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O tempo das heresias

Vivemos tempos onde nos são apresentadas versões parcelares da humanidade e do mundo, e a inteligência artificial ou é uma dessas versões, ou é o horizonte onde elas se ampliam e nos encerram.

P. João Basto
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No final da semana, creio que podemos concluir uma coisa. A recente Encíclica do Papa não é sobre a inteligência artificial. É sobre proteção da vida humana. A inteligência artificial é só o pano de fundo. Basta ler o subtítulo para o entender.

Duas viagens de comboio depois, cada uma das quais com quatro horas, julgo que a questão de fundo do texto é a seguinte: vivemos tempos onde nos são apresentadas versões parcelares da humanidade e do mundo, e a inteligência artificial ou é uma dessas versões, ou é o horizonte onde elas se ampliam e nos encerram. É, por isso, oportuno dizer que vivemos um novo tempo de heresias. Bem sei que o termo convoca o pior que a história da Igreja tem a oferecer. Mas, no original grego, o termo heresia não quer tanto significar uma doutrina contrária às verdades oficiais, mas uma visão simultaneamente verdadeira e parcelar dessa mesma doutrina.

De forma sintética, acredito que o texto fala de três heresias principais. A primeira é aquilo a que o Papa chama “síndrome de Babel”. Uma leitura da realidade focada na “idolatria do lucro, que sacrifica os mais fracos”, na “univocidade, que anula as diferenças”, e “na pretensão de uma linguagem única”. Reparem: a Igreja não é contra o lucro, da mesma maneira que não defende uma pluralidade sem identidade. Mas não me parece equilibrado que quer uma, quer outra, se tornem uma idolatria. Da defesa da identidade e da unidade, não se segue a homogeneização. Da legítima procura do lucro, não se segue a redução de pessoas a meios.

A segunda grande heresia parece-me remeter para a confusão crescente que associa perfeição à eliminação da fragilidade. Ora, recentemente têm sido fortes os apelos para salvarmos a civilização ocidental. E embora o Cristianismo não exista para o fazer, a verdade é que a matriz cristã assenta na valorização positiva do limite, enquanto marca da dignidade humana. Voltem a notar: “É nosso dever procurar eliminar o sofrimento que marca a vida humana”. Mas, para o Cristianismo a fragilidade não é um erro que deve ser corrigido; a plenitude coexiste com a falha. “Para suprimir totalmente a dor, seria necessário, no fundo, extinguir também o amor e o desejo”, diz o Papa.

Este prisma, cada vez mais difundido, tem óbvias consequências: por um lado, a ideia de que a eliminação de certos seres humanos é um dano colateral ou um mal menor, na grande história da humanidade rumo ao progresso; por outro, esta mentalidade introduz-se cada vez mais na educação, nomeadamente na eliminação da paciência, da fricção e do esforço essencial em qualquer caminho pedagógico, em favor da facilidade, simulação e da aparência de objetividade.

A esta luz, devíamos procurar um caminho que ajude a entender que só é salvo e redimido, aquilo que somos capazes de assumir.

Por último, a heresia final, e talvez mais global, é a tentativa de “absolutizar uma única dimensão do ser humano”. Isso é visível na atual cultura da ofensa, que quer absolutizar a afetividade. Isso é visível no crescimento de uma geração ansiosa, que quer absolutizar a vontade ou o seu oposto. E isso é visível, também, na submissão à inteligência artificial, que visa absolutizar o intelecto. O ser humano, no entanto, é um “ecossistema”. De facto, temos sido educados para acreditar que só “a escassez gera desordem”, mas também a parcialidade e a obsessão atingem o mesmo efeito. Talvez precisemos de recuperar a maturidade numa “fórmula teológica” cristã, tematizada logo no início do Cristianismo: o que é verdadeiro só existe quando acontece “sem mistura, nem separação”. Não precisamos de algo que resolva o irresolvível. Precisamos de algo que nos exponha ao irresolvível.