Viajei, mudei de casa sete vezes, emigrei, regressei. Na semana passada, voltei ao café, na avenida em Lisboa onde vivi há doze anos. Lá estava o mesmo rapaz ao balcão, sensivelmente na mesma, ainda jovem, o cabelo maior, igualmente magro, agora de bigode. Fez-me pensar nas voltas que dei na última década, quando o rapaz me saudou, reconhecendo-me, e com simpatia me disse, “Tem andado desaparecida”, como se não me visse apenas há um mês. Tantas voltas e o rapaz ali, a servir as mesmas mesas, sempre com o mesmo sorriso, que futuro terá ele? Entristeceu-me pensar na sua falta de perspectivas, na sua possível estagnação, que vejo em tantos rapazes que fui conhecendo, ou em senhores e senhoras com que me cruzo, pessoas que permanecem à medida que vamos mudando de vida e de sítio, convencidos de que evoluímos.
E logo depois, ao sentar-me a beber o café, atentando nos modos do rapaz e nos seus gestos, quase hora de almoço, entrando os primeiros clientes para comer o cozido das quintas-feiras, penso nas pessoas que, na minha vida, estão sempre no mesmo lugar enquanto eu mudo de lugar, as pessoas que gostam de mim a ponto de reclamar que ando desaparecida, o que me lança sem melancolia ao olhar, postura, voz, destino do rapaz que serve ao balcão. Parece contente. Parece um sábio e não um desafortunado. A sua sabedoria está em permanecer e nas razões por que o faz. Quem sou eu para imaginar que é triste a sua vida? É um bom profissional. O café é quase a sua casa. Realiza de maneira excelente o seu trabalho. Talvez de vez em quando se esquive para o jardim do outro lado da estrada e se sente sob as árvores.
Se levar a sua vida me destruiria, penso que o erro é meu e não seu, que o faz com brio, com alegria, ele que trata os clientes como se trata a família. A cidade tem a sorte de ter pessoas assim, quase sempre habitantes da periferia, que chegam de longe todos os dias de transportes e que são a cidade.
Dou então com esses portos seguros, os lugares onde um dia fomos caras habituais e onde não fomos esquecidos, mesmo que não conheçamos ninguém a fundo. Reconheço que em Lisboa serei cara conhecida em mais lugares do que imagino, sítios onde antes ia e deixei de ir. Mas apenas conhecida para rapazes como aquele, que não sei como se chama, e que eu gostava — mas quem julgo que sou? — que tivesse ido do café para a universidade, para um bom emprego qualificado, para outra vida. Conheço vários rapazes assim, alguns são das pessoas mais importantes da minha vida: jovens, brancos, sem grandes sonhos. Encontro neles uma tristeza que eu não tinha na sua idade, a agonia calada da falta de rumo, o sentimento de que este mundo não é para eles, quando tudo faria pensar que são príncipes por direito próprio. Muitos deles agarram-se ao que lhes é familiar, aos lugares onde se sentem em casa, arriscando pouco.
Mas observando a alegria e o estar bem na sua pele do rapaz do café, olhando-me a mim no reflexo do espelho detrás do balcão, mais marcada pela vida do que ele me parece, invejo a sua digna sabedoria. Penso nele como num meio-irmão desirmanado que me calhou encontrar na quinta-feira em que o barulho do trânsito na avenida quase me atirou ao chão. E dou graças por ele não se ter esquecido de mim, eu também não me esqueci dele, apenas não esperava encontrá-lo, dou graças pela sua cara familiar no centro da cidade desfigurada.