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Coisas Novas

Talvez a AI seja muito mais do que um simples instrumento que se sujeite à remoção de umas partes consideradas perigosas. É muito mais do que um míssil que não deixa de o ser se lhe removermos a ogiva

Miguel Morgado
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Leão XIV não perdeu tempo a explicar por actos a razão de ter escolhido o seu nome apostólico em sucessão numérica a Leão XIII. Já o sabíamos, claro, mas com a publicação de Magnifica Humanitas a intenção ficou consumada: seguir o grande fundador da chamada Doutrina Social da Igreja e também ele conceder à comunidade cristã e ao mundo uma reflexão de extensão dos princípios tradicionalmente estabelecidos sobre matérias sociais e políticas.

A Igreja tem 2000 anos de reflexão social, económica e política, desde logo nas palavras e actos do seu fundador, Jesus de Nazaré, ou nas cartas às comunidades cristãs espalhadas pelo Mediterrâneo do seu grande Apóstolo, Paulo de Tarso. Mas foi com Leão XIII, e a propósito das transformações sociais geradas no mundo Ocidental por revoluções tecnológicas sucessivas ao longo do século XIX, que se iniciou a tradição de os Papas partilharem a sua visão dos temas da vida concreta colectiva dos povos à luz da revisão, muitas vezes crítica, das ideologias e idolatrias alternativas, como o fascismo, o comunismo, o liberalismo ou o nacionalismo.

Para Leão XIV, a “questão social” permanece no nosso tempo. Isto é, os riscos e tragédias da exploração e opressão de classes de pessoas às mãos de poderosos inclementes. Já não protagonizados pelo operariado industrial sujeito aos rigores do desenvolvimento económico oitocentista. Agora somos todos aqueles que estão expostos aos perigos e malefícios em vários planos trazidos por uma outra revolução tecnológica que naturalmente se está a converter em revolução industrial e social: a da inteligência artificial (IA) e da construção dos mundos digitais.

É, sem qualquer dúvida, o tema do nosso tempo e que carecia já de uma resposta consolidada da Igreja, assim como de todas as fontes de autoridade ética do nosso mundo. Se o mundo ainda escuta o Papa e a Igreja é outra questão, mas o Papa tem o dever de falar mesmo quando a Igreja ficar reduzida a grupos exíguos de fiéis. Também não restam dúvidas de que o tema da IA pode ser colocada nos termos tradicionais da Rerum Novarum e de outras encíclicas papais: o dever de protecção dos mais fracos, dos mais pobres, aparece revigorado; e a questão da inclusão aplicada a um desenvolvimento tecnológico e económico digno desse nome tem importância renovada.

Com efeito, e mobilizando os conceitos e princípios estabelecidos pela tradição da Doutrina Social da Igreja – a subsidiariedade, a solidariedade, o destino universal dos bens e, presidindo a estes todos, a dignidade infinita da pessoa humana –, Leão XIV investe uma parte muito considerável do texto apelando à inclusividade no acesso às novas tecnologias; à participação da sua disseminação e intrusividade; ao controlo do tráfico de dados ou ao escrutínio dos mecanismos invisíveis de funcionamento das tecnologias e até das pessoas que os controlam.

Há muitas e boas razões para o fazer. Por um lado, a dependência do mundo e de cada um de nós relativamente a estas tecnologias, e, por outro, a constituição de um punhado de impérios empresariais nos EUA e na China que produzem e fornecem estas tecnologias, fazem com que o mundo pareça caminhar para o pesadelo imaginado pela ficção científica dos anos 70, em que o mundo é radicalmente despolitizado porque passa a ser, para todos os efeitos, governado por empresas monopolistas da tecnologia vital. Essa é a mensagem do Papa em favor dos descamisados e em repreensão dos corações esfriados dos grandes magnatas tecnológicos.

Além do conflito social, há também uma oportuna meditação sobre questões mais subtis, como a ameaça do desemprego massivo, por via da substituição, ou das investidas agressivas sobre a liberdade humana e sobre a civilização do amor. Para a Igreja, não há substituto para o acesso ao trabalho compatível com a dignidade humana, o que vale por dizer que no Cristianismo do século XXI permanece a tese de que o trabalho é uma actividade insubstituivelmente humanizadora. Nem sempre foi assim para a Igreja, num tempo em que o trabalho aparecia mais frequentemente com a sua faceta desumanizadora, por ser duro, estéril e estupidificante, mas, sobretudo desde Leão XIII, o trabalho emergiu como esta actividade fundamental da experiência humana. Neste contexto, ao Papa não atrai a utopia pensada por tantos milenarismos actuais e remotos de um mundo em que o trabalho humano se torne obsoleto, passando integralmente a cargo de computadores e robots.

Também não atrai, e pelo contrário, repugna as promessas contemporâneas de alguns intérpretes e fautores da actual revolução tecnológica – as promessas do transhumanismo e, pior ainda, do pós-humanismo. Essas promessas são simples e poderosas como todas as promessas políticas mobilizadoras. No fundo, reduzem-se a transcendermos os limites da nossa mera humanidade – a escassez, a dor, o sofrimento, a deterioração e, finalmente, a mortalidade.

O Papa assinala as graves ameaças desses novos profetas e prega uma ética fundada na dignidade dos “limites” – isto é, de que as nossas limitações são o enquadramento da humanidade infinitamente digna porque não deixam de ser objecto do amor de Deus. Porém, o Papa não quer recusar os dons das novas tecnologias em todos esses domínios – na remoção da dor física, na cura das doenças, na produção da abundância dos bens cuja escassez provoca tanto sofrimento no mundo, em particular nos pobres e descamisados, em nome dos quais a Igreja fala. Além disso, a Igreja está ciente de que existe uma fronteira entre os benefícios inauditos e a transcendência dos limites. Mas quem mais quer escutar que o valor da nossa vida está na sua finitude? O Papa quer “desarmar” a IA para torná-la apenas generosa e inofensiva. O problema é que talvez a AI seja muito mais do que um simples instrumento que se sujeite à remoção de umas partes consideradas perigosas. Afinal de contas, a IA é muito mais do que um míssil que não deixa de o ser se lhe removermos a ogiva nuclear.

Todas estas formas religiosas secularizadas de promessa de abundância e imortalidade arriscam-se a conquistar multidões e a produzir novos infernos. Mas o que são elas senão a reencenação da grande promessa trazida pelo Cristianismo? Como religião, o Cristianismo também nasce de uma promessa de transcender a mortalidade – numa vida sobrenatural depois da morte natural. E cuja ressurreição incluía os próprios corpos. O que seria a vida eterna para os escolhidos? A vida de abundância – no Paraíso não se trabalha; e a vida de realização infinita na visão beatífica de Deus – uma forma sublime e incomensurável de prazer que negaria toda e qualquer forma de dor ou de escassez. As promessas do transhumanismo e do pós-humanismo reconstituem as promessas do Cristianismo, mas afirmando apenas a vida material como a única sede de transcendência dos limites, e substituindo Deus por um algoritmo. Passando essa fronteira, seria a morte da Magnifica humanitas celebrada por Leão XIV como a mais magnífica criação de um Pai infinitamente amoroso. Nas muitas corridas em curso nesta revolução tecnológica, também esta se desenrola diante dos nossos olhos: a criação de novos ídolos em detrimento dos antigos.

Finalmente, uma ausência que me espantou na encíclica. Uma das grandes ameaças da AI é tornar cada um de nós supérfluo. Não falo de desemprego tecnológico, cuja compensação por um rendimento universal é rejeitada por Leão XIV. Falo da nossa superfluidade em cada instante da nossa vida – mesmo dos momentos mais íntimos do lazer que viéssemos a obter nesse novo mundo de abundância. Essa superfluidade viria da consciência permanente e melancólica de que nada do que pudéssemos fazer não seria superiormente feita pela IA – e em décimos de segundo. Todas as conversas, todos os poemas, todas as descrições de memórias, para nada dizer de todos os problemas científicos, todos os problemas políticos – tudo seria supérfluo nas mãos e no cérebro de um humano. E a partir dessa consciência o abismo mais horrível da história da Humanidade se abriria.

Haveria algum antídoto para esse abismo? Sim. O amor. Seria necessário propor uma civilização do amor – isto é, uma civilização humana inteiramente dependente e construída com base no amor. Até porque nada mais restaria num mundo hiper-abundante. Tratar-se-ia de mais uma utopia. Uma que provavelmente é impensável sem Deus, mas que nem por isso o Papa deixa de propôr.