Ao chegar ao Hipódromo Manuel Possolo, em Cascais, poucos minutos antes de Branko subir ao palco, encontro um público ligeiramente mais velho do que o habitual em festivais de verão, composto a esta hora maioritariamente por mulheres. Há ainda muito espaço para circular e poucas filas para o bar — em certa medida por, como é já apanágio destes eventos, o preço da cerveja ser mais elevado do que o menu do dia em muitas tascas. Só se ouve falar em português e o cartaz é assumidamente lusófono. Ou seja: ao primeiro olhar, o Coala, recente no circuito nacional do género (mas com origem no Brasil em 2014, com São Paulo como base da produção), é um festival como os outros, mas, ao mesmo tempo, é generosamente particular. Neste primeiro de dois dias da edição de 2026 (o segundo acontece este domingo, com Marina Sena, Ana Frango Elétrico e Zé Ibarra), o objetivo era perceber como. Isso e estar na presença de Caetano Veloso.
Voltando a Branko, começa o concerto, primeiro apenas com a banda de apoio e, passados quinze minutos, com as Tuyo. Desde a primeira canção do primeiro concerto (na verdade, o segundo, já que uma hora antes Zeca Veloso abrira as hostilidades), tornam-se claras duas tendências, que se manterão ao longo do resto do dia: o som está melhor do que é costume em festivais desta dimensão e não há cá adereços. Branko e a sua banda estão em palco todos vestidos de branco e sem quaisquer efeitos visuais, sem projeções de vídeo no ecrã ao fundo, numa rejeição do acessório que, além de refrescante, parece condizente com o manifesto contra os algoritmos que Branko proclamara timidamente antes de chamar ao palco as Tuyo, que descreveria como a sua banda favorita. O padrão repetir-se-ia nos concertos seguintes, sendo o ponto máximo deste despojamento estético Bonga, que atuaria durante uma hora, tendo como fundo invariável um vídeo de uma pequena cascata com o logótipo do Coala Festival.


Enquanto em palco ecoam os primeiros acordes de Reserva Pra Dois, a célebre colaboração de Branko e Mayra Andrade, encaminho-me para os bastidores para conversar dois minutos com Bonga, ainda de blazer, camisa azul e óculos de sol. Para quebrar o gelo, conto-lhe que batizei a minha cadela com o nome dele. Ele mal reage, ou por ser esse o pão-nosso de cada dia, ou porque, suspeito, nem me ouviu. Está uma casa cheia de jovens, digo-lhe, para assistir aos concertos de dois artistas (Bonga e Caetano Veloso) nascidos curiosamente no mesmo ano, 1942. Pergunto-lhe se isso o reconforta, numa altura em que o fim da carreira não estará muito longe. Se isso muda de alguma maneira o significado que os concertos têm para ele. Bonga olha-me muito sério e, Deus o guarde, diz-me que é capaz, sim, mas que isto é o ganha-pão dele. Fica feliz por ver pais, filhos e avós na plateia, e sabe que as pessoas se vão lembrar dele durante muitos anos, mas isto que está prestes a acontecer, recorda, acontece em grande medida por causa do money, money, diz, esfregando o polegar no indicador, com um sorriso malandro.
Saio dos bastidores ainda a tempo de ver Branko no meio do público a regressar às origens, com Kalemba (Wegue Wegue), a um mês de se voltar a reunir com os Buraka Som Sistema na edição deste ano do NOS Alive.
Como o Coala é um simpático animal pachorrento, o festival homónimo evita o corrupio de obrigar os espectadores a andarem a correr de palco em palco para filmarem e, com alguma sorte, verem metade de cada concerto. Assim, com o som da DJ Mutaca como fundo, há quarenta minutos para queimar entre Branko e Bonga, que aproveito para ir conversando com alguns espectadores. Percebo agora que o público se divide praticamente em partes iguais entre portugueses e brasileiros, o que faz sentido por se tratar de um festival da lusofonia que, nas até agora três edições da versão portuguesa, teve sempre como cabeças de cartaz nomes grandes da música brasileira (Jorge Ben Jor e Gilberto Gil, em 2024, Ney Matogrosso e Criolo, em 2025 e, este ano, Caetano, ontem, e João Gomes, hoje). Pergunto isso mesmo a um trio de amigas brasileiras e descubro que uma delas vivia cá em 2024, apaixonou-se pelo público, pela curadoria e pela higiene das casas de banho do festival e agora traz as amigas todos os anos a Portugal propositadamente para isto.


