As “recordações” de Pedro Passos Coelho, o líder da direita nos tempos da troika, são boas, mas pertencem ao passado. Quem o diz é o antigo eurodeputado do CDS Diogo Feio, que defende prefere “guardar” essa imagem positiva do antigo primeiro-ministro e nega que as acusações de populismo dirigidas ao atual líder da direita — Luís Montenegro — sejam justas: “Quem é que tem linhas vermelhas em relação ao Chega? É Luís Montenegro. Quem é que não quer acordos do governo com o Chega? É Luís Montenegro. Quem não faz conversas de apreço com André Ventura? É Luís Montenegro.”
De resto, nesta entrevista ao Observador, no programa Vichyssoise, o democrata-cristão faz a defesa do rumo e das reformas deste Governo, embora admita que este deveria “dominar mais a narrativa” para explicar o que está a fazer. E defende que a direita deve coligar-se numa nova frente que possa aspirar a uma maioria absoluta — da qual o CDS deve fazer parte, não como partido autónomo, mas em fusão com o PSD.
Apoiante de António José Seguro na segunda volta das eleições presidenciais, Diogo Feio deixa ainda um aviso para futuro: o Presidente deve saber “equilibrar” o seu papel, para não se confundir com as funções executivas nem usar as Presidências Abertas como ferramenta de oposição ao Governo.
“Passos já não é o líder natural da direita”
Esta semana, e sem que o nada fizesse prever, o país político-mediático desatou a falar de num novo partido à direita. É inevitável perguntar se já se fez militante deste novo Partido Popular Conservador?
Eu quero unir, não quero dividir o espaço do centro-direita. O partido perfeito não existe. Acho um desperdício esta conversa sobre novos partidos no centro-direita.
Não faz sentido falar deste novo partido, não há espaço para uma força à direita? Ao contrário do que pensa, por exemplo, Francisco Mendes da Silva?
Sim, tenho amigos que estão nessa onda. Agora eu acho que nós temos à nossa frente a solução e portanto é escusado inventar muito. É preferível ser daqueles jogadores que vão direto à baliza do que aqueles que fazem três fintas e depois chegam à baliza muito cansados. Aquilo que me parece mais razoável é uma federação de todo o espaço do centro-direita. A única solução maioritária que Portugal tem pela frente é a possibilidade de PSD e CDS caminharem no sentido da sua fusão e serem capazes de chamar a Iniciativa Liberal e reformista. O PSD é o partido charneira e o líder natural do espaço à direita chama-se Luís Montenegro. Não há outro.
Passos não é o líder natural da direita?
Já foi, já não é. É a diferença entre o passado e o presente. As coisas são o que são.
O maior adversário de Luís Montenegro parece ser Pedro Passos Coelho. Surpreendeu-lhe a linguagem utilizada pelo ex-primeiro-ministro esta semana, quando falou de prostitutos políticos?
Sim, mas também não dou um valor excessivo a isso. Guardo de Pedro Passos Coelho a imagem do primeiro-ministro da troika, que foi importante para o nosso país. Mas não sou passólogo. Não sou, nem quero ser. Há muita gente a pôr-se em bicos de pés para o efeito. O que é que fiz? Aproveitei a interpretação que mais me agrada, que era uma crítica a André Ventura e que era uma crítica aos partidos que, por essa Europa fora, têm assumido esta postura mais populista.
Acha que é uma crítica a André Ventura quando o próprio Pedro Passos Coelho aparece ao lado de André Ventura a criticar o Governo?
Não liguei ao cenário, nem às conversas. Eu não gosto de populismos. Não quero acordos com populismos; quero combatê-los politicamente.
Mas são esses acordos que Passos defende.
Quem é que tem linhas vermelhas em relação ao Chega? É Luís Montenegro. Quem é que não quer acordos do governo com o Chega? É Luís Montenegro. Quem não faz conversas de apreço com André Ventura? É Luís Montenegro. Portanto, qualquer crítica ao populismo ou àqueles que tentam fazer populismo, garantidamente que não se enquadra na figura do primeiro-ministro. Eu gosto de ouvir críticas ao Chega. Aí é que serve ser verdadeiramente afirmativo, porque não se vai buscar votos ao Chega com apreço pelo seu discurso, dizendo, por exemplo, que são importantes para formar a grande direita. No dia em que ela se formasse, desfazia-se.
Acha que Passos falhou o alvo?
Não sei.
Não podemos desligar esta última intervenção de Pedro Passos Coelho de tudo o que ele tem dito nos últimos tempos. E foram várias intervenções e todas elas no mesmo sentido, criticando Luís Montenegro, criticando o governo. Pedro Passos Coelho sabe muito bem o que está a fazer e sabe muito bem quem está a criticar. Consegue perceber o racional desta estratégia de Pedro Passos Coelho?
Era preciso saber se há uma estratégia. Vamos esperando. É de mês a mês, não é? Vamos esperar mais um mês. Já percebemos que a fase do silêncio terminou. Pedro Passos Coelho vai falar a seguir e vamos conseguir, se calhar, perceber melhor o pensamento. Não é, neste momento, a minha principal preocupação.
