No final dos anos 50, quando a pintura americana orbitava em torno do expressionismo abstrato de Jackson Pollock e Willem de Kooning, um jovem Jasper Johns começava a operar uma revolução silenciosa. Partindo da ideia de que o artista deveria pintar apenas “coisas que a mente já conhece”, Johns apresentou-se ao mundo com telas cobertas de bandeiras americanas, alvos de tiro, números e mapas. Sem o lastro emocional que marcara os seus predecessores, reconfigurava a relação entre arte, linguagem e perceção, num gesto decisivo na arte do pós-guerra. É a partir desse princípio que entramos em Night Driver, a ampla retrospetiva que inaugura no Museu Guggenheim, em Bilbau.
Reunindo cerca de 140 obras, a mostra – patente até 12 de outubro – abrange seis décadas da carreira de um criador que hoje, aos 96 anos, permanece como uma lenda viva e cujo trabalho mais recente, também ali presente, data de 2020. Na exposição, o nosso primeiro olhar fixa-se, justamente, nalguns dos quadros que o tornaram mundialmente reconhecível: Flag on Orange Field (1957), Target (1961), 0 through 9 (1961) ou Map (1961). Estas peças iniciais são a síntese perfeita de um percurso multifacetado. Como explica o curador Enrique Juncosa, estamos perante a obra de “um artista que é considerado o precursor da Arte Conceptual, do Minimalismo e da Pop Art”, mas que nunca se deixou enclausurar num único estilo.

Paradoxalmente, apesar de partir de objetos do quotidiano ou de referências de um imaginário coletivo, a sua pintura não é isenta de carga emocional. Nascido em 1930, em Augusta, na Geórgia, Jasper Johns mudou-se jovem para Nova Iorque, em 1953, onde entrou em contacto com artistas que viriam a marcar o seu percurso e com os quais manteria relações duradouras. Da sua biografia, realça-se como, nesses primeiros anos, destruiu a totalidade da sua obra anterior para dar lugar a este novo vocabulário. Valeu-lhe, de resto, uma primeira e bem-sucedida exposição na Galeria Leo Castelli, em 1958, levando o MoMA a adquirir algumas dessas obras.
“Teve a sorte de se tornar famoso muito cedo e, a partir daí, pôde seguir o seu caminho com grande liberdade. Está hoje representado em todos os grandes museus, mas nunca deixou de ser deliberadamente ambíguo e hermético”, acrescenta o curador.
Este período inicial marca também o afastamento progressivo de Robert Rauschenberg, com quem Johns partilhara uma intensa relação amorosa e cumplicidade artística. É dessa rutura que nasce a melancólica série In Memory of My Feelings – Frank O’Hara, dominada pelos tons de cinza que assinala um momento de transição. A partir daí, a sua pintura purga o excesso e torna-se mais analítica, abrindo caminho para a sala seguinte. É neste território híbrido que descobrimos as suas primeiras esculturas, já na segunda sala. Lâmpadas, lanternas e outros objetos do quotidiano fazem parte desta nova constelação.

De igual modo, surge aqui um conjunto de obras de grande formato sobre o tema do atelier do artista. Mantendo a aparência abstrata, mas feitas com impressões de portas ou janelas, incluem diversos objetos como chávenas, vassouras, trinchas ou réguas de medir.
“Estes quadros, que à primeira vista parecem abstratos, contêm elementos reais, seja a marca de uma porta do estúdio impressa na tela, réguas, ou as famosas latas de café Savarin que usava para misturar os pincéis e a tinta”, sintetiza Enrique Juncosa. Nestas telas, Johns faz referência, em muitos casos, aos nomes das cores (Vermelho, Amarelo, Azul), pintando-as “com as cores erradas ou sobre um fundo cinzento, criando um jogo visual irónico que o espectador nunca ganha”.
Não deixa de ser latente uma certa ironia no trabalho de Jasper Johns que, aos poucos, ganhava a fama de ser um “artista de artistas”, mas sobretudo por ser um criador interessado nos processos técnicos e na forma de jogar com a perceção do olhar. “Há os momentos biográficos que se podem associar a algumas das obras, mas ele está a fazer arte a partir da pintura. É nisso que está interessado”, sublinha Enrique Juncosa.
Imagem, corpo e linguagem
Se a obra de Jasper Johns parece nascer de um gesto de rutura, ela inscreve-se também numa tradição mais ampla de questionamento da imagem. A sua relação com o objeto e com a representação aproxima-o de figuras como Marcel Duchamp e René Magritte. São, aliás, referências decisivas no entender do curador, sobretudo num período já centrado nas décadas de 1970 e 1980, em que a pintura de Johns passa a incorporar múltiplas citações visuais e literárias.

Surgem então diálogos diretos com a pintura de Picasso, Edvard Munch e Frida Kahlo, ou com a poesia de Hart Crane. Para lá de Rauschenberg, Night Driver acompanha as cumplicidades que Johns construiu com o compositor John Cage, o coreógrafo Merce Cunningham e o escritor Samuel Beckett. Sobre esta dimensão, o curador destaca o facto de Johns ter sido o primeiro diretor artístico da companhia de Cunningham, para a qual desenhou cenários icónicos – entre eles Walkaround Time (1968), uma reinterpretação tridimensional de Le Grand Verre, de Duchamp, cujos elementos cenográficos pontuam esta exposição.
A partir de meados dos anos 80, o artista explora novos temas, como a série autobiográfica das quatro estações, entrando depois numa fase mais alegórica, marcada pelo regresso pontual da figura humana e por uma presença quase obsessiva de jogos linguísticos, de repetições e de telas novamente subjugadas pelo cinzento. Numa segunda secção da exposição, ganham igualmente relevo os trabalhos em papel, desenhos, gravuras e livros de artista. Entre eles destaca-se Foirades/Fizzles (1976), um volume histórico que reúne cinco textos do Prémio Nobel Samuel Beckett e trinta gravuras originais de Johns, num casamento singular entre o laconismo literário e o hermetismo visual.
Quanto à escolha do título da retrospetiva, Enrique Juncosa explica que Night Driver foi resgatado de um desenho de Johns de 1964. De acordo com as palavras do próprio artista, trata-se da primeira obra explicitamente motivada por um sentimento pessoal: a memória da primeira vez que conduziu um carro à noite numa autoestrada. “É um trabalho nascido da emoção”, conclui o curador. “Atraiu-me a ideia deste seu mundo noturno, que evoca uma viagem de transformação e de profunda concentração mental, mas que carrega também um subtil significado erótico. No fundo, Night Driver soa quase ao título de uma canção”.

De forma inesperadamente próxima, esta dimensão da obra de Jasper Johns ecoa também na escrita de Sam Shepard. Por caminhos formais distintos, mas atravessados por uma sensibilidade comum, ora cerebral, ora melancólica, ambos regressam a uma mesma matéria simbólica: os mitos fundadores dos Estados Unidos e a forma como estes podem ser desmontados a partir de dentro. Em Johns, essa operação faz-se através da pintura, desde logo na rasura e no repensar de símbolos aparentemente intocáveis. Mais do que uma intenção puramente estética, trata-se de um gesto de deslocação.
Esta é uma das razões pelas quais, na opinião do curador, a sua obra continua a soar como um mistério e a ser pouco revisitada. “É um artista que hoje não é suficientemente conhecido nem visto, sendo, no entanto, uma figura fundamental da segunda metade do século XX. Num tempo dominado por duas tendências artísticas – uma arte didática e uma arte cínica –, Jasper Johns permanece singular porque aquilo que faz parece ser uma questão de vida ou morte. Mostrá-lo é, por isso, a melhor forma de o compreender.”
O Observador viajou a convite do Museu Guggenheim Bilbao