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O profeta, o populista e o prostituto

Dificilmente Passos Coelho e Ventura serão parceiros porque querem ocupar o mesmo espaço político. São adversários que se falam enquanto se medem um ao outro. Esta é a breve história de três políticos

André Abrantes Amaral
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Em Dezembro escrevi sobre um assunto que está agora na ordem do dia: o que quer Passos Coelho do Chega? Na altura, Passos tinha finalmente saído do seu buraco em que se enfiara e começado a dizer o que pensa sobre o actual governo: que não reforma e que se não fizer reformas os problemas se vão avolumar até que a sua resolução implique sacrifícios maiores que os actualmente necessários. No fundo, não tem dito nada que não saibamos todos. Mesmo os que apoiam este governo; mesmo os que detestam Passos Coelho; mesmo quem, à esquerda, é contra as reformas que foram diagnosticadas há anos. O país não tem grande futuro da forma que está. Com o nível de endividamento que tem encontra-se ligado à máquina do euro para que não haja inflação ou o estado se desintegre, ao mesmo tempo que a economia portuguesa perde competitividade com uma moeda única pensada para outras realidades. Ou seja, ou saímos do euro e a economia colapsa ou fazemos reformas e passamos a ter uma economia competitiva que retira os melhores benefícios de uma moeda forte. É tão simples quanto isto por muito que levar isto por diante seja difícil.

Quando se tornou primeiro-ministro depois de ter perdido as eleições, António Costa percebeu o óbvio: que para ganhar as próximas tinha de dividir a direita. Partir o PSD. Com isso em vista hostilizou ao máximo o governo anterior e culpou-o do ambiente crispado que ele e Marcelo iriam desfazer. O objectivo foi ferir o mais possível o orgulho dos apoiantes do PSD de Passos Coelho ao mesmo tempo que se mostrava condescendente com outro PSD, mais disponível para entrar no jogo. Foi nessa altura que surgiram Rui Rio e André Ventura.

Os dois viram na divisão do PSD uma oportunidade de ouro. O primeiro, porque lhe permitia ser líder. O segundo, porque a fúria provocada por Costa abria espaço a um novo partido que desse voz à indignação. O PS era um partido de corruptos que estava no governo sem ter ganho eleições. Os ciganos deram o mote e o espaço nas televisões. Costa sorriu e deu o empurrão final na engrenagem. Tudo corria de feição.

Até que não.

É que António Costa esqueceu-se de um pormenor. Apesar de conhecer bem a natureza do país que governava ignorou que, com o passar do tempo e as reformas em banho-maria, a qualidade de vida se deteriorou ao ponto de Ventura deixar de ser a voz dos indignados para ser a dos ignorados: os que perderam o acesso à saúde e não têm meios de pagar um seguro; a população que deixou de poder comprar casa; os pais que não podem tirar os filhos da escola pública; os mais pobres que convivem lado a lado com um grande número de imigrantes que não falam português; os que saem das faculdades e descobrem que os seus cursos servem para empregos que pagam ordenados baixos. Nessa altura, Ventura deixou de ir buscar os votos ao PSD para passar a ir buscá-los ao PS. O Chega passou a ser o partido dos mais velhos, dos pensionistas, dos funcionários públicos, das pessoas com menos formação e menores rendimentos. Ou seja, o Chega tornou-se no novo PS. Só que um PS de direita. Foi quando o Chega se tornou num PS de direita que o partido de Ventura deu salto e passou de 12 para 50 deputados e depois para 60.

O Chega é um sinal dos tempos. Se economicamente é semelhante ao PS, no que toca aos valores mais tradicionais, o conceito de nação, de cultura, de família, o partido de Ventura é de direita. O Chega é um sinal dos tempos porque a direita hoje em dia quer uma intervenção do estado na economia ao mesmo tempo que deseja que o estado regule a vida social. A migração, o que é uma família, qual a identidade do nosso país e por aí em diante.

Os problemas que Costa não resolveu durante oito anos tornaram o eleitorado do PS num eleitorado de direita no que toca às questões de identidade. É um eleitorado que quer segurança. No emprego, no acesso à saúde e à educação, mas também nas ruas e no seio dos grupos sociais que são a base da sociedade.

António Costa não sofreu as consequências do desastre porque saiu em tempo e de um modo que descreve melhor que ninguém a sua verdadeira natureza. No seu lugar apareceu Luís Montenegro, um político formado nas distritais do PSD e que ainda hoje não acredita que é primeiro-ministro. Montenegro ganhou duas legislativas, mas com resultados à volta dos 30%, longe do normal para o PSD e com valores não muito diferentes dos de Rui Rio em 2022 e 2024. Ou seja, apesar de ter ganho, Montenegro não conseguiu mais que Rio. Simplesmente beneficiou dos votos que o PS perdeu para o Chega. A tal transferência que Costa não anteviu (apesar de aqui e noutros textos ter sido equacionada neste jornal) e que acabou por fazer do PS a terceira força política.

Chegado ao governo, Luís Montenegro mostrou que não sabe o que fazer naquele lugar. Quando lhe dizem que são precisas reformas responde que sim, mas que não as pode implementar porque não tem maioria. É uma desculpa como outra qualquer porque se não faz o que diz que sabe que tem de ser feito resta que se lhe pergunte: o que é que está aí a fazer? A passar tempo? Costa já fez isso. A convencer o eleitorado a votar em si? As sondagens dizem-lhe que não. O que é que Montenegro está a fazer em São Bento? Se é a ser o que sempre foi, um político de distrital, então não há motivos para grandes ilusões porque vamos continuar a definhar. Mas se for outra razão que ainda não vimos é caso para concluir que alguma coisa não vai bem por aqueles lados.

P.S.: na semana passada fiz referência a uma crónica de Arturo Pérez-Reverte mas, por algum lapso que me ultrapassa, não foi feita a devida ligação. Aqui fica.