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O fim da assinatura

Sendo a assinatura uma habilidade, o seu aspecto é principalmente uma maneira de determinar que certa pessoa e não outra tenciona fazer aquilo para que a assinatura é precisa.

Miguel Tamen
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Provoca curiosidade e chama a atenção o desaparecimento das assinaturas.  Em tempos históricos anteriores era requerido que as pessoas desenhassem um desenho que correspondesse aproximadamente a uma coisa que só essas pessoas soubessem desenhar. Em muitos casos esses desenhos eram reproduções de letras.  Era relativamente fácil fazê-lo, porque as letras são poucas e são quase todas simples de desenhar; e quem não soubesse desenhar letras iria arranjar-se com um X ou um cão mal feito.

Uma assinatura não reproduz um nome, apesar de muitas vezes reproduzir as letras que são usadas para formar a palavra que constitui esse nome.  É assim possível a Saula assinar ‘Paula’ sem que a sua assinatura deixe de ser uma assinatura de Saula.  Sendo a assinatura uma habilidade, o seu aspecto é principalmente uma maneira de determinar que certa pessoa e não outra tenciona fazer aquilo para que a assinatura é precisa.   Não é necessário que a assinatura de Saula forme a palavra ‘Saula’, desde que tenha sido Saula a cometer a habilidade, ou pelo menos a tencionar fazê-lo.

Há a este respeito duas teorias diferentes sobre assinaturas.   Segundo a primeira, a assinatura é principalmente uma proeza que apenas uma pessoa é capaz de realizar.  Podemos imaginar que só Saula fosse capaz de assinar de uma certa maneira.  Sendo capaz de realizar essa habilidade, seria também capaz de a realizar sempre da mesma maneira; e assim, diante de uma certa maneira igual de assinar, concluiremos que Saula, a única artista capaz de o fazer, tem um certo motivo ulterior.  Se for diferente, concluiremos que Saula não tem essa intenção.

A segunda teoria defende pelo contrário que uma assinatura serve só para mostrar um motivo ulterior: comprar um cão, garantir que se pintou um quadro, fazer uma promessa.   Segundo essa teoria não é importante que as assinaturas de Saula sejam feitas por Saula.   Tal como quem pretende coser um botão pode não ser quem o cosa, Saula pode pretender assinar e não cometer habilidade artística; mas encarregar Paula de escrever, por exemplo, ‘Saula.’  Em caso de desacordo, a segunda teoria recomenda que se examinem os motivos ulteriores de Saula; mas não acha preciso considerar se Saula realizou de facto a habilidade.

A ideia de que uma assinatura é uma proeza que só uma pessoa é capaz de realizar tornou-se menos comum; acredita-se em maneiras mais recentes de mostrar que se tem um motivo ulterior; Saula e Paula podem assinar digitalmente, mesmo que não tenham dedos.  As assinaturas sobrevivem como proeza apenas em certos contextos peculiares.  As paredes nas grandes cidades continuam cobertas de assinaturas iguais.  Não é claro quais possam ser os motivos ulteriores dos seus autores: que estarão eles a comprar, a assinar, ou a prometer?   Não é de excluir que principalmente estejam a cometer proezas que imaginam que só eles conseguem realizar.