O filósofo e sociólogo francês Edgar Morin morreu esta sexta-feira, aos 104 anos, em Paris, França. A notícia foi confirmada pela viúva ao jornal Le Monde. “Edgar Morin, sociólogo do tempo presente e agitador de ideias” é o título do diário francês na notícia da morte de um dos grandes pensadores do último século.
“Até aos seus últimos dias, Edgar Morin manteve-se atento ao mundo, aos outros e aos grandes desafios humanos que alimentaram o seu pensamento”, referiu a mulher, Sabah Abouessalam Morin, num comunicado citado pela agência de notícias francesa AFP.
Com estudos em Filosofia, Sociologia, Epistemologia, Direito, História, Geografia e Economia, Morin publicou mais de 50 obras entre as quais O Método, Introdução ao pensamento complexo, Ciência com consciência e Os sete saberes necessários para a educação do futuro.’ O último, de inspiração autobiográfica, foi publicado há apenas dois anos, mas tinha sido escrito em 1946, O Ano Perdeu a Sua Primavera (em Portugal, o livro foi editado pelo Instituto Piaget em 2025).
Nascido em Paris, em 1921, com o nome Edgar Nahoum, filho de uma família judaica sefardita originária de Salónica, Morin viveu intensamente os grandes acontecimentos do século XX. Participou na Resistência Francesa durante a Segunda Guerra Mundial, adotando então o apelido Morin, e manteve ao longo da vida um forte compromisso com as causas democráticas, humanistas e antifascistas.
A sua obra marcou profundamente as ciências sociais, a filosofia, a educação e os estudos da complexidade. Em livros como O Método, a sua obra magna, composta por seis volumes, escritos ao longo de três décadas (1970–2000), defendeu que os grandes desafios contemporâneos — das crises ecológicas às transformações tecnológicas e sociais — não podem ser compreendidos a partir de uma única disciplina, exigindo antes uma visão integradora e multidimensional do mundo. “Quanto mais conhecemos o ser humano, menos o compreendemos. As dissociações entre disciplinas fragmentam-no, esvaziam-no de vida, de carne, de complexidade e certas ciências consideradas humanas esvaziam mesmo a noção de homem”, escreveu.
Até aos últimos anos de vida, Morin continuou a intervir no debate público, refletindo sobre temas como a democracia, a globalização, a ecologia, a condição humana e o futuro da civilização. A sua influência estendeu-se muito para além de França, especialmente na América Latina e no mundo lusófono, onde o seu pensamento inspirou gerações de investigadores, professores e estudantes. Em 2023, o filósofo veio a Lisboa falar sobre o estado do mundo na conferência “O Atlântico – A Nova Carta do Humanismo”.