2.083. Foi este o número de minutos que Afonso Eulálio (Bahrain-Victorious) passou com a camisola rosa vestida em corrida. Incontornavelmente, a 109.ª edição da Volta a Itália vai perdurar na história do ciclismo português. Afinal, a história do país à beira-mar plantado que recebe o desporto velocipédico como quase nenhuma outra há mais de um século, caminha de mãos dadas com a corsa rosa, em particular a partir do início desta década. Este Giro d’Italia até nem começou bem para as hostes nacionais, que perderam a esperança de uma boa representação uma semana antes da partida na Bulgária. Afinal, o regresso de João Almeida à prova que o viu nascer teve de ser adiado, assim como o sonho de Portugal conquistar, finalmente, uma Grande Volta. Sem o Bota Lume, a presença portuguesa ficava “reduzida” a três nomes menos sonantes no que respeita a expectativas: o veterano Nelson Oliveira, que é uma peça fundamental no bloco da Movistar; o estreante António Morgado, que podia aspirar à vitória numa etapa ao estilo de clássica; e, claro está, Afonso Eulálio.
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Nascido em Canosa, uma pequena aldeia do concelho da Figueira da Foz, em 2001, Eulálio é mais um produto que a pérola do Mondego poliu no que concerne ao desporto, em particular o ciclismo. Aos 24 anos, o ciclista está a seguir o legado de Alves Barbosa, José Bento Pessoa e Ticha Penicheiro, seus conterrâneos. Depois de ter explodido em 2024 ao serviço do Feirense na Volta a Portugal, Eulálio saltou de imediato para o WorldTour, tendo assinado pela Bahrain. O primeiro ano foi bastante positivo para o português, que começou por conquistar o seu lugar fora da bicicleta, “conquistando” os líderes Antonio Tiberi e Lenny Martinez com o seu humor e sorriso contagiantes. Depois, no Giro, que foi a sua estreia em Grandes Voltas, fez furor ao conquistar a Montagna Pantani, no alto do Mortirolo. No final do ano, Eulálio voltou a dar boas indicações, tendo feito top 10 nos exigentes Mundiais do Ruanda. Esse resultado fez com que tivesse de abdicar de participar nos Campeonatos da Europa para se juntar à Bahrain nas clássicas italianas de fim de temporada.
Chegado a 2026, Afonso Eulálio repetiu a receita do ano anterior, começando a preparar a época nas provas por etapas do Médio Oriente, para depois fazer a Volta a Itália. Apesar de ter ganhado uns pontos no seio da equipa, o português partia para esta edição como uma segunda linha que tinha de trabalhar para os líderes Santiago Buitrago e Damiano Caruso e que podia aspirar a lutar por uma etapa se a corrida o permitisse. Como tantas vezes acontece no desporto, o azar de uns acabou por ser a sorte de Afonso, já que, logo à segunda etapa envolveu-se numa grande queda que chegou a neutralizar a corrida e teve de abandonar. Sem o principal líder e com Caruso longe do primeiro lugar na fase inicial da sua última corsa rosa, a formação do Médio Oriente mudou a sua estratégia, com Eulálio a entrar em cena. À quinta etapa, o figueirense integrou a fuga que viria a triunfar numa das etapas mais memoráveis desta edição, com ataques, chuva, quedas, erros no percurso e, no final, um segundo lugar com sabor a primeiro.
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Foi a 13 de maio que Afonso Eulálio operou um milagre que ninguém esperava em Itália e saltou para a liderança, que só viria a perder dez dias depois, em Pila, tornando-se no segundo português que liderou o Giro mais dias, só superado por João Almeida. Diga-se que, nessa estatística, Portugal passou a ser o país que mais vezes liderou a prova e nunca conquistou a geral (26 dias, no total). Para além disso, Eulálio tornou-se no terceiro português a liderar a corrida rosa, depois de Almeida e Acácio da Silva, e no quarto a liderar uma Grande Volta, atrás desses dois e do mítico Joaquim Agostinho. Ao longo dos dez dias de liderança, a onda rosa alastrou-se a Portugal, com a freguesia de Cacia, em Aveiro, a pintar-se de rosa. Afinal, é ali que reside a namorada, a ciclista Marisa Ferreira, que foi campeã nacional de contrarrelógio em juniores em 2021, e em que Afonso tem a sua segunda casa. O movimento não se ficou por aí e chegou a Ferreira-a-Nova e Canosa, na Figueira da Foz.
