É preciso recuar até 2017 para encontrarmos a última ocasião em que houve um evento da WWE (World Wrestling Entertainment) em solo português. Muito mudou desde então. À boleia de um novo pico de popularidade que a luta-livre atravessa, a maior promotora do mundo da modalidade regressa a 3 de junho a Lisboa com um espetáculo ao vivo, e fá-lo com uma atenção redobrada no continente europeu e com novas estrelas. Uma delas é Lyra Valkyria.
“Vai ser a minha primeira vez aí, por isso estou muito entusiasmada por conhecer as pessoas. Espero que a excitação do público seja igual à do balneário por fazermos esta viagem além‑mar”, afirma a wrestler irlandesa de 29 anos ao Observador, numa entrevista feita em videochamada em antecipação ao espetáculo.
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Confirmados para atuar na Meo Arena estão nomes sonantes da WWE como Cody Rhodes, Rhea Ripley, Seth Rollins ou Charlotte Flair, mas Valkyria não lhes fica muito atrás; basta olhar para o percurso que tem vindo a trilhar desde que, aos 17 anos, Aoife Cusack (o seu nome verdadeiro) decidiu deixar de ver apenas combates na televisão para passar a protagonizá-los. Desde então, já conta com um palmarés respeitável, em particular por ter sido a vencedora inaugural do Campeonato Intercontinental Feminino, um título com um extenso e lendário currículo na divisão masculina mas que apenas foi criado para as lutadoras da WWE em 2025.
Instada pelo Observador a apresentar-se a um público mais generalista que talvez não a conheça, Valkyria responde “bem, o mundo inteiro passou a chamar‑me ‘bird lady’ [“senhora dos pássaros], por isso suponho que essa é a melhor descrição”. A admissão deve-se ao facto de a sua personagem ter como inspiração Morrígan, uma figura divina e guerreira da mitologia irlandesa capaz de se transformar num corvo, razão pela qual a lutadora se faz acompanhar de umas asas na sua entrada para o ringue. O público, todavia, de forma afetuosa, começou a gritar “wooo” para imitar uma ave durante a sua música temática, tornando-se num ritual que a wrestler abraçou. “Estou a caminho de Portugal e, por isso, é melhor que toda a gente apareça para gritar ‘wooo’, para fazer barulho e passar por um ótimo momento”, advertiu num sorriso.
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Mas além do seu reconhecido talento e boa relação com os fãs, a presença de Lyra Valkyria em Lisboa deve-se igualmente ao facto de a WWE ter apostado cada vez mais em sair da sua bolha nos EUA na última década. A promotora já tinha a tradição de fazer digressões internacionais de “house shows”: espetáculos ao vivo como este marcado para Lisboa, sem transmissão televisiva nem continuidade narrativa com as histórias a decorrer na programação regular. No entanto, nos últimos anos começou a intercalar gravações dos seus programas semanais Raw e Smackdown no decorrer destas tours; se parecia impensável há 10 anos que uma Smackdown ocorresse em direto a partir de Barcelona, é precisamente o que aconteceu esta sexta-feira, 29 de maio.
Além disso, parte do seu calendário anual já prevê a organização de “PLE’s” (Premium Live Events, os grandes espetáculos antes conhecidos como Pay Per View e dos quais a WrestleMania é o maior exemplo) além-fronteiras. Colocando de parte a altamente controversa parceria com a Arábia Saudita, a WWE tem vindo a realizar outros grandes espetáculos no estrangeiro, em cidades como Berlim, Paris, Lyon, Glasgow e Londres. Este fim de semana, dias antes da data em Lisboa, a Itália recebe o seu primeiro PLE de sempre, o Clash in Italy, em Turim.
https://observador.pt/especiais/dos-acordos-com-a-netflix-aos-muitos-milhoes-de-lucro-como-e-que-o-wrestling-profissional-voltou-a-ser-popular/#title-5
“Sinto mesmo que é uma ótima altura para fazer parte da WWE, tanto como fã como membro do balneário. Não costumávamos ter muitas oportunidades de fazer isto, mas no ano passado viajámos imenso, fomos à Polónia e a outros países lindíssimos. Há uma energia e uma excitação muito especiais quando estamos na Europa, porque o fazemos menos vezes”, conta Valkyria. E esse entusiasmo não se cinge aos wrestlers europeus que vêem nestas digressões a hipótese de lutar perante o seu público natal, já que “toda a gente tenta sempre fazer parte disto”, garante.
