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(A) :: A violência nas ruas de França e os nossos olhos fechados

A violência nas ruas de França e os nossos olhos fechados

A vitória do PSG na Liga dos Campeões suscitou uma orgia de violência nas ruas de Paris e não só, em mais um sinal das rupturas culturais que levam a que se fale de “jovens perdidos para a República”

José Manuel Fernandes
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Os números falam por si e ainda são provisórios: 1023 pessoas detidas, 312 feridos, dos quais 7 em estado grave, 27 membros das forças de segurança feridos, 1127 focos de incêndio e 10 bombeiros agredidos. E também duas mortes: as de um jovem de 17 anos em Dax e de outro de 20 em Paris. Este não é o balanço de uma greve geral ou de um movimento insurrecional – este é o balanço de uma noite de “festejos” pela vitória do Paris Saint-Germain na final da Liga dos Campeões.

Não foi a primeira vez que sucedeu, nem as autoridades podem dizer que foram apanhadas desprevenidas: há um ano, aquando do primeiro título europeu do PSG, aconteceu o mesmo. Como acontece todos os anos pelo 14 de Julho (a festa nacional francesa), na madrugada de Ano Novo e agora também na noite de Halloween. A violência desregrada e gratuita já quase faz parte do quotidiano francês, até porque haver carros incendiados a cada fim-de-semana tornou-se tão habitual que já não é notícia.

É certo que França é um país com uma velha tradição de violência política, da Revolução de 1789 aos excessos de Maio de 1968, sem esquecer a Comuna em 1871, só para citar alguns exemplos. Mas ao menos era violência política – esta é apenas violência gratuita, sem um objecto definido. E esta tornou-se muito mais presente nas ruas desde que os grandes clubes franceses, com o PSG à cabeça, trataram de prevenir o hooliganismo.

Quem vem para a rua, quem invade os centros de grandes cidades como Paris ou quem se dedica a destruir as infraestruturas dos bairros onde habita são sobretudo jovens – às vezes mesmo muito jovens – sem outra agenda que não seja a de destruir por destruir, a de fazer parte do seu bando, a de desafiar as autoridades, a de pilhar esta ou aquela loja se a oportunidade surgir. E se aqui há uns tempos descrevíamos muitos dos bairros periféricos onde habitam como “territórios perdidos da República”, agora já se fala da “geração perdida da República” até porque uma coisa parece uni-los: a França, a identidade francesa, nada lhes diz (as únicas bandeiras nacionais que se viram nas ruas foram a argelina e a palestiniana, et pour cause), a sua única identidade parece ser a do clã a que pertencem.

Não é um detalhe, pode até ajudar-nos a compreender melhor o que se passa e como esta violência sem aparente objecto se tornou numa quase rotina em França, mas não só em França pois há sinais de uma degenerescência semelhante noutros países europeus.

Maurice Berger, um pedopsiquiatra que tem trabalhado e escrito aquilo que designa de “violência gratuita”, acompanhando mesmo alguns dos seus protagonistas, não acompanha as explicações mais comuns que invocam a pobreza (relativa) dos bairros periféricos ou as falhas do Estado, falhas tanto na formação dos mais novos, como no castigo dos transgressores. Os casos que acompanhou e as estatísticas que consultou permitem-lhe identificar traços culturais distintivos nas comunidades de onde brota este gosto pela violência gratuita. E não duvidar que, apesar da ausência em França de estatísticas que permitam identificar etnicamente os protagonistas destas desordens, eles pertencem maioritariamente a minorias que chegaram ao país há não muitas décadas (o que não surpreende pois em países como a Itália, a Suíça, a Dinamarca ou a Alemanha, onde as estatísticas étnicas são autorizadas, as populações vindas da imigração extraeuropeia estão por regra sobrerrepresentadas na criminalidade).

Mas não basta referir esta origem extraeuropeia, é necessário também compreender que com ela vieram tradições e referências culturais diferentes, que começam por um convívio com a violência que está presente mesmo dentro de casa, em especial sempre que existe uma maior desigualdade entre homens e mulheres.

Outro factor relevante é pertencer-se ou não a meios, ou a famílias, onde predomina uma cultura de clã, o que remete para a clivagem que alguns autores estabelecem entre este tipo de culturas, onde a noção de honra e de grupo são centrais, e a nossa matriz cultural judaico-cristã, que coloca o foco na responsabilidade do indivíduo, algo a que alguns autores chamam uma “cultura de culpa”, por contraponto às “culturas de honra”. O que Berger notou nos jovens que acompanhou é que nestes ambientes e nestas culturas se passa facilmente do “agredir não se faz” para o “agredir não é grave” para o “matar não é grave”, o que faz com que esses jovens não tenham quaisquer sentimentos de culpabilidade mesmo quando praticam as maiores violências.

Daí que, a meu ver, não possamos apenas encolher os ombros quando assistimos a orgias de violência como as vividas este fim-de-semana em muitas cidades francesas ou, pior ainda, procuremos encontrar explicações no hooliganismo que nunca desertou por completo do fenómeno desportivo e do futebol em particular. O que se passou é mais grave até por ser apenas mais uma manifestação dessa cultura de violência a que a França, ou parte da França, parece habituar-se – daqui por mês e meio, por alturas do 14 de Julho, veremos quantos carros incendiados e lojas pilhadas haverá.

E o que se passou é sobretudo grave por sinalizar o mal-estar de uma sociedade que julgou poder resolver os seus problemas de integração dos imigrantes com uma mistura de políticas sociais e regras formais, quando o problema é mais complexo porque, sobretudo nalguns interfaces suburbanos, é cada vez mais a clivagem cultural, e não a clivagem social, aquilo que está em causa. Será preciso acrescentar que essa clivagem cultural, especialmente evidente nalgumas comunidades que me abstenho de nomear, representa hoje um desafio tanto maior quanto mais algumas forças políticas a tratam de instrumentalizar (como sucede com a França Insubmissa, o partido de extrema-esquerda que só teve palavras para atacar a polícia na sequência destes tumultos)?