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(A) :: Portugal está a perder o hábito de atrair

Portugal está a perder o hábito de atrair

A redução de 1,6 mil milhões de euros de investimento estrangeiro não deve ser lida como um episódio isolado, mas como um aviso.

Pedro Pires e Borges
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Os números são claros, e os números raramente mentem: o investimento estrangeiro em Portugal caiu 1,6 mil milhões de euros no primeiro trimestre deste ano, quando comparado com o mesmo período do ano passado. Não é apenas uma oscilação estatística. É um sinal. E, mais preocupante ainda, é um sintoma.

Portugal habituou-se, durante a última década, a ser visto como um destino seguro, previsível e, sobretudo, aberto ao mundo. Esse posicionamento não surgiu por acaso. Foi construído com políticas concretas que transmitiam confiança ao investidor internacional — desde regimes fiscais competitivos até programas como os golden visa, que funcionaram como uma porta de entrada eficaz para capital estrangeiro.

Hoje, essa porta parece menos convidativa.

O investimento estrangeiro é, por natureza, sensível à perceção de risco. Não reage apenas a indicadores económicos; reage a sinais políticos, à estabilidade legislativa e, acima de tudo, à previsibilidade. Quando um país começa a transmitir a ideia de que as regras podem mudar a meio do jogo — ou que determinados instrumentos são aceitáveis hoje e indesejáveis amanhã — o investidor faz o que qualquer agente racional faria: espera, recua ou procura alternativas.

E alternativas não faltam.

Num mundo cada vez mais competitivo, países como Grécia, Itália ou Emirados Árabes Unidos têm afinado as suas propostas para captar exatamente o tipo de investimento que Portugal parece estar a deixar escapar. Não apenas com incentivos financeiros, mas com uma narrativa clara: “Aqui, o capital é bem-vindo.”

Portugal, pelo contrário, parece dividido entre a necessidade de atrair investimento e um certo desconforto político em assumi-lo. O caso dos golden visa é paradigmático. Durante anos, o programa foi um dos instrumentos mais eficazes de captação de capital estrangeiro, canalizando capital para a economia, financiando empresas, apoiando projetos produtivos e contribuindo para a criação de emprego e geração de riqueza.

Mas, em vez de evoluir e adaptar o programa às críticas legítimas, optou-se por um desmantelamento progressivo que deixou mais dúvidas do que certezas. A mensagem que ficou não foi a de um país que melhora as suas políticas, mas a de um país que recua perante elas.

E isso tem um custo.

O investimento estrangeiro não é apenas um número num relatório trimestral. É financiamento para empresas, é dinamização de setores estratégicos, é criação de emprego qualificado e é, muitas vezes, a diferença entre estagnação e crescimento. Num país com limitações estruturais de capital interno como Portugal, essa dimensão torna-se ainda mais crítica.

A redução de 1,6 mil milhões de euros não deve, por isso, ser lida como um episódio isolado, mas como um aviso. Um aviso de que a confiança se constrói lentamente, mas pode perder-se rapidamente. E, quando se perde, não regressa por inércia.

O debate em torno do investimento estrangeiro em Portugal tem sido, demasiadas vezes, simplificado ou ideologizado. Confunde-se abertura com dependência, e cautela com rejeição. Mas há uma diferença fundamental entre regular e afastar. Um país pode — e deve — estabelecer regras claras, proteger interesses nacionais e evitar distorções. O que não pode é transmitir hostilidade ou ambiguidade.

A verdadeira cautela não está em fechar portas, mas em saber quais abrir — e como mantê-las abertas com consistência.

Portugal não precisa de menos investimento estrangeiro. Precisa de melhor investimento estrangeiro. Mais direcionado, mais produtivo, mais alinhado com as prioridades do país. Mas, para isso, tem de continuar a ser relevante no mapa global de decisões de investimento.

E relevância exige coerência.

Se quisermos voltar a ver os números crescer, teremos primeiro de recuperar algo menos tangível, mas muito mais valioso: a confiança.

Porque, no fim, o capital não foge de países. Foge de incertezas.