade ou beneficência, mas sim de reparação ou indemnização. Querem algo a que teriam supostamente direito, e para isso, para o justificar, precisam de forjar uma história em que surjam como indiscutíveis vítimas de um indiscutível algoz: a Europa colonial. Os dirigentes e ideólogos dos países africanos e caribenhos criaram esse bode expiatório para arcar com os males e culpas de todos os outros, e o que mais indigna é que ele caminhe voluntariamente para a imolação. Pior. Esse bode expiatório — a França, o Reino Unido, Portugal, etc. — produz ele mesmo, ou apoia paternalmente, os historiadores que operam uma sistemática cirurgia plástica dessa realidade a que chamamos passado, e forjam a narrativa que o vai condenar. Essas pessoas estão a falsificar a História, a substituir uma narrativa equilibrada — em História o equilíbrio é absolutamente fundamental —, alicerçada em documentos, por outra estribada em fantasias, mitos, omissões e apagamentos, e estão a fazê-lo com a anuência ou complacência dos poderes políticos ocidentais, que depois se encarregam de transpor essa narrativa falsificada, martelada, mutilada, para o ensino básico e secundário.

O processo de falsificação é relativamente simples. Há desde logo uma falsificação involuntária que radica na ignorância e nas confusões de alguns dos historiadores, assunto a que voltarei num próximo artigo. O processo passa também, mais frequente e astuciosamente, pelo apagamento propositado. Enquanto a historiografia séria e imparcial procura alargar o leque e a visão das coisas, para estudar e compreender a escravatura como fenómeno de quase todas as épocas e de quase todas as regiões terrestres — vejam-se, por exemplo, os vários volumes de The Cambridge World History of Slavery —, os historiadores revisionistas e reparacionistas restringem a escravatura ao tráfico transatlântico de escravos e às colónias criadas pelos europeus nas Américas no período que vai de meados do século XV a finais do século XIX. Apagam ou ignoram tudo o resto, mesmo o que diz respeito a África, como sejam a escravatura intra-africana e o comércio negreiro levado a cabo por árabes e outros muçulmanos, que, como é bem sabido, remonta ao século VII e que terá sido responsável pela captura, venda e transporte de 5,6 milhões de pessoas negras ainda antes de os navegadores portugueses terem chegado ao Golfo da Guiné.

Outro método de falsificação é o da imaginação criativa com vista a diminuir a dimensão humanitária e moral positiva do Ocidente. Vou dar um exemplo. Sabemos que a escravatura — toda ela, não apenas a que fluía através do Atlântico — terminou em consequência do grande movimento abolicionista surgido no último terço do século XVIII e que foi liderado pelos povos ocidentais, nomeadamente pelos britânicos. A importância desse movimento e dos seus principais impulsionadores (Wilberforce, Clarkson, etc.) não oferece contestação, nem mesmo por parte daqueles antigos historiadores de origem africana — como Eric Williams, por exemplo — que queriam minorar o peso da ideologia para fazer sobressair o do interesse económico. Mas os actuais historiadores revisionistas que defendem a ideia de reparação contam-nos outra história. Um deles, José Lingna Nafafé, sobre o qual já escrevi e voltarei certamente a escrever, quer fazer-nos crer que houve um movimento abolicionista africano (sic) anterior ao dos séculos XVIII-XIX. Nessa visão revisionista da História o abolicionismo teria, portanto, nascido em África. Outros, mais numerosos, tentaram e tentam vender a ideia de que a escravatura acabou não por iniciativa e esforço dos abolicionistas ocidentais, mas por acção dos próprios escravos que se revoltaram e lhe teriam posto fim. Ainda há dias pudemos ler, no Público, uma historiadora brasileira a difundir essa tese.

Trata-se de uma tese com pouco ou nenhum fundamento, que combato há 20 anos, tanto aqui como no estrangeiro. Mas estou a remar contra a maré porque muitas pessoas não querem ouvir nem pensar. Sim, é verdade que os melhores historiadores (David B. Davis, Seymour Drescher, etc.) concordam comigo, mas são pessoas nascidas nas décadas de 1920-40, alguns deles já cá não estão, outros estão retirados, e infelizmente há agora um batalhão de novos historiadores ao serviço desse revisionismo e apostados em alcançar e promover a meta das reparações. São eles, e os poderes académicos e políticos que lhes dão cobertura e acolhimento, que têm vindo a forjar uma História falsa, porque descaradamente amputada ou desequilibrada, e a fabricar a grande substituição da narrativa — e de um suposto saber — na qual as futuras gerações irão acreditar, e as desejadas e já tacitamente aceites reparações monetárias e outras se irão estribar.