“Durante anos, a mesa de jantar no centro da divisão, pronta a receber um casal ou famílias numerosas, foi uma das prioridades em qualquer casa. Mas tudo está a mudar: o design das casas, a estética minimalista...” Aparentemente o artigo era irritantemente igual a tantos outros que por essa imprensa fora dão conta das novas tendências, invariavelmente apresentadas como muito melhores que as imediatamente anteriores. No caso concreto dava-se conta da substituição das “mesas grandes, de madeira, robustas” por algo que está “bem mais dentro da estética mais moderna, virada para a praticidade“, ou seja as ilhas de cozinha.
Obviamente que só pondera fazer refeições numa ilha de cozinha quem não se lembra que a altura a que se cozinha não é a mesma a que se come — as mesas são mais baixas — e que ignora o problema de ter no mesmo espaço os comensais, sejam eles crianças, adultos ou velhos, encarrapitados nuns bancos altos, enquanto tentam gerir pratos, copos e talheres, para mais ao lado de tudo aquilo que saiu do sítio quando se preparou a refeição na mesmíssima ilha. Tenho a certeza de que há quem tenha tido esgotamentos nervosos por menos mas atire a primeira pedra quem, ao fazer obras, nunca optou por algo que nas fotografias parecia fabuloso mas que na prática se revelou um fiasco.
Mas passemos à frente porque o presente declínio da mesa de refeições é muito mais que o resultado de uma moda. Pelo contrário, é o sinal de uma mudança enquanto sociedade. O que estamos a viver não se trata de uma passagem da mesa rectangular para a redonda, ou das mesas que dormiam sob naperons na chamada casa de jantar à espera dos dias de festa para aquelas outras que, numa mecânica ritual e ruidosa, se abriam e fechavam todos os dias em cozinhas e salas.
A assim chamada mesa de jantar, embora lá se fizessem as outras refeições e em muitas casas também fosse mesa de cozinha ou aquela em que muitas crianças faziam os trabalhos de casa, foi mudando de aspecto, dimensão, materiais mas estava lá enquanto centro da vida familiar. E se agora podemos prescindir dela, tal só acontece porque a vida familiar está a mudar para algo que é cada vez mais vida individual, mais atomizado: dados recentes indicam que apenas um terço das famílias inglesas faz uma refeição em comum, por dia. Sendo que também temos de questionar o que se entende por refeição em comum: por exemplo, comem ou não em família os franceses que, a fazer fé nos números, trocam crescentemente a mesa pelo sofá, cadeirão ou o que seja para poderem continuar a interagir com os seus écrans enquanto comem?
A própria comida tem acompanhado esta espécie de individualização conectada das refeições. Não é por acaso que proliferam como pratos de sucesso umas paparocas sem espinhas, ossos ou algo que exija uns segundos de atenção dos comensais: afinal os olhos dos ditos estão num video qualquer, quiçá dum chef ou influencer, cozinhando em minutos um prato invariavelmente espantoso.
A mudança que estamos a viver é aquela que vai de comer sentado a uma mesa, com garfo e faca — e comer alimentos iguais para todos que têm de se cortar e seleccionar, aprendendo a cada refeição que há momentos em que se espera pelos outros, em que se fala ou se tem de ficar calado e, sim, também se aprende, entre o passar do pão e da salada, que gritar, rir, zangar-se faz parte da vida — para uma outra forma de vida. Qual? Aquela em que mesmo numa casa com várias pessoas há quem opte por comer sózinho, preferencialmente com uma colher para ser mais fácil, a sua refeição também ela individual porque cada um tem as suas dietas, alergias e manias, enterrado num sofá ou esticado na cama. Agora eu devia terminar com enquanto faz scroll. Mas o problema seria o mesmo se fosse com um livro. O problema talvez tenha começado precisamente aí: os écrans só ganharam essa espécie de omnipresença porque ocuparam o espaço cada vez mais em desuso e simbolicamente vazio da mesa de refeições de todos os dias.
Por isso, deixemos de culpar a IA por tudo e mais alguma coisa, deixemos também o PS entregue às suas cabalas da justiça, esqueçamos até o facto embaraçoso de a Roménia não ter conseguido destruir o drone russo e olhemos para um assunto igualmente sério: o que simboliza o fim da mesa de jantar.
PS. Algum dos membros da flotilha que se dirigia a Gaza já apresentou provas das torturas a que disseram ter sido sujeitos pelos militares israelitas? Foram a algum hospital quando chegaram para serem examinados e darem desse modo seguimento às queixas que obviamente se espera que apresentem?