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Desmascarar o tabaco em nome da saúde de todos    

4500 mortos. Como é possível que se atinjam números desta magnitude na mortalidade causada pelo cancro do pulmão? 

Ana Varges Gomes
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Sem tabaco. Hoje, 31 de maio, assinala-se o Dia Mundial Sem Tabaco. A Organização Mundial de Saúde (OMS), que escolheu para este ano o lema “Desmascarar o apelo – combater a nicotina e a adição ao tabaco” sublinha o caráter enganador de toda a inovação na indústria tabaqueira, a que se junta a verdade – crua e transparente – do cancro, em especial do pulmão, e da morte.

Em Portugal, o cancro do pulmão é a principal causa de morte por cancro, como revelam os dados do Instituto Nacional de Estatística publicados em 2025, sobre a realidade de 2023. Todos os dias, o cancro do pulmão mata 12 pessoas. Em 2023, foram cerca de 4500 e este foi um máximo de mortes em 20 anos. As mortes de mulheres duplicaram nessas duas décadas.

Como é possível que se atinjam números desta magnitude na mortalidade causada pelo cancro do pulmão?

De acordo com o Grupo de Estudos de Cancro do Pulmão (GECP), há em média 14 novos diagnósticos por dia. Mas em mais de 70% dos casos, o diagnóstico é feito em fases avançadas da doença. Os fumadores, que são os principais afetados, desvalorizam a tosse, o cansaço e a dor no tórax que os afeta.

O apelo dos vários novos produtos com nicotina, que prometem consumos esteticamente mascarados, encarrega-se de potenciar uma nova porta de entrada para a morte. Os cigarros eletrónicos têm uma relação causal com os cancros da boca e do pulmão, como conclui, por exemplo, um artigo publicado na revista médico-científica Carcinogenesis em 2026, que reviu sucessivas investigações sobre os efeitos dos aerossóis de tabaco, realizadas entre 2017 e 2025.

Que isto dizer que estamos condenados a ser vítimas da ignorância e de uma moda mortal, em constante renovação? Nem por isso.

Há um trabalho integrado a realizar, junto das populações, que tenha um impacto desde o momento em que surge a vontade de comprar um produto com nicotina até ao tratamento do cancro. Há desigualdades importantes no acesso a cuidados oncológicos. A informação deve ser direcionada para públicos estratégicos. Rastreio, diagnóstico, tratamento, reabilitação, apoio psicológico, seguimento e investigação precisam de comunicar de forma interligada. O local onde cada um de nós vive não pode ser determinante na qualidade da informação nem dos tratamentos a que temos acesso. Os resultados, esses, têm de assentar em indicadores robustos, transparentes e partilhados.

Em Portugal, e na Europa, há um trabalho de fôlego em curso.  A European Network of Comprehensive Cancer Centres (EUnetCCC) é uma iniciativa que envolve 31 países e evolui como rede em construção, que engloba organismos já existentes e integra, num âmbito territorial definido, a prevenção e a deteção precoce, o diagnóstico e o tratamento, a investigação clínica e translacional, a educação, a formação, a inovação e abordagens baseadas em análise de dados. Está integrada no Plano Europeu de Luta Contra o Cancro, que mobiliza um orçamento global de 4 mil milhões de euros.

O Porto tem o primeiro Comprehensive Cancer Center do país, o Porto.CCC. Criado em 2022, junta o IPO Porto e o i3S com o objetivo de integrar investigação básica, pré-clínica e clínica, criando uma plataforma regional que, a longo prazo, reforçará o papel que essas instituições já desempenham a nível nacional. Em Coimbra, o IPO integra também a rede e dá passos para a sua certificação como CCC. E a Sul, entre Lisboa e o Algarve, outras instituições estão a percorrer o seu caminho.

Portugal e a Europa estão unidos no combate ao cancro, nomeadamente o do pulmão. Apesar de, de acordo com a Fundação Portuguesa de Cardiologia, 20% dos maiores de 18 anos fumarem habitualmente, e aos 13 anos, 12% das crianças já terem fumado pelo menos uma vez, é possível, aliando a informação aos cuidados oncológicos, evitar que a maioria perca pelo menos dez anos de vida para o cancro.