Uma das razões para essa vontade de lutar nestas digressões europeias prende-se com a própria forma como o público europeu interage. Talvez por ter uma cultura futebolística enraizada, talvez por querer aproveitar ao máximo dada a escassez de oportunidades, é comum ouvirem-se cânticos ensurdecedores, reações efusivas e até mesmo a câmara a abanar com o barulho. Este tema é sugerido a Valkyria com a ressalva de que não é suposto estar a competir com o público dos EUA, mas a wrestler interrompe: “eu adoro, e é mesmo uma competição, façam disso uma competição! O que queremos é ir a um sítio e pormos todo o público ao rubro, toda a gente a divertir-se imenso”.
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Dado o facto de as digressões da WWE não passarem por Portugal há nove anos, a wrestler considera que o espetáculo de Lisboa “vai ser ainda mais especial”, incitando o público português a ser o mais barulhento o possível. “É suposto que nós saiamos daí a dizer: ‘meu Deus, temos mesmo de voltar’, para que Portugal receba um Clash ou uma WrestleMania de futuro. É isso que nós queremos”, sublinha.
O facto de ser um evento “não canónico”, ou seja, cujos combates raramente têm impacto nas histórias contadas na programação televisiva, pode parecer que é o equivalente a assistir a jogos amigáveis entre equipas de futebol ou partidas de exibição de tenistas. Mas é precisamente por essa razão que, argumenta Valkyria, tanto fãs como curiosos que querem assistir pela primeira vez devem marcar presença. “Temos muito mais liberdade. Os house shows são um momento para irmos ao encontro das pessoas para quem fazemos o espetáculo”, afirma.
Glossário de termos de wrestling
- Angle: É um enredo que envolve vários wrestlers, de duração variável — pode ser algo que dura um par de meses ou que se estende durante anos, depende do quão bem recebido é pelos fãs. As suas motivações podem desde a disputa por um título a uma história de vingança ou a uma simples narrativa do “bem” contra o “mal”. Regra geral, os “angles” são resolvidos narrativamente em combates.
- Babyface ou Face: É uma personagem boa, pela qual o público deve torcer. É semelhante aos heróis ou aos protagonistas de peças, filmes ou séries televisivas.
- Blading: Consiste no ato de um lutador cortar-se com uma lâmina e começar a sangrar durante um combate. Normalmente é feito com o propósito de tornar a disputa mais dramática e “vender” um ataque particularmente violento, com recurso a uma lâmina ocultada por um dos lutadores. Este tipo de cortes costuma ser feito na testa, porque é uma zona do corpo que sangra muito mas onde as feridas saram rápido, além do sangue misturar-se com o suor para fazer parecer o ferimento pior do que realmente é. É uma prática historicamente controversa e ainda hoje proibida por algumas promoções.
- Booker: É um misto de programador com guionista. Os “bookers” são quem escreve os enredos a envolver os diferentes lutadores e decide quem ganha, quem perde e como é que os combates devem desenrolar-se e terminar. Além disso, são também quem estrutura os programas televisivos e os espetáculos ao vivo, como que tipo de combates devem acontecer e qual a sua ordem de ocorrência.
- Championship Title: Como o nome indica, são os títulos de campeão disputados pelos lutadores em combates. No entanto, ao contrário do que acontece em modalidades desportivas, não são ganhos ou perdidos em competição desportiva, mas por decisão dos “bookers” por motivos narrativos ou porque entenderam que determinado lutador vencer determinado título irá gerar interesse dos fãs.
- Gimmick: É a personagem ficcional dos wrestlers. Uma “gimmick” determina não só a sua personalidade, como também os seus dados biográficos e até o seu nome. As “gimmicks” podem ser mais realistas — o filho de um lutador que quer seguir as pisadas do pai — ou mais caricaturadas — um coveiro com poderes sobrenaturais. Um lutador pode manter a mesma “gimmick” tornando-se vilão ou herói, depende se as novas motivações fazem sentido consoante a sua personagem. “Gimmick” também se refere a um combate com determinadas estipulações — um combate numa jaula de ferro, por exemplo, é um combate com uma “gimmick”.
