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Cruyff, a obsessão pelo coletivo e quatro finais europeias: como se explica o sucesso dos treinadores espanhóis?

Entre masculino e feminino, 4 finais europeias contaram com treinadores espanhóis. Entre a influência de Cruyff, o lado intelectual do jogo e a importância do coletivo, existem motivos para o sucesso.

Mariana Fernandes
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Em 2024, antes de defrontar o West Ham de Julen Lopetegui, Pep Guardiola fez uma breve reflexão sobre o sucesso dos treinadores espanhóis. Alongou-se, como sempre foi seu apanágio, e explicou o porquê de ele próprio e de muitos dos compatriotas estarem espalhados por alguns dos melhores clubes da Premier League, da Bundesliga, da Ligue 1 e da Serie A, para além da óbvia La Liga.

“O nosso segredo é que começamos a trabalhar muito e desde muito novos sobre táticas, metodologias, para entendermos o jogo. Num desporto coletivo é necessário entendermos o porquê de as coisas acontecerem como acontecem”, começou por dizer. “E depois somos competitivos uns com os outros. A competição acende algo dentro de cada um de nós”, acrescentou. Para Pep Guardiola, saber que existem muitos treinadores espanhóis a ter sucesso sempre significou querer ser o treinador espanhol com mais sucesso.

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Esta temporada, porém, não foi — e nem sequer perdeu por falta de comparência. Em 2025/26, entre futebol masculino e feminino, só uma das cinco finais europeias não contou com qualquer treinador espanhol. Se excluirmos a Taça Europa feminina, que o Häcken conquistou ao vencer o Hammarby na final, todas as outras finais europeias tiveram pelo menos um ou até dois treinadores espanhóis: Luis Enrique e Mikel Arteta na Liga dos Campeões, Unai Emery na Liga Europa, Iñigo Pérez na Liga Conferência e Pere Romeu e Jonatan Giráldez na Liga dos Campeões feminina.

Um domínio claro e absoluto que atingiu o clímax este sábado, em Budapeste e na final da Liga dos Campeões, já que esta foi mesmo a primeira vez em que dois treinadores espanhóis se enfrentaram no mais importante jogo europeu — com a particularidade de ambos orientarem equipas estrangeiras. Ao longo da semana e na antecâmara da final, a segunda consecutiva para o PSG e a primeira em 20 anos para o Arsenal, Luis Enrique e Mikel Arteta trocaram elogios.

“É um líder, mudou a mentalidade da equipa a partir do momento em que pegou no Arsenal. É um treinador de altíssimo nível. Esteve em sítios muito bons e aprendeu muito com o Pep no City. O que transmite é o que vemos nos jogadores”, disse Enrique sobre Arteta. “Sempre foi uma referência, inclusivamente enquanto ainda jogava. Sempre foi muito especial para mim e já fez muitas coisas pelo PSG. É obviamente uma fonte de inspiração para mim”, respondeu Arteta sobre Enrique.

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Ainda assim, a temporada brilhante dos treinadores espanhóis não se encerra nos que chegaram às finais europeias. Andoni Iraola levou o Bournemouth às competições europeias pela primeira vez, Cesc Fàbregas apurou o Como para a Liga dos Campeões também pela primeira vez, Xabi Alonso é a nova aposta do Chelsea depois de ter falhado no Real Madrid e Pep Guardiola, apesar de não ter conseguido alcançar a Premier League na época de despedida do Manchester City, carimbou mais uma Taça de Inglaterra e mais uma Taça da Liga. Tudo na antecâmara de um Campeonato do Mundo em que Luis de la Fuente, dois anos depois de ganhar o Euro 2024, quer levar Espanha ao lugar mais alto do futebol mundial.

Tal como explicou Pep Guardiola, é possível detalhar e perceber o porquê do sucesso claro dos treinadores espanhóis — e aí o nome de Johan Cruyff é consensual. O neerlandês lançou a semente do futebol de posse que hoje em dia associamos ao Barcelona e ao tikitaka de Guardiola e a verdade é que o facto de o catalão ter bebido essas ideias criou a base para uma enorme escola de novos e jovens treinadores que não precisaram de passar por Camp Nou para pensarem da mesma maneira.

A fórmula quase científica que Johan Cruyff procurava para criar superioridades numéricas que deixem os adversários encurralados tornou-se a pedra basilar do futebol espanhol. Pep Guardiola repetiu-a no Barcelona e a espinha dorsal dos catalães transportou a ideia para a seleção espanhola — Luis Aragonés primeiro e Vicente del Bosque depois tiveram a inteligência de não mexer no que estava bem feito, limitando-se a orientar um grupo que criou uma autêntica dinastia e conquistou dois Europeus e um Mundial de forma consecutiva entre 2008 e 2012.

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Vista como moderna, organizada, muito forte taticamente e com uma enorme preocupação com a formação e o desenvolvimento de jogadores, a escola espanhola procura sempre uma espécie de lógica quase matemática no futebol. Uma equipa mediana que seja muito disciplinada taticamente pode tornar-se boa, uma equipa boa pode tornar-se muito boa, uma equipa muito boa pode tornar-se ótima — as possibilidades não se encerram no talento individual do balneário, mas sim na dinâmica coletiva que pode ou não ser criada.

Essa metodologia, o triunfo da profissionalização sobre o caos, acaba por ser o fio condutor entre todos os treinadores espanhóis com sucesso. Pep Guardiola prefere a posse, Mikel Arteta assenta na organização defensiva, Luis Enrique aposta numa ótica ultra ofensiva e Unai Emery não abdica de uma intensidade muito acima da média. Mas todos têm esse plano perfeitamente identificado, desenhado e pensado, sem grande espaço para a invenção ou o improviso mas talento para a adaptação e a versatilidade, já que a preparação é a maior arma dos bons resultados.

E a verdade é que essa quase obsessão pela manipulação intelectual do futebol, o facto de praticamente todos os treinadores espanhóis serem autênticos pensadores do jogo, é realçada até pelos que não nasceram no país. Thierry Henry disse há pouco tempo que em Espanha “pensa-se sobre futebol”, que não importa quem joga, mas sim “a filosofia por detrás de quem joga”, mas até foi Philipp Lahm o último a dissecar o fenómeno.

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“Os espanhóis têm uma ideia: defendem com a bola, têm posições e papéis claramente definidos, jogam com um futebol que muda rapidamente a ação para o meio-campo contrário. Em termos cognitivos, isto exige muito mais do que 90 minutos de duelos individuais. Os jogadores têm de cooperar, têm de estar orientados e, no momento certo, partir para o duelo individual. O país inteiro funciona assim. Para os espanhóis é uma questão de identidade. E têm todas as provas de que está a correr bem”, escreveu o antigo internacional alemão no jornal The Guardian.

No fundo, como Pep Guardiola explicou há dois anos, os treinadores espanhóis procuram o porquê de as coisas acontecerem exatamente como acontecem. E a verdade é que, esta temporada, sempre que Luis Enrique ganhou, Mikel Arteta ganhou, Unai Emery ganhou ou Andoni Iraola ganhou, ganhou um país inteiro.

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