O PSOE e o PS gostam de se apresentar de duas maneiras: primeiro, como fundadores da democracia nos respectivos países; segundo, como seus principais guardiões. A primeira asserção é um facto; a segunda nem sempre, como agora lembraram a acusação em Espanha contra José Luiz Zapatero, o antigo líder do PSOE, e a operação policial sobre o Partido Socialista em Lisboa. Ambos os casos atestam a facilidade com que indivíduos e cliques parecem ser capazes de transformar grandes partidos políticos tradicionais em veículos de abuso criminal do poder. Guardiões da democracia? Mas quem guarda a democracia contra os seus guardiões?
Dirão: acontece, há sempre uma maçã podre que consegue insinuar-se no cesto, etc. Desculpem, mas não é argumento. Estamos a falar de partidos grandes, onde toda a gente, porque essa é a natureza da política, compete com toda a gente e todos se vigiam uns aos outros. Ninguém, num partido desses, pode esperar abusar do seu cargo sem que outros reparem e suspeitem. Até porque o abuso, em países de circuitos burocráticos longos, tem de envolver muita gente. Para haver corrupção num meio destes, não basta que haja infractores: é preciso que haja também quem os tolere. Por isso, estas operações policiais revelam um problema até mais grave do que o crime: padrões de comportamento degradados, pela cupidez de uns, e pela indiferença de outros. A maçã podre, nestes casos de corrupção, nunca está sozinha.
A corrupção do PSOE em Espanha, porém, tem profundezas ainda maiores. A quantidade de escândalos que o presidente do governo Pedro Sanchéz arrasta atrás de si é homérica. Só nos últimos meses, foram investigados e acusados dois dos seus principais colaboradores no partido, além da sua mulher e do seu irmão. O líder do PP Alberto Núñez Feijóo perguntou, com graça, quantos mais raids policiais à sede do PSOE serão necessários para Sanchéz se demitir. Até o líder histórico socialista, Felipe González, exigiu eleições antecipadas. Noutros tempos, noutros lugares, tudo isto auguraria uma abdicação do presidente do governo, até para dar ao seu partido uma oportunidade de retocar a maquilhagem. Não neste caso. Quase toda a gente aposta em que Sanchéz ficará até ao fim, até quando puder e não puder.
Para perceber isto, é preciso perceber de que política é Sanchéz o nome. Sanchéz é a cabeça de uma clique que, contra grande resistência interna, conquistou o PSOE. Para vencer no país, estigmatizou os seus adversários, primeiro o PP e depois o VOX, atribuindo-lhes propósitos de “regressão civilizacional”. Isso permitiu-lhe duas coisas. Primeiro, fazer uma coligação de apoio ao governo com o separatismo golpista e terrorista, em desprezo pelos princípios do Estado de direito e da unidade do Estado; segundo, tribalizar a política, reduzindo a esquerda a um bloco para quem manter a direita de fora do poder é mais importante do que a limpeza e a dignidade desse poder.
O tribalismo é um velho recurso dos canalhas na política. Na Escócia, a justiça demonstrou como o principal secretário do Partido Nacionalista Escocês (Peter Murrell), enquanto a mulher (Nicola Sturgeon) era chefe do governo da Escócia, desviou dinheiro do partido para uso privado do casal. Mesmo assim, o Partido Nacionalista ganhou as eleições este mês: o seu eleitorado está suficientemente tribalizado para ignorar os abusos dos seus líderes. Nestas situações, a lei, o debate, o escrutínio ou a vergonha deixam de funcionar como limites ao poder. É o triunfo da corrupção. É para onde o PSOE de Pedro Sanchéz tenta empurrar a Espanha. Em nome da defesa do regime democrático, claro.