Em Itália, Afonso Eulálio conquistou o público com o sorriso com que brindava os espectadores sempre que a moto da transmissão televisiva se aproximava de si, e com o humor com que se apresentou em todas as entrevistas, chegando inclusivamente a oferecer os seus óculos rosa a Hannah Walker, antiga ciclista e comentadora do Eurosport, num gesto que correu o mundo. Curiosamente, a felicidade do português alastrou-se à Bahrain, que terminou o jejum de vitórias em Grandes Voltas quando o português liderava, com Alec Segaert a levar de vencida a 12.ª etapa. Curiosamente, o francês tem sido o colega de quarto de Eulálio ao longo desta corsa rosa.
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Antes da etapa do penúltimo sábado da prova, em que se esperava que o português perdesse a camisola rosa, Loïc Segaert, treinador e diretor desportivo assistente da equipa do Médio Oriente, falou da ambição de Afonso, confessando que o português “a melhor descoberta” da sua formação. “Depois da Volta a Portugal [de 2024] fizemos teste na Toscana e vimos o tipo de pessoa que ele é. O único problema foi a bicicleta dele não ter viajado com ele. Ele ainda é um pouco jovem e inexperiente. Precisamos de orientá-lo um pouco, talvez ainda lhe falte alguma consistência. Causou uma impressão muito positiva e, depois disso, dissemos: ‘Já temos informações suficientes sobre ele, vamos arriscar e oferecer-lhe um contrato’. Ele é o rapaz das ‘piadas de tio’, alguém que tem algo a dizer sobre tudo. Às vezes é engraçado, outras vezes nem tanto (risos). É uma pessoa simpática. Ainda tem muito que aprender e ele mesmo sabe disso”, explicou Segaert.
Em Portugal, António Amorim foi o responsável pela ascensão de Eulálio no ciclismo, tendo levado o atleta a trocar o BTT pela estrada. Tudo aconteceu em 2018, quando Amorim treinava os juniores do Sport Ciclismo São João de Vêr e “precisava de ciclistas”. “Andei a fazer uma pesquisa na Internet e, como o BTT nos deu muitos bons ciclistas, fui vendo quem é que fazia os melhores resultados nas provas de BTT a nível nacional. O Afonso aparecia-me sempre bem colocado, estava sempre no ranking dos melhores”. Depois, através do Facebook, o atual massagista da EF Education-EasyPost, enviou uma mensagem ao ciclista, que se “mostrou logo recetivo” a entrar na equipa. “Agradou-lhe o meu contacto e a oportunidade de fazer ciclismo. Ele não tinha ligação nenhuma à estrada, não conhecia praticamente ninguém. Não tinha muita noção do que era ciclismo de estrada. Teve de aprender a vir ao carro buscar um bidão, abrigar-se do vento, andar em pelotão”, recordou Amorim à agência Lusa.
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Apesar de ter perdido a camisola antes da terceira semana, desengane-se quem pense que a corrida de Afonso Eulálio acabou aí. Longe disso. Primeiro no pódio, depois no quinto lugar e, por fim, a lutar por um lugar no top 10, o português nunca baixou os braços e mostrou uma grande resiliência e capacidade de superação. Afinal, importa recordar que Eulálio nunca terminou uma Grande Volta e não está habituado a provas de três semanas nem a montanhas como as da Volta a Itália, para lá do longo contrarrelógio, que está longe de ser a sua especialidade. Afonso partiu para a penúltima etapa no sexto lugar, lugar que, dificilmente, ia conseguir manter em Piancavallo. Ainda assim, o top 10 parecia estar praticamente assegurado, com o ciclista da Bahrain “apenas” a precisar de gerir a vantagem de quatro minutos. Contudo, havia um condimento especial que podia abrilhantar ainda mais a passagem do figueirense pela corsa rosa: a camisola branca, de líder da juventude, era sua, com cerca de um minuto de vantagem para Davide Piganzoli (Visma-Lease a Bike).