Acha que há o risco de se banalizar a palavra de Pedro Passos Coelho?
Não sei. Os riscos acontecem sempre. Depende também muito do que se diga. Por exemplo, Cavaco Silva é alguém que, de facto, aparece de tempos a tempos e quando fala provoca muitas reações.
Uma vez escreveu um artigo de opinião que derrubou ou ajudou a derrubar um primeiro-ministro do PSD.
É verdade.
Acha que Pedro Passos Coelho pode fazer isso a Luís Montenegro?
Não acho que esteja na sua vontade. De todo. Mas não sou especialista. Agora, isso seria mau para o espaço político de centro-direita. Porque para aqueles que sonham, que em futuras eleições, venha uma vitória do PS para depois virem reformar a direita, quando isso acontecer, e se for antes dos tempos normais, isso será o fim do centro-direita moderado tal qual como o conhecemos hoje. E eu não quero estar aí. Não sonho com a vitória do PS, nem com uma vitória do Chega. O meu sonho é outro. É unir, é juntar os partidos à volta de um projeto, é criar plataformas de entendimento.
Está desiludido com o Pedro Passos Coelho?
Não estou desiludido. Nem iludido. Não sou um acompanhante de todos os passos que são dados, não estou muito preocupado em fazer interpretações. Acho que o governo tem um rumo e deve segui-lo.
“Governo devia dominar mais a narrativa”
Vamos falar desse rumo. O governo tem dito que estão em curso várias reformas. Mas consegue compreender aqueles que, mesmo no PSD, no espaço do centro-direita, dizem que as expectativas que a AD tinha criado estão a ser defraudadas? Pergunto-lhe isto porque o país não está assim tão radicalmente diferente. A saúde não está brilhante, as casas não estão mais baratas, o custo de vida aumentou… Tudo isso eram problemas que eram atribuídos à governação socialista. Este governo, até ver, não conseguiu fazer muito diferente.
Nunca quis um governo que fizesse a circulatura do quadrado. Resolver de um momento para o outro a questão da Habitação era impossível.
O problema é que as casas estão mais caras. Já aí vamos.
Mas não me parece que possa ser um problema que se resolva de um momento para o outro. Assim como pensar que a Saúde vai ficar um brinco rapidamente. Também não acontece. O que é que é importante? Que sejam tomadas medidas no sentido de melhorar as coisas. E essas medidas nunca são de efeito imediato. Este governo aprovou o maior pacote fiscal da Habitação que nos lembramos em décadas. Resolveu-se a questão do Aeroporto, a TAP está num caminho da privatização possível. Vejo alterações feitas em relação ao Tribunal de Contas. A forma como os médicos trabalham em relação ao SNS é importante, os famosos tarefeiros, está a ser trabalhada. E podia continuar para a reforma laboral. Logo, parece-me evidente que um Governo que não tem maioria absoluta, tem tido iniciativa. Se calhar deveria dominar mais a narrativa. Isto é uma questão de comunicação, mas não é uma questão de substância. A substância está lá toda.
Luís Montenegro, recentemente, voltou a falar da sua aspiração a chegar a uma maioria absoluta. É realista falar num PSD de maioria absoluta neste momento?
Acho que é bem possível. Há tempo para o trabalhar. O que pretendo é que à direita não existam delírios de grandeza.
Não é delírio de grandeza falar de maioria absoluta?
Não, não, não. O delírio de grandeza seria se aqueles que, podendo ajudar o PSD nesse desígnio, se perdessem na tentativa de ser grandes eleitoralmente. Relembro uma fábula de La Fontaine, o “Sapo e o Boi”. O sapo que queria ser boi. Lá foi engordando, engordando, engordando, até que rebentou e deixou de existir. Não me parece que seja o melhor caminho para ninguém. Acho que é perfeitamente possível afirmar as ideias conservadoras, as ideias da social-democracia, da democracia-cristã, de liberais, de reformistas, tudo no mesmo conjunto partidário que tem um líder natural. Não é preciso inventar a roda.
Mas não há algum desligamento da realidade do país em estar a falar de eleições antecipadas a três anos de legislatura e falando de maioria absoluta?
Todos os cenários têm que ser possíveis. O pior seria o de eleições antecipadas. Rio-me muito quando vejo sondagens da atualidade. No dia em que tivermos a possibilidade de ter eleições, as sondagens vão mudar totalmente. Quem for culpado por uma crise política vai ser castigado. Já aconteceu uma vez ao PS. Espero que exista algum bom senso. Eu tenho José Luís Carneiro como uma pessoa de bom senso. Mas acho que está a cair um bocadinho numa vertente antirreformista. Está contra tudo o que é apresentado. A certa altura é um bocadinho difícil de dialogar. Temos uma circunstância parlamentar em que existem três blocos. Se um diz que não, o que é que se vai fazer? Vai-se contra a parede? Tem que se falar com o outro obrigatoriamente. É o que é. Gostaria que a circunstância fosse outra, mas não podemos inventar. Agora, seria conveniente que a direita não se perdesse em fogachos ou em fantasmas. E avançasse