Nunca me interessei muito por distinguir gerações em nomes diferentes. Até que há uns tempos, num jantar com a nossa amiga Alê e o nosso amigo Alberto, casal brasileiro, ela caricaturou os millenials com muita graça. Eu nem sequer sabia bem onde começavam e terminavam os millenials, não sabia onde começava e terminava a geração X—a minha, quanto mais as seguintes Z e Alfa. De lá para cá embarquei no jogo.
Que o digam os meus colegas millenials que têm de me aturar quase todos os dias. Agora passo a vida a fazer pouco deles, da sua irritante mania de querer o mundo todo explicadinho, da sua escassa capacidade de risco, entre outros defeitos que me parecem imperdoáveis. Em menos de nada, tornei-me numa pessoa que liga às diferenças entre gerações, para redundar no elogio óbvio da minha. O jogo tornou-se divertido sobretudo quando ganho, claro.
A geração X, a minha, é geralmente detectada entre os que nasceram de 1965 a 1980. Os millenials são os que nasceram entre 1981 e 1996—os anos negros em que tudo começou a descambar mais ainda. É verdade que, se prestar mais atenção à geração Z, que é a dos que nasceram entre 1997 e 2012—a dos meus filhos, acho que ainda a vou desprezar mais ainda. A piada de ligar ao assunto é os nossos sentimentos poderem exprimir-se sem as amarras de uma ciência exacta.
O problema é que, se prestar tanta atenção à geração Z como aos millenials, vou ter de reconhecer que os seus defeitos ligam-se à minha geração, que a educou. Logo, prefiro concentrar-me nos pobres millenials, geração da qual ainda posso lavar as minhas mãos. Vou deixar a geração Z irritar sobretudo os millenials, que então poderão olhar para mim com um tipo de superioridade moral semelhante àquela que pratico com eles.
Numa busca desinspirada no Google, os millenials “vivenciaram o nascimento da internet e a transição para a era digital. Dão grande prioridade ao propósito no trabalho, equilíbrio entre vida pessoal/profissional e flexibilidade.” E eis o problema que começa logo com o primeiro verbo usado: “vivenciar”. Os millenials “vivenciam” em vez de simplesmente “viver”. Há nos millenials uma cortina constante entre a realidade e a percepção, disfarçada em truques conceptuais que estes neologismos saloios denunciam.
Sim, discrimino pessoas que usam o verbo “vivenciar”. Discrimino-as silenciosamente, claro, porque sou cristão e porque devo amar o próximo, até o próximo que pratica o pecado grave de esconder a sua timidez existencial com vocabulário biotecnocrático. Os millenials são a primeira geração na história do mundo que resolveu vivenciar em vez de viver. De lá para cá, tudo só pôde piorar. Os millenials não têm vida, têm vivências. Paz à alma deles.
Nessa mesma desinspirada busca no Google, a geração X é “conhecida como a geração da transição analógica-digital. São independentes, pragmáticos e muitos assumem atualmente posições de alta liderança corporativa.” Sejamos sinceros: ninguém sai propriamente elogiado de uma descrição assim. Todavia, desejo sublinhar a independência e o pragmatismo. Pessoas independentes e pragmáticas não vivenciam, vivem. Disso ninguém pode duvidar.
Desde que o mundo é mundo, as pessoas irritam-se de todos os modos possíveis e imaginários. Por que haveria a data de nascimento ser uma excepção? A humanidade pode ser dividida por gerações, umas piores do que outras. Se o assunto for observado com algum humor, poderá continuar noutros a piada que encontrei naquele jantar com a Alê e o Alberto. À mesa rimo-nos dos millenials, diante da geração Z representada pelos meus filhos. No futuro eu serei a piada dos que se seguirem.