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(A) :: Édouard Louis: o autorretratista

Édouard Louis: o autorretratista

Em "Mudar: Método", o autor francês condensa a informação sobre si mesmo e entrega-a ao leitor, conseguindo até ir além. O problema, que também não é coisa pouca, é que já fez isto antes.

Ana Bárbara Pedrosa
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Quando Édouard Louis publicou o seu Para Acabar De Vez Com Eddy Bellegueule, impressionou: trazia uma voz a partir de dentro de uma realidade que, regra geral, tem estado afastada da literatura. E, ao longo das suas publicações, o autor manteve-se nesse universo. Cada livro contava a história da sua vida, e com isso contava a vida de uma aldeia no norte de França. Partindo do que viveu e de quem era, Louis metia várias questões na prosa, trazendo questões de classe e de sexo para o cerne dos romances, todos enquadrados na auto-ficção.

Neste, o autor francês foca-se no período da idade adulta e da adolescência, nos seus tempos de liceu, mas a verdade é que, por bem escrito que o livro seja, quem leu os livros anteriores não se afasta da sensação de que é mais do mesmo. Cada livro parece uma repetição dos anteriores, seja nas exposições, seja nas conclusões. E, por muito que o autor descreva eventos diferentes, nunca se sai do mesmo quadro. A prosa de Louis faz-se sobre dois elementos:

a) O primeiro é, claramente, a expectativa social em torno da sua masculinidade, do que fazer, de como agir enquanto homem. A quebra dessa expectativa pela sua maneira de ser (gestos vistos como femininos, corpo magro e frágil, orientação sexual homoerótica) é fonte de clivagem social e de problemas familiares. Em tudo o que descreve, há uma sensação de desfasamento que torna a vida quotidiana numa luta. Só o facto de se dar mais com raparigas do que com rapazes já é suficiente para que Édouard se sinta desenquadrado, e os insultos inerentes a isto (“maricas”, “paneleiro”), dentro da própria casa, só lhe dão mais vontade de fugir. Olhe para onde olhar, o rapaz não se enquadra nunca, e é notório ver como vai ganhando desprezo pelo seu meio envolvente.

b) Isto leva-nos ao segundo elemento: a classe. A própria homofobia é vista como marca de classe, ao mesmo tempo que a construção de masculinidade do seu lugar de partida, que o autor vai descrevendo como boçal, descontrolada. Em Mudar: Método, ao olhar para a vida de Elena, sua colega de secundário, o autor vai notando as diferenças comportamentais entre as classes: de um lado, vê-se televisão ao jantar, vive-se em torno do écran; do outro, o jantar serve para o convívio; de um, é incentivado que um homem coma muito para se mostrar viril e voraz; do outro, o descontrolo é deselegante, mal visto. Ao situar-se de repente entre os dois mundos – o de partida e o de chegada –, Édouard faz a sua escolha, alimentada por muitos anos de sofrimento, ressentimento e repulsa. Quer à força toda libertar-se do passado, porque o passado tem tudo o que despreza: a violência como forma de vida, o alcoolismo como maneira de estar, a boçalidade como socialização. E o futuro que cogita faz-se de elementos que lhe faltaram na vida até então: o acesso aos livros e ao resto da cultura, como o teatro, o cinema ou a pintura, e uma certa delicadeza nos gestos e nas conversas. Aliás, nas próprias conversas, o autor sublinha a diferença entre as da sua família – sem conteúdo – e as da casa de Elena. É ao ver-se de repente neste limbo que o autor faz a sua escolha: quer fugir do passado e ter uma nova vida.

Enquanto se lê o livro, não dá para se ignorar que, se por um lado quer fugir da violência, também quer fugir do que despreza intelectual e socialmente. Desprezo é, aliás, o que mais se sente neste livro, e talvez seja essa a maior diferença em relação aos anteriores – escritos numa idade mais temporã, ainda marcavam uma dor mais fresca, mais do que um movimento – quase épico – de ter conseguido fugir ao seu destino, como desforra, mérito, ego.

Enquanto delineia tudo isto, Édouard Louis vai mostrando a vergonha da sua família de partida, mais por medo de ser confundido com ela do que outra coisa. Simplesmente, quer estabelecer a distância, e até lhe agrada ver que mãe e pai não entendem a sua transformação, não lhe entendem as conversas. Cada pequeno detalhe é suficiente para marcar a clivagem – por exemplo, oferecer uma cerveja a um visitante (classe baixa) ou dizer-lhe que se vai “preparar um chá” (classe aqui percepcionada como alta). O desdém de classe é evidente, e talvez não seja à-toa que o autor começa o livro mostrando a sua ascensão – dormiu em casas de homens que tinham Picassos nas paredes, viajou pelo mundo todo, comeu caviar; já não é o menino que tinha de ir pedir arroz aos vizinhos, que tomava banho na mesma água que o resto da família de sete. Enquanto vai mostrando a vida que teve e a forma como era visto – o fraco, o incapaz –, também usa o elevador social como forma de vingança: foi ele que foi ao mundo, enquanto quem o desprezava e violentava continuou no mesmo sítio.

https://observador.pt/especiais/edouard-louis-a-literatura-e-a-politica-fazem-parte-do-mesmo-mundo-os-escritores-vao-ter-de-perceber-que-tem-de-lutar/

Ora, tudo isto é óptima literatura. O autor condensa a informação sobre si e entrega-a ao leitor, conseguindo até ir além – mostrando o mundo, portanto. O problema, que também não é coisa pouca, é que já foi isto que fez nos livros anteriores. Sendo um bom autor, ainda resta ao leitor saber se é capaz de outro tipo de qualidade, de conseguir sair de si próprio.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.