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(A) :: A encíclica papal à luz da Maçonaria Regular

A encíclica papal à luz da Maçonaria Regular

A Maçonaria Regular não poderia estar mais de acordo com o Santo Padre quando ele aponta que “a verdadeira realização não nasce da supressão das fragilidades, mas de um crescimento harmonioso

Paulo Rola
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A exortação feita pelo Santo Padre Leão XIV no final da introdução da Carta Encíclica ‘MAGNIFICA HUMANITAS’ é clara: “A todos os fiéis católicos, a todos os cristãos, a todos os homens e mulheres de boa vontade, dirijo um sentido apelo: não tenhamos medo de sujar as mãos no canteiro de obras do nosso tempo”.

Em resposta a esse mesmo apelo, como Obediência que inclui, nos seus princípios, a crença obrigatória em Deus, e que integra um número extremamente representativo de maçons que são também professos da religião católica, entende a Maçonaria Regular portuguesa responder positivamente a esta chamada ao serviço por parte do Papa e face a um tema tão profundamente determinante para o futuro não apenas da tecnologia e da ciência, mas de toda a Humanidade pela sua transversalidade e alcance disruptivo.

Tal como o texto da Encíclica reafirma, “a técnica não deve ser considerada, em si mesma, como uma força antagónica em relação à pessoa”. Mas é também crucial entender que “outrora, eram sobretudo os Estados a orientar e a dirigir a inovação. Hoje, pelo contrário, os principais motores do desenvolvimento são sujeitos privados, frequentemente transnacionais, dotados de recursos e capacidades de intervenção superiores aos de muitos Governos. O poder tecnológico assume, destarte, uma identidade inédita, predominantemente “privada” e, portanto, ainda mais difícil de discernir, gerir e orientar para o bem comum”, alerta o Papa Leão XIV.

Ainda na sua introdução, o texto aponta claramente o caminho a seguir para transpor este desafio, e que é o da partilha e não da divisão, o da Nova Jerusalém e não o de Babel. Em suma, o da incorporação do divino no propósito da construção comum, em lugar da tentação do humanocentrismo que transporta consigo a inevitável queda.

Nesse caminho, e obviamente sem entrar no campo teológico que é do foro da Igreja Católica Apostólica Romana, interessa à Maçonaria Regular regozijar-se com a menção a “um discernimento partilhado, capaz de penetrar nas raízes espirituais e culturais das transformações em curso” e salientar a dimensão otimista e humanista da ‘MAGNIFICA HUMANITAS’  que é, em essência, uma chamada à ação.

Ao escrever que “Se nos limitarmos às contingências, corremos o risco de deixar que uma série de emergências decida, em nosso lugar, a direção do caminho”, o Papa coloca-nos a todos a responsabilidade de fazer, não apenas de entender. De agir e não apenas de ouvir.

A Maçonaria Regular não poderia estar mais de acordo com o Santo Padre quando ele aponta que “a verdadeira realização não nasce da supressão das fragilidades, mas de um crescimento harmonioso: onde a liberdade e a responsabilidade se entrelaçam com o cuidado recíproco e a verdadeira solidariedade, e onde o progresso se mede pela dignidade de cada um e pelo bem dos povos”. Este é um parágrafo que, de certa forma, descreve um dos eixos principais da Maçonaria Regular, o do desenvolvimento harmonioso do Homem em solidariedade para com os restantes. Ao sublinhar que “construir um mundo onde todos possam ‘florescer’ exige uma corresponsabilidade corajosa”, os Maçons reconhecem-se nessa corresponsabilização e estamos prontos a unir os nossos esforços e contributos para o objetivo comum.

Há alguns meses, a Maçonaria Regular portuguesa promoveu um debate sobre a Inteligência Artificial e a Saúde. Mas os assombrosos progressos, a par das questões que nos assombram, extrapolam para todos os setores da atividade humana.

Neste seu histórico texto, o Papa alerta-nos também para a “responsabilidade duma autêntica participação” e aponta que “a solidariedade expressa-se quando cada um, pessoalmente e com os outros, participa na vida da comunidade – informa-se, associa-se, faz-se ouvir, contribui para as decisões e escolhas públicas – assumindo responsabilidades concretas para que o bem comum se traduza em escolhas partilhadas”.

Aqui também estamos completamente em sintonia e aqui também se manifesta um valor tão católico e cristão quanto maçónico, essa “solidariedade efetiva” de que fala Leão XIV.

É sabido que existe uma doutrina que lamentavelmente impede o diálogo institucional concertado entre Igreja Católica e Maçonaria, mesmo a Regular, mesmo sendo nós crentes e tantos de nós praticantes. É uma decisão que mais uma vez, à luz desta encíclica, acreditamos que possa vir a ser revertida no futuro próximo.

Obviamente, para impedir uma nova Babel e pelo contrário seguirmos o exemplo de Neemias na reconstrução de Jerusalém, todos somos necessários, e o diálogo é tão mais justificado quando olhamos mais para o que nos une nos princípios e nas ações, e menos para o que eventualmente nos divida.

Em nome de todos os maçons regulares, envio à Igreja Católica e ao Santo Padre Leão XIV os nossos sinceros agradecimentos por uma magnífica encíclica, que a todos nos ilumina e ajuda no caminho da luz.