“Borda”, de Lia Rodrigues
Culturgest — Auditório Emílio Rui Vilar, Lisboa (2 e 3 de junho), Teatro Municipal do Porto – Grande Auditório do Rivoli, Porto (6 e 7 de junho)
Em português, o termo “borda” reúne diferentes significados, remetendo para conceitos como fronteira, margem ou limite, mas também para o ato de bordar, associado à criação, ao enriquecimento e à imaginação. É isso que explora a coreógrafa brasileira Lia Rodrigues, uma das figuras mais destacadas da dança contemporânea internacional, na sua mais recente criação, originalmente concebida no Centro de Artes da Maré, no Rio de Janeiro.

Em palco, propõe-se uma reflexão sobre as fronteiras geográficas, políticas e sociais através da criação coletiva, da imaginação e da transformação dos corpos em cena. Interpretado por nove bailarinos e recorrendo à reutilização de tecidos, figurinos e objetos de produções anteriores da companhia, Borda transforma memórias acumuladas ao longo de 35 anos de percurso artístico numa paisagem coreográfica sensorial e vibrante.
“Dressing Room”, de Lígia Soares
Ponto C, Penafiel (6 de junho)
Vestida com um exuberante vestido da marca portuguesa Alves/Gonçalves, Lígia Soares sobe ao palco para expor as contradições de um setor marcado pela precariedade: a indústria do luxo. O vestido que enverga terá custado grande parte do valor orçamentado para o espetáculo, confessa ao público. Em Dressing Room, a artista faz da peça de roupa o ponto de partida para uma reflexão mordaz sobre classe, privilégio, visibilidade e a imagem glamorosa frequentemente associada ao universo artístico, mas distante da realidade económica da maioria dos criadores.

Entre ironia e provocação, o espetáculo questiona até que ponto a sociedade contemporânea continua refém da aparência e do espetáculo. Inspirada pelo pensamento de Guy Debord, Lígia Soares confronta o público com uma pergunta incómoda: o que pesa mais, a mensagem ou a imagem? Ao colocar o luxo no centro da cena, Dressing Room desmonta os mecanismos de fascínio e desigualdade que sustentam o mundo contemporâneo, deixando a resposta nas mãos dos espectadores.
“A Gorda”, a partir do livro de Isabela Figueiredo
Teatro Maria Matos, Lisboa (15 a 24 de junho)
Publicado em 2016, o livro A Gorda, de Isabela Figueiredo, desafiou convenções ao abordar temas como a gordofobia, a identidade, o desejo e a construção da autoestima feminina. A obra tornou-se uma referência pela forma crua, irónica e profundamente humana com que retrata a vida de Maria Luísa, uma mulher que perde peso, mas continua prisioneira do olhar que a sociedade lhe ensinou a ter sobre si própria.

Sozinha em palco, Maria Rueff dá voz a um monólogo onde a ironia convive com a dor, revelando as múltiplas camadas de uma mulher que procura reconciliar-se consigo mesma. Espera-se um grande encontro de duas vozes singulares da cultura portuguesa: a escrita afiada de Isabela Figueiredo e a presença de uma das intérpretes mais versáteis do país.
“O Beijo no Asfalto”, de Nelson Rodrigues, encenação Tónan Quito
Teatro Nacional São João, Porto (18 de junho a 5 de julho)
Escrita por Nelson Rodrigues em 1960, a peça parte de um gesto de compaixão — um beijo dado a um homem moribundo — para revelar os mecanismos da homofobia, do moralismo, da manipulação mediática e do julgamento público. Considerada um dos grandes clássicos da dramaturgia brasileira do século XX, O Beijo no Asfalto provocou polémica aquando da sua estreia e mantém intacta a capacidade de expor a rapidez com que uma sociedade transforma um ato humano num escândalo. Numa era marcada pelas redes sociais, pela desinformação e pelos tribunais da opinião pública, a tragédia imaginada por Rodrigues parece escrita para os dias de hoje.

Na nova produção do Teatro Nacional São João, Tónan Quito recupera esta poderosa reflexão sobre preconceito e morte através de uma encenação que preserva o português do Brasil e reúne em palco um elenco integralmente brasileiro residente em Portugal. Mais do que uma história sobre sexualidade, a peça é uma investigação sobre a fragilidade da verdade e sobre a violência exercida por instituições e convenções sociais. Depois de fazer carreira na Invicta, o espetáculo seguirá caminho para o Festival de Almada, em julho (13 e 14).
“Es Tr3s Irms”, de Tita Maravilha
São Luiz Teatro Municipal — Sala Luís Miguel Cintra, Lisboa (26 a 28 de junho)
Foi a primeira criação individual de Tita Maravilha, criadora brasileira radicada em Portugal, e parte do clássico As Três Irmãs, de Anton Tchékhov. Com dramaturgia de Keli Freitas e cocriação e interpretação de Ivvi Romão, June João e Luan Okun, a peça propõe uma releitura pós-contemporânea do texto, deslocando o enredo das três irmãs — presas entre o tédio da província e o desejo de regressar a Moscovo — para um território onde se cruzam subjetividades, normatividade e novas formas de reescrita dos cânones a partir de corpos e vozes mais diversos. Foi o projeto vencedor da 5.ª edição da Bolsa Amélia Rey Colaço, uma bolsa de criação destinada a apoiar a produção de espetáculos de jovens artistas e companhias emergentes.

Mas o que é certo é que o espetáculo, que se mostrou pela primeira vez em 2023, teve uma circulação muito limitada, com apenas algumas récitas em Montemor-o-Novo, Viseu e Guimarães. A sua apresentação em Lisboa, numa grande sala, três anos depois, é, por isso, de salutar. Até porque se na época Maravilha já se afirmava como uma criadora a acompanhar, o reconhecimento viria a ser notado em 2024 com a atribuição do Prémio Revelação do Teatro Nacional D. Maria II.
“Polo Norte”, texto de Seth Bockley, encenação de Jorge Andrade
Culturgest — Auditório Emílio Rui Vilar, Lisboa (26 de junho a 4 de julho)
Em Polo Norte, a companhia A Mala Voadora propõe uma especulação delirante e provocadora: e se o Paraíso bíblico existisse, mas estivesse soterrado sob o gelo do Ártico? A partir de um texto de Seth Bockley, que reescreve as teses de William Fairfield Warren no livro Paradise Found, the Cradle of the Human Race at the North Pole – a Study of the Primitive World,, o espetáculo imagina o aquecimento global como possível chave de acesso ao Éden perdido, onde o gelo teria conservado intacta a origem da humanidade.

Com encenação de Jorge Andrade, o espetáculo reúne um elenco alargado composto por Albano Jerónimo, David Pereira Bastos, Hoji Fortuna, Jani Zhao, Jorge Andrade, José Mata, Maria Jorge e Sílvia Filipe.