Quem foi Marilyn Monroe? Na última entrevista que deu, a própria parecia não ter a resposta. “Sou tantas pessoas. Às vezes elas chocam-me. Gostava de ser só eu própria”, confessava. Uma impossibilidade para a mulher nascida Norma Jeane Mortenson há precisamente 100 anos, a mesma que o mundo e as câmaras transformaram em Marilyn, estrela que brilhou de forma incandescente e se extinguiu de forma precoce, aos 36 anos.
Monroe foi muitas versões para muitas pessoas diferentes: criança com uma infância perturbada, vítima de abusos sexuais logo aos 8 anos de idade; jovem modelo e aspirante a atriz, com uma beleza que depressa se fez notar; estrela e símbolo sexual capaz de seduzir atores, desportistas e até presidentes, pese embora a sua timidez e dificuldade em lidar com os holofotes da fama; eterna estudante, interessada em livros e no método de Stanislavsky, determinada em quebrar a imagem de “loira” a que a fábrica de Hollywood dos anos 50 a condenara (Lee Strasberg, famoso professor do Actor’s Studio de Nova Iorque, considerou Monroe uma aluna brilhante); figura atormentada, inquieta, instável, que nunca superou a ausência do pai e o desgosto por não conseguir ser mãe – fatores que terão contribuído para a dependência de opioides e o eventual suicídio, em 1962.
64 anos depois da morte, a figura de Monroe continua a suscitar interesse, reprodução e estudo obsessivo. No cinema, várias foram as atrizes que lhe deram vida, frequentemente com elogios da crítica e distinções várias da indústria do cinema (expiação e mea culpa pela relação com a estrela em vida?). Andy Warhol, claro, fez do seu rosto a imagem de marca de um movimento artístico que definiu a segunda metade o século XX. Em todas estas interpretações e reinterpretações de Norma Jean, um desejo comum: o encontro da verdade, de uma qualquer essência primordial que ajude a explicar Marilyn aos olhos do mundo.
A tragédia e triunfo da sua vida fazem também da atriz matéria óbvia para a literatura. São dezenas, talvez centenas, os livros escritos sobre Marilyn, concebidos a partir de todos os ângulos imagináveis: biografia, ficção, arquivo pessoal, filosofia, história da arte e do cinema. Com maior ou menor proximidade ao sujeito, variados autores tentaram ao longo dos anos capturar a sua ideia de Marilyn Monroe, expô-la à luz, examinar de forma retrospetiva quem e o que foi este fenómeno do cinema e da cultura popular. Provavelmente, nunca ninguém será capaz de responder cabalmente à pergunta. Mas talvez seja na busca incessante por uma resposta que se encontre o seu significado.
“Goddess: The Secret Lives of Marilyn Monroe”
De Anthony Summers

Possivelmente a mais completa biografia de Monroe, este projeto do autor e jornalista Anthony Summers teve uma primeira edição nos anos 80 e várias revisões ao longo das décadas (a mais recente versão foi editada em 2013, pela Open Road), com base em centenas de entrevistas e documentos, de pessoas que privaram com a atriz aos arquivos pessoais dos seus psiquiatras, pintando um extenso retrato da difícil coabitação de Norma Jean e de Marilyn Monroe na mesma mulher, com particular destaque para a sua relação com os homens da família Kennedy, e para as circunstâncias em torno da sua morte.
“Marilyn Monroe: The Last Interview and Other Conversations”
Vários autores

O destaque do título vai para a derradeira entrevista de Marilyn em vida, concedida ao jornalista Richard Meryman, da revista Life, e publicada dois dias antes da sua morte. Mas The Last Interview é mais do que isso, recolhendo conversas e depoimentos da atriz ao longo de toda a carreira, dos primórdios antes da fama ao auge do estrelato e da obsessão com a sua imagem. Através dos textos aqui recolhidos, é possível depreender a evolução das suas opiniões sobre Hollywood, o seu lugar no mundo, e o olhar de Norma Jean sobre o fenómeno “Marilyn”. O livro não tem edição portuguesa, mas está disponível online no inglês original, com edição da Melville House.
“Fragmentos”
De Marilyn Monroe

Um dos olhares mais íntimos sobre a vida interior de Monroe, consiste numa recolha profunda de cartas, poemas e notas privadas que a própria produziu ao longo da vida. Editado em 2012 (também em Portugal, pela Objetiva), por ocasião dos 50 anos da sua morte, Marilyn fala na primeira pessoa dos traumas da infância, dos abusos sexuais de que foi vítima, dos desgostos românticos e do medo da doença mental que acometera a mãe, e de que a filha temia padecer.
“My Week with Marilyn”
De Colin Clark

Obra controversa, foi adaptada ao cinema em 2011 no filme homónimo com Michelle Williams no papel principal (seria nomeada ao Óscar nesse ano). Ainda que a veracidade de todos os factos seja disputada, é ainda assim um fascinante relato na primeira pessoa de Colin Clark, cineasta que à época era um mero aspirante nas gravações de O Príncipe e a Corista, testemunhando a tumultuosa e difícil relação de Marilyn com as câmaras, e consigo mesma. Disponível no original inglês, com chancela da Harper Collins.
“Blonde”
De Joyce Carol Oates

Mais uma obra polémica, mais uma adaptação cinematográfica que valeu à sua protagonista uma nomeação ao Óscar (Ana de Armas, desta vez, em 2022). Inspirada nos factos reais da vida de Marilyn Monroe, a autora Joyce Carol Oates constrói uma biografia ficcionada sobre uma jovem mulher atormentada pelos fantasmas do passado, a ausência de uma figura paterna e o desejo de ser levada a sério pelos seus pares e pelo mundo, contrariando os estereótipos que a definiram e a limitaram. A edição nacional é de 2001, pela Editorial Notícias.
“Marilyn and Her Books”
De Gail Crowther

O convite ao leitor é o de descobrir Marilyn através da sua biblioteca. Na mais recente obra desta lista (editada pela Gallery Books e ainda sem anúncio de edição nacional), a autora Gail Crowther ilumina o fascínio da atriz pelos livros e a sua enorme curiosidade intelectual, facetas pouco conhecidas de uma atriz que, mesmo sem estudos e perante os olhares desconfiados à sua volta, procurou cultivar-se, através da leitura e dos seus encontros e conversas frequentes com autores seus contemporâneos — sem esquecer, claro, a relação com o dramaturgo Arthur Miller, o seu terceiro marido.
“Marilyn”
De André de Dienes

O arquivo fotográfico de André de Dienes — que neste momento pode ser visto em exposição no Centro Cultural de Cascais — é um verdadeiro documento sobre a origem de um ícone. Nesta edição da Taschen, podemos ver as primeiras imagens de Norma Jean, então apenas com 19 anos, que a lançaram como modelo ainda distante do estrelato, antes mesmo do cabelo loiro platinado que viria a marcar a sua imagem. Os registos foram captados pela lente daquele que viria a ser o seu primeiro fotógrafo (e, por um breve período, seu noivo). O livro reúne ainda algumas memórias pessoais de Dienes, que acompanharia Monroe pelo resto da vida, oferecendo um testemunho íntimo sobre a sua ascensão e turbulenta relação com a fama.