- Heel: É o mau da fita, semelhante aos vilões ficcionais. A sua vilania normalmente não se manifesta apenas no caráter, mas também na conduta durante os combates: os “heels” normalmente são mais violentos e/ou fazem “batota”, como recorrer a golpes baixos quando o árbitro não está a ver.
- Kayfabe: É não só o universo narrativo do wrestling, mas também o princípio da ilusão em que os lutadores e outras figuras atuam como se não estivessem a interpretar personagens e que o que está a acontecer não é parte de um guião. Manter “kayfabe” significa, por exemplo, um wrestler continuar a encarnar a personagem quando vai a um evento público, como um talk show. Até meados dos anos 90, o princípio do “kayfabe” era sagrado e inviolável — deixar cair a personagem podia resultar em despedimento — e estendia-se à vida privada dos lutadores. A chegada da internet e uma série de incidentes precipitaram a entrada numa era onde, regra geral, o “kayfabe” é mantido apenas durante os programas e os espetáculos — vários wrestlers, por exemplo, têm contas nas redes sociais com o seu nome civil.
- Mark: É o fã elementar de wrestling, que encara o que vê como se não fosse encenado ou que genuinamente não tem consciência de que é encenado. O termo é por vezes utilizado de forma pejorativa para descrever fãs crédulos ou sem capacidade crítica. “To mark out” significa reagir a alguma coisa como se fosse verdade, suspendendo a descrença.
- Over: É a popularidade junto do público. Estar “over” com os fãs significa que se é uma personagem capaz de produzir a reação pretendida, o que não se cinge às personagens “boas”. Se com os “faces” significa receber aplausos e entusiasmo, com os “heels” trata-se da capacidade de gerar apupos e repúdio — se bem que alguns “maus da fita” são também capazes de gerar aplausos, tudo depende das particularidades de cada personagem e da sua relação com o público.
- Put over: É o que acontece quando um wrestler aceita perder para que outro se torne mais popular. O ato normalmente acontece quando um lutador mais conceituado deixa-se derrotar por outro de nível inferior para que essa vitória o consagre.
- Promo: Uma abreviação de promocional, em si mesmo uma referência a uma entrevista ou a um momento em que um lutador interage com o público e/ou com outros lutadores por meio de uma conversa ou de uma declaração para avançar uma história ou rivalidade. No fundo, são os momentos nos programas e nos espetáculos em que não há combates. Saber fazer boas “promos” requer dons de oratória e carisma, já que implica encarnar uma personagem ao vivo de forma convincente e em tempo real.
- Push: O ato de promover determinado wrestler, dando-lhe tratamento preferencial. Quando um lutador recebe um “push” (ou seja, um “empurrão”), significa que vai passar a ter mais tempo televisivo, vai passar a ganhar mais combates e, inclusive, pode vencer um título. Normalmente as promotoras de wrestling dão “pushes” a atletas vistos como promissores, populares com os fãs (estão “over”) e/ou que demonstrem rentabilidade (ou seja, a sua presença em programas e espetáculos resulta em maiores audiências e vendas de bilhetes, respetivamente). O contrário de receber um “push”, ou seja, de ser promovido, é ser “buried” (ou seja, ser “enterrado”).
- Selling: É o ato de “vender” a ofensiva do adversário. O melhor “selling” é aquele que faz parecer os ataques e as ocorrências do combate parecerem o mais realistas possível.
- Shoot: Quando alguém foge ao guião e menciona algo real, ou seja, que é referente à vida real dos intérpretes e não ao universo narrativo da história — o chamado “kayfabe”. Um “shoot” pode também acontecer quando alguém quebra a ilusão narrativa e aborda diretamente o processo criativo dos bookers ou à realidade dos bastidores no wrestling profissional. “Shoot” pode ser ainda uma referência a um wrestler usar uma manobra de combate real, ou seja, deliberamente empregue para magoar o adversário — chama-se a isto “shoot fighting”.
- Smark: É a palavra composta de “smark mark”, utilizada para descrever os fãs que gostam de wrestling sabendo que é encenado. No entanto, também é utilizado para os fãs muito ativos online, que estão interessados no funcionamento da indústria — por exemplo, gostam de saber da situação contratual dos lutadores — e tentam prever que decisões criativas é que os “bookers” vão tomar. É também utilizado de forma pejorativa para o tipo de fã incapaz de suspender a descrença e apreciar o produto.
