Passamos por elas e não reparamos, de tão sujas que estão (como fotografias do livro mostram; v. pp. 176-83, entre outras), e no entanto as oito gárgulas da Torre do Tombo merecem bem este livro, aliás póstumo, do estudioso da arte e comissário de grandes eventos culturais João Bonifácio Serra (1949-2025), e que de certa maneira o homenageia também, como o escultor José Aurélio faz numa breve carta em folha apensa. O prefácio de Vítor Serrão, uma longa entrevista ao escultor por Serra e Tânia Teixeira, uma pesquisa em arquivos sobre o concurso e construção do novo edifício para a Torre do Tombo, o projecto duma primeira publicação logo em 1995, a integração das gárgulas no sistema hidráulico e, ainda, uma entrevista em 2021 ao director Silvestre Almeida Lacerda enfeixam este livro, a que os designers Aprígio Morgado e Diana Teixeira conferiram uma aparência arrojada mas perfeitamente cuidada. Grande parte da edição dos livros de arte e arquitectura em Portugal alcançou um padrão evoluído, e pode já dizer-se que menos que isto é prejuízo e negação, que dificilmente podem ser aceites.
Falecido em 2013, Arsénio Raposo Cordeiro, o arquitecto principal da Torre do Tombo, já não pôde participar nesta publicação, ainda que fosse interessante saber como pretendeu inclui-la no complexo da Cidade Universitária, dominado por três edifícios de Porfírio Pardal Monteiro (1897-1957), e como decidiu contrapor as altas gárgulas de José Aurélio aos baixos-relevos riscados e coloridos por José de Almada Negreiros para os pórticos das faculdades e da reitoria. O edifício da Torre do Tombo é Monumento de Interesse Público desde 2012, e as Gárgulas, produzidas entre 1988 e 1990, são, assevera Serrão, “uma das maravilhas da escultura pública nacional de todo o século passado”, sendo “difícil encontrar na escultura portuguesa contemporânea, pública ou privada, obra que [as] supere” (p. 27). O Arquivo Nacional — Torre do Tombo e o Centro Cultural de Belém, inaugurados em 1990 e 1992, respectivamente, são as duas construções culturais maiores e mais exigentes em Portugal desde 1974 (p. 111). A Fundação Gulbenkian contribuiu com 1/4 do valor orçamentado para a construção do edifício no Campo Grande (v. p. 116). A planta do edifício projectado por Cordeiro com a forma de um H destacava-o, “imediatamente assimilado à História, a disciplina de que afinal o Arquivo Nacional era tributário” (Serra, p. 119).
A primeira entrevista do livro contextualiza a intervenção de 1990 na obra de José Aurélio, que começou como ceramista para a fábrica SECLA das Caldas da Rainha, a partir de 1958, e em 1966 tem a primeira expressão em arte pública com a Mão-Pomba em Óbidos, passa em 1976 por um monumento a Humberto Delgado em Cela Velha, um outro a Manuel Laranjeira em Mozelos (Santa Maria da Feira) e em 1985 tem duas fontes, uma nas Caldas da Rainha e outra numa rotunda da Benedita (fig. 5, p. 36), e se estende a Angola, Rio de Janeiro e Brasília e a muito mais, incluindo o restaurante Gambrinus, em Lisboa (v. fig. 20, p. 50).

Uma primeira gárgula — um raposo que morde um peixe (p. 53), aludindo a um dos apelidos do arquitecto, e de belo efeito, sem qualquer dúvida — foi encomendada por Arsénio Cordeiro a José Aurélio para o tanque dum famoso solar próximo de Évora, que o arquitecto adquiriu e restaurou. Na Torre do Tombo, porém, cada gárgula — um cubo de pedra calcária chamada moca creme com 2 metros por lado e um peso de 30 toneladas — consiste na figuração dum tema histórico ou patrimonial (ou seja, tanto os fautores como os guardas da história), evidenciando o imponente edifício como templo de Memória, que de facto é. Colocadas a 19m de altura, as gárgulas são “válvula de segurança” para situações em que a drenagem do telhado por condutas próprias não responda a fluxos de águas pluviais muito intensos, e não o mero adorno artístico dum bunker de salvaguarda de documentação histórica plurissecular. O escultor reconhece ter feito muitas visitas de estudo a antigas igrejas e conventos franceses e portugueses e um elevado número de esquissos, e até protótipos a um terço do tamanho, para atingir o resultado final, aliás confirmado por uma segunda campanha a céu aberto e luz natural directa, noutro estaleiro, pois a sua exposição ao sol durante algum tempo permitiu evidenciar defeitos da pedra e imperfeições da escultura.
Badames, ponteiros e bujardas são ferramentas manuais do trabalho em pedra que dão título ao livro e estão na sua abertura numa impressionante sequência de 9 páginas, mas faltou juntar-lhes — se tal tivesse sido possível (“estará hoje, creio, com 98 anos”, p. 65) — uma imagem das mãos muito calosas do canteiro José Rodrigues, “um homem muito simples” e “um belíssimo ferreiro” também, autêntico braço direito do escultor, que além de todo o resto resolveu o impasse criado por defeito da medição dum cachorro, que encravou uma das gárgulas durante o processo de fixação (p. 71) e paralisou a maior grua à época activa no país. Numa resposta (p. 172), o arquivista Silvestre Lacerda diz que “as Gárgulas são as pedras preciosas incrustadas que dão vida a uma caixa de jóias”, acentuando “a universalidade dos conteúdos ali guardados”.
O estudo detalhado que João B. Serra fez da documentação relativa ao projecto e construção da Torre do Tombo, em particular das suas oito gárgulas, diz bem da sua capacidade como historiador da arte, e bom conhecedor dos meios artísticos, oficinais e industriais do Oeste, a que esteve particularmente ligado. Ainda que o texto não tenha sido suficientemente editado para evitar repetir muito do que nos foi dado a ler em páginas precedentes, não restam dúvidas de que esta é a peça central do livro, ainda que de imediato bem complementada com os “Olhares cruzados” de 1990-2021, a cargo de Tânia Teixeira, que percorre toda a recepção crítica do trabalho de Aurélio neste projecto de Cordeiro para um dos equipamentos patrimoniais de maior relevância do país, sem deixar de fazer notar a sua ausência ou eclipse em obras de referência que julgaríamos obrigadas à devida atenção — o que não podia suceder com Vasco Graça Moura, que sobre elas escreveu um poema, transcrito na p. 152, que diz: “A indecifrada, lenta | caligrafia que regista a nossa | precária identidade, mas nós tanto | a debatemos que se ri na grossa | lavra da pedra a gárgula do canto | e as outras fazem coro, ou talvez chorem, | talvez vociferando alguma assuste | os que a olhá-las se demorem | e talvez custe olhá-las, talvez custe | pensar que somos hoje um vago cúmulo | desse registo lúgubre e contínuo” (a citação é parcial).
Um “vago cúmulo”, de facto, incapaz de cuidar dos seus monumentos e das obras de arte que lhes estão associadas. A limpeza das gárgulas de leitosa pedra calcária já bastante enegrecida será um encargo impossível, uma dificuldade intransponível, ou será que ninguém de dever se preocupa realmente com isso?…