Curiosamente, antes da penúltima etapa, Afonso Eulálio foi questionado pelo Eurosport sobre o facto de nunca parar de sorrir, mesmo quando está em dificuldades, respondendo perentoriamente: “Sorrio para não chorar”. Este sábado, o português voltou a superar-se e deu um murro na luta pela maglia bianca na mítica subida de Piancavallo. Foi no palco que outrora viu nascer Marco Pantani que se confirmou o novo talento nacional, com Eulálio a aguentar o ritmo do pelotão na primeira passagem pela subida, para depois gerir, perdendo o contacto numa fase em que Piganzoli já estava para trás. Ao seu ritmo, Afonso reencontrou a sua força e, depois de ter sido alcançado pelo italiano, respondeu de pronto ao seu ataque. Até aos últimos quilómetros, o figueirense contou com o importante apoio de Damiano Caruso, que foi o seu fiel escudeiro ao longo deste Giro. O italiano ajudou o companheiro a posicionar-se no grupo e fechou o espaço quando Piganzoli voltou a atacar, lançando Eulálio para um contra-ataque que o levou a cortar a meta a solo e a carimbar o sexto lugar na geral e a vitória na juventude.
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Feitas as contas, Afonso Eulálio vai acabar a sua segunda Grande Volta a 9.39 minutos de Jonas Vingegaard, tornando-se no quarto português a terminar a Volta a Itália no top 10, depois de Acácio da Silva (7.º em 1986), José Azevedo (5.º em 2001) e João Almeida (4.º em 2020, 6.º em 2021 e 3.º em 2023). Em comparação com os compatriotas, Eulálio não fica atrás, embora Almeida tenha estado 15 dias na liderança em 2020, numa edição que terminou com Rúben Guerreiro a vencer uma etapa e a classificação da montanha. Em 2023, o Bota Lume venceu no Monte Bondone, foi terceiro e conquistou a juventude na melhor prestação de sempre de um português na corsa rosa, ao passo que, em 1985 e 1986, Acácio venceu duas etapas em cada uma das edições. É a terceira vez que um português conquista uma camisola numa Grande Volta, depois das já mencionadas conquistas de Almeida e Guerreiro.
“Ontem [sexta-feira] foi muito difícil. No final perdi um minuto para o Piganzoli. Hoje [sábado], não sei. Continuei a lutar e tentei acreditar. Toda a equipa acredita em mim e acho que isso dá-me mais força. Lutei até à meta. Tentei acompanhar os ciclistas da Ineos, o [Thymen] Arensman e o [Egan] Bernal, mas forcei demasiado e tive de abrandar um pouco. Tive de recuperar o fôlego depois de o Piganzoli ter atacado com muita força. Ele impôs um ritmo super intenso e é um ciclista super forte. Tentei apenas sobreviver. Recuperei o fôlego na fase plana e, depois, tive pernas para o sprint final. Amanhã [domingo] não vai ser fácil. O circuito é sempre bastante difícil. Mas sim, depois da corrida, vamos celebrar com toda a equipa. É de loucos. Sofremos imenso durante estas três semanas, mas chegámos ao final e temos algo em mãos. É muito bom. Nunca estive em Roma. No ano passado voltei para casa a dois dias do fim. Para mim é um recorde acabar a etapa… e acabar o Giro”, explicou Eulálio no final da 20.ª etapa.
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É certo que ainda falta chegar a Roma para fechar com chave de ouro esta participação, mas o balanço da prestação de Afonso Eulálio é bastante positivo. O português sai de Itália com um dos ciclistas de maior destaque desta edição e subiu de patamar no seio da sua equipa, ainda que vá continuar como uma segunda linha e a trabalhar em prol dos líderes. Ainda assim, espera-se que o português possa ter a sua oportunidade em corridas de menor gabarito ou quando o líder sofrer algum contratempo. Foi isso que aconteceu neste Giro e três semanas bastaram para se perceber que Afonso Eulálio está à altura de uma missão de tamanha importância. Portugal agradece, ganhando mais uma figura de destaque no álbum de ouro do desporto.