- Spot: Qualquer ação ou série de ações planeadas num combate. Pode ir desde uma sequência de manobras específicas até à utilização de armas ou à intervenção externa de outros lutadores. Por exemplo, atirar alguém para cima de uma mesa e parti-la é um “spot”. Porém, nem tudo o que acontece num combate é um “spot”, há muito que é improvisado no local pelos lutadores, dependendo da química que têm a lutar.
- Turn: É o momento em que uma personagem boa se torna má (“heelturn”) ou uma personagem má se torna boa (“faceturn”). Pode ser um “hardturn”, quando se trata de uma reviravolta súbita, ou ou “softturn”, quando vai acontecendo ao longo do tempo, com essa viragem a ser subtilmente prenunciada.
- Work: É o contrário de um “shoot”, ou seja, é tudo o que faz parte do universo narrativo do que está a acontecer e já estava planeado. Por outras palavras, acontece em “kayfabe”. Vem do termo “work the crowd”, ou seja, “trabalhar o público”, fazê-lo crer que o que está a acontecer é real.
- Worked Shoot: Está nas linhas cinzentas do que é real e do que é ficcional no wrestling. Um “worked shoot” normalmente é um evento ou uma ação em que alguém revela ou menciona aspetos da vida privada dos lutadores e/ou do funcionamento da indústria, parecendo que está a fazê-lo à revelia da chefia e dos bookers quando, na verdade, é algo planeado. A sua natureza dúbia faz desta uma ferramenta utilizada para gerar interesse dos fãs.
Num programa semanal, há um controlo estrito do tempo — em particular se for gravado para um canal televisivo, sendo necessário respeitar a grelha de programação — e há momentos que têm de ocorrer em locais e ângulos específicos para serem captados pelas câmaras. Pelo contrário, um “house show” é “puramente sobre o público. Só há o ringue e quem veio ver-nos, e é disso que tudo se trata. Eu diria que os espetáculos ao vivo são um grande argumento a favor das pessoas virem, mais do que ver na televisão, porque estamos tão entusiasmados”, defende.
O percurso até chegar à WWE
Não foi apenas no que toca à marcação de digressões e espetáculos que a WWE tem apostado cada vez mais no estrangeiro. Nos últimos 15 anos, o seu balneário ficou recheado de talento proveniente de diversas partes do mundo, consequência de ter começado a encarar a concorrência com outros olhos e a tentar atrair talento do Japão, da Europa ou da própria cena independente nos EUA. Muito desse talento passou pela NXT, a divisão de formação da promotora.
Inicialmente concebida em 2010 como um reality show onde o vencedor recebia um contrato para tornar-se um wrestler profissional na empresa, cinco temporadas depois a NXT tornou-se num programa semanal com as suas próprias storylines. A partir daí, passou a ser encarada tanto como um produto televisivo quanto um espaço onde os lutadores podem desenvolver o seu talento. No entanto, isto não vale apenas para novatos; muitos wrestlers já com anos ou até décadas de experiência que têm chegado à WWE nesta fase passam primeiro pela NXT para adaptar-se ao estilo de wrestling da empresa antes de serem “promovidos” aos programas da Raw ou da Smackdown. Foi nesta vaga que chegaram (ou regressaram, em alguns casos) alguns dos nomes maiores da promotora, como o austríaco Gunther, a australiana Rhea Ripley, o escocês Drew McIntyre e as japonesas Asuka e Iyo Sky.

Ao mesmo tempo, a década de 2010 assistiu também a uma mudança formidável de postura no que toca ao wrestling feminino na WWE. Desde os anos 90 que, com poucas exceções, o padrão na promotora fora tratar as “Divas” (como eram chamadas as lutadoras), na melhor das hipóteses, como atrações secundárias e, na pior, como objetos de desejo para fins eróticos ou cómicos. Dado o vigor que a modalidade estava a viver noutras geografias e promotoras — e até perante pressões e reivindicações das suas próprias atletas — a WWE viu-se forçada a dar início à chamada “Women’s Revolution” em 2015.
A partir desse momento, o foco deixou de ser contratar mulheres atraentes com pouca experiência de wrestling para iniciar uma política de captação do melhor talento possível, com outra seriedade no que toca ao treino e apresentação das lutadoras. É neste contexto que surge Lyra Valkyria. Aos 17 anos e a viver em Dublin, decidiu tornar-se uma wrestler em 2014 ao assistir à estreia em televisão na NXT de uma conterrânea, Becky Lynch, que se tornaria no espaço de uma década numa das maiores lutadoras da atualidade.
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“Vi uma rapariga a fazer uma dança irlandesa naquele enorme palco e pus-me a pensar onde é que ela teria começado a fazer isso; foi isso que me deu a ideia e me levou a procurar onde poderia fazer o mesmo, o que me conduziu a Bray, onde tudo começou”, contou Valkyria ao jornal Irish Mirror. A referência a Bray, a sul de Dublin, deve-se à localização da Fight Factory Pro Wrestling, escola onde se inscreveu: não só foi fundada por outro wrestler irlandês que singraria internacionalmente (inclusive na WWE), Finn Bálor, como foi também onde Lynch deu os primeiros passos.
“No primeiro dia em que entrei na minha escola de wrestling, não havia ringue. Havia apenas colchões no chão, e foi aí que tivemos de aprender a cair pela primeira vez, a fazer os nossos rolls, a aprender tudo desde a base. Foi assim que aprendi a amar, de uma forma pura, este desporto: a dureza, a determinação, tudo aquilo de que se precisa”, conta ao Observador. No entanto, nesta fase, chegar ao patamar de Lynch era ainda uma miragem, visto que faltavam oportunidades a nível local. “É algo que exige muito de nós e durante muito tempo não havia qualquer recompensa, porque não havia espetáculos na Irlanda. Fazíamos aquilo puramente por amor”, continua.
Dado o cariz amador desta modalidade, Valkyria traçou uma alternativa caso a carreira nos ringues não resultasse. Foi tirar jornalismo na Dublin City University, algo que, em retrospetiva, diz ter sido apenas “um plano B, por segurança”. “O jornalismo, honestamente, nunca foi a minha paixão. Foi sempre o wrestling”, assume. Perante essa encruzilhada, ainda trabalhou em part-time enquanto continuava a treinar, mas teve a sorte do seu florescimento como lutadora ocorrer a par do crescimento da cena local irlandesa e de cada vez mais promotoras começarem a surgir na Europa.

A sua estreia num ringue ocorreu em 2015, apresentando-se como Valkyrie. A partir daí, a sua persona passou por ligeiras mudanças mas respeitando sempre a sua origem: Valkyrie Cain, personagem dos livros Skulduggery Pleasant, do autor irlandês Derek Landy (editados em Portugal pela Porto Editora com o título O Detetive Esqueleto). Esta escolha, aliás, assume ainda maior pertinência face ao facto de as Morrigans e das valquírias nórdicas serem equiparáveis e também perante o próprio percurso da lutadora. “Adoro ler e adoro fantasia. Essa personagem é curiosa porque é baseada numa rapariga irlandesa que entra numa nova vida e tem de assumir um novo nome para tornar-se quem é. Quando escolhi o nome Valkyrie pela primeira vez, não fazia ideia de que era uma personagem da Marvel ou que fazia parte de uma grande mitologia. Escolhi o nome puramente por causa desse livro, porque adorava a personagem”, revela.
Hoje, Lyra Valkyria carrega esse legado não apenas na denominação que escolheu, mas também na responsabilidade de representar um país que, além de Finn Bálor e Becky Lynch, ambos campeões mundiais, deu também à WWE Sheamus, o primeiro wrestler irlandês moderno a desbravar caminho e a conquistar múltiplos títulos da promoção. “É muita pressão, porque toda a gente que veio da Irlanda é extremamente talentosa e está a um nível altíssimo”, confessou, lembrando que JD McDonagh, outro lutador irlandês da sua geração, também está a ter sucesso na promotora. “Eu só quero conseguir encaixar‑me nesse grupo e não desiludir nem a minha escola, nem o meu país. E quero igualmente chegar ao topo e estar no melhor da minha forma”, garante.
Os embates com Killer Kelly e o privilégio de fazer parte de “uma coisa secreta e especial”
Foi sob a nova denominação como Valkyrie que a wrestler irlandesa começou a fazer ondas no wrestling europeu, onde enfrentaria grandes nomes da cena independente, inclusive a maior exportação moderna da modalidade que Portugal deu ao mundo. Trata-se de Raquel Loureiro, conhecida na indústria como Killer Kelly. A lutadora de 34 anos natural de Lisboa esteve nos últimos anos na Total Nonstop Action Wrestling (TNA), uma das principais promotoras a competir com a WWE e que hoje tem uma relação de parceria com a gigante norte-americana. Mas Kelly, inclusive, chegou a estar sob contrato com a WWE, atuando na NXT e na NXT UK, uma sucursal britânica que esteve operacional entre 2016 e 2022.
Quando recordada dos vários combates que tiveram ao longo de dois anos, Valkyria reage com um sorriso de surpresa. “Lutei com a Kelly pela primeira vez na Irlanda e depois por toda a Alemanha, sendo que coincidimos mais tarde na NXT UK. Se é esse o tipo de pessoa que vem de Portugal, então estou muito entusiasmada por ir aí e conhecer toda a gente, porque a Kelly é a maior”, afirma.
https://www.youtube.com/watch?v=Qflm8LnN-rM
Com os dias da cena independente para trás, Valkyria já atingiu diversos marcos importantes desde que passou a integrar oficialmente a WWE em 2020. Além do já mencionado título Intercontinental, venceu o Campeonato Feminino da NXT contra nada mais, nada menos que Becky Lynch, a mesma que a inspirou a iniciar uma carreira no wrestling. E foi com Lynch que, já na divisão principal, conquistou os títulos de Tag Team femininos na WrestleMania 41, ainda que os tenham perdido no dia seguinte e a sua mentora se tenha virado contra si, iniciando uma rivalidade que durou vários meses.
Quer em personagem, quer fora dela, Valkyria não tem interesse em abordar o tema Becky Lynch, até porque o fim desta disputa deu-se num combate muito ingrato na Summerslam deste ano, onde ocorreram vários imprevistos desagradáveis. A questão, aliás, foi abordada na série UnReal da WWE, onde a promotora — com alguma polémica — destapa alguns dos segredos da indústria.
https://www.youtube.com/shorts/DRcI8ACgspM
A wrestler prefere antes centrar-se no seu objetivo atual, que passa por vencer de novo os títulos Tag Team mas com outra figura cimeira, Bayley — que, tal como Lynch, protagonizou o momento de viragem para o wrestling feminino começar a ser encarado com seriedade na WWE. “Tem-me ajudado e sido uma amiga incrível, divirto-me imenso com ela, mais do que nunca”, atira. “Quero chegar ao topo da montanha com a Bayley”, garante.
Mas quer esse apogeu aconteça ou não, a wrestler não esquece todo o seu trajeto até aqui. A propósito dos seus embates com Killer Kelly, recordamos que a lutadora foi formada na Wrestling Portugal, uma das várias escolas e promotoras que têm revitalizado a cena nacional, a par do Wrestlefest, do Centro de Treinos de Wrestling (CTW), da Associação Portuguesa de Wrestling (APW) e do Project Wrestling. Dada a evolução da cena irlandesa na última década, como pensa que a portuguesa pode seguir os seus passos para colocar mais wrestlers ao mais alto nível internacional?

Valkyria responde que, mesmo que, para já, os espetáculos nacionais sejam encarados como algo de nicho e mais amador, é isso que os torna particularmente apelativos. “Pela minha experiência na Irlanda, quando tudo parecia uma espécie de cena underground, do estilo “quem sabe, sabe”, tudo isso tornava as coisas ainda mais especiais. Havia um sentido de comunidade porque toda a gente se juntava, precisamente por não ser algo mainstream”, afirma.
À medida que a comunidade foi fortalecendo a cena e mais pessoas começaram a comparecer, “a excitação e a paixão à volta disso foram crescendo, e depois a coisa desenvolveu‑se a partir daí. Mas acho que é assim que tudo começa e é quando está no seu melhor — quando é quase esta coisa escondida que toda a gente que conhece adora. Adoro mesmo essa sensação, para ser honesta. Não há nada melhor do que estar numa sala onde está a acontecer um espetáculo ao vivo e toda a gente está na mesma viagem, a reagir em conjunto. É uma das minhas coisas preferidas no wrestling”, afirma, para depois rematar: “Quando as oportunidades começaram a aparecer, já sabíamos o que tinha sido passar por tudo isso. Diria que é preciso desenvolver um amor absolutamente puro pelo wrestling”.