Poucos minutos depois, repito a pergunta a um trio de amigos, também eles brasileiros. Mal sugiro que o Coala é, em certa medida, um festival brasileiro, um deles, um tipo que parece uma mistura de Sting com Wolverine, fica imediatamente na defensiva e diz que lhe parece normal que se formem comunidades entre imigrantes que partilhem o mesmo país de origem e que estas depois se reúnam em celebrações como esta. Percebo que, por algum motivo, viu na minha descrição do festival um ataque a uma suposta excessiva brasileirização de Portugal, de que imediatamente se quis proteger e, depois de mais duas perguntas, despeço-me, desejando-lhe uma boa festa.
Dali a pouco, quando Bonga subir ao palco, a alegria genuína da multidão, que repetidamente grita em coro o nome do cantor, lembrar-me-á desta conversa, e pergunto-me se esta felicidade de que me sinto rodeado desde que aqui cheguei não será, afinal, a respiração folgada depois de uma apneia demasiado demorada. Se esta leveza toda não será apenas o alívio por o lobo não ter ainda chegado este Inverno. Ou talvez tudo isto seja apenas porque, de facto, é impossível ficarmos tristes ao ouvir a Mulemba Xangola ou a Mariquinha. É impossível ficar triste quando ouvimos Bonga constatar “São muitos anos a receber”, apenas para uma segunda voz completar “Beijos de mulher”. É impossível não sorrir quando Bonga se dirige a um elemento feminino do público e lhe diz “Que nunca falte ao teu namorado o que me dás a mim”, acrescentando “Falo também aos homens: elas mudaram derivado do século. À robustez”. Acima de tudo, é impossível não sorrirmos por Bonga estar vivo. Mesmo que ressoem pressagiadores os versos de Olhos Molhados, dos mais nítidos por ele cantados, onde se fala do aproximar da morte, “se um dia a mais, se um dia a menos”.
Segue-se o Slow J, um rapaz de timbre bonito e bem intencionado, com letras cheias de bons sentimentos e uma legião de fãs bastante audível, que guardou os maiores momentos do concerto para o fim, encabeçados pela excelente versão ao vivo do seu Às Vezes, e que não se cansou de apontar reverencialmente para os deuses octogenários que pairavam ontem à noite sobre o firmamento cascalense.


No entanto, como seria expectável e como depressa se tornou evidente, estávamos todos ali para receber Caetano Veloso. No extraordinário Nina Simone’s Gum, o Bad Seed Warren Ellis narra o concerto de Nina Simone a que assistiu em Londres, em 1999. Ellis estava nos bastidores, viu Simone abatida e prostrada e temeu que o concerto fosse cancelado em cima da hora. Minutos antes de subir ao palco, foram-na chamar e Simone levantou-se lentamente, levou uma pastilha à boca e caminhou até ao piano, perante o olhar aterrorizado do público. Tirou a pastilha da boca, colou-a à parte inferior do piano e deu o melhor concerto a que Ellis alguma vez assistiu.
Lembrei-me disso mesmo ao ver Caetano aproximar-se da boca de palco. Vinha de camisa vermelha, calças cinzentas largas e sapatos ergonómicos. Vinha devagar. Vinha frágil. E eu senti-me aterrorizado a imaginá-lo ali de pé durante hora e meia. Tive medo de o descobrir igual aos que estávamos do lado de cá. Ele parou em frente a nós e, de sorriso sempre no rosto, a dançar sempre que o corpo consentia, cantou um repertório em grande medida já perfeitamente formado quando 90% daquele público ainda não tinha nascido.
E vê-lo assim, de voz perfeita, mas imperfeitamente humano, cantar que tudo é ao mesmo tempo perigoso e divino e maravilhoso trouxe para o canto do olho a lágrima que antes Bonga anunciara. Depois, perguntou-nos, num tom que só Caetano Veloso conseguiria fazer ligeiro, “Existir, a que será que se destina?”, uma pergunta que aquela noite tornava tão intensa.


Depois de o público ter cantado em uníssono e apoteose Sozinho, que Caetano recordou ser a única até ali não composta por ele, explicou que provavelmente nunca mais conseguiria voar até Portugal, pelo que não poderia partir sem antes cantar um fado que aprendera com dez anos e que conhecera por uma fadista cujo apelido tentou em vão recordar. Cantou Rosinha dos Limões e depois Leãozinho e foi por aí afora, percorrendo uma carreira cheia de momentos sublimes de que até daqui a cinquenta anos custaria despedirmo-nos.
Mais cedo nesta semana, Lisboa parou para receber os dois concertos de Bad Bunny no Estádio da Luz. Não vi quase ninguém recordar que vinha também aí o Caetano Veloso. Como se um milagre que já se repetiu tantas vezes se tornasse por isso menos espantoso. Como se termos tão humano deus a passear pela brisa da tarde fosse lógico. Num mundo onde tudo parece em construção mas já é ruína, a nossa obsessão pelo começo, pelo pico, pelo absoluto estrelato rapidamente descartado em detrimento da próxima super-estrela do momento foi ali, durante duas horas, trocada por um olhar comovido para o momento em que a cortina começa a cair. A alegria de lágrimas nos rostos que vi repetidamente à minha volta parecia compreender alguma coisa extraordinária sobre estarmos vivos.
É que, por mais certa que a morte seja, cantando, eu mando a tristeza embó-ó-ra. Talvez também por isso este Coala tenha um segundo dia. Fica a nota: é este domingo.
“Passeio das Virtudes” é uma rubrica sobre vidas portuguesas e portugueses nas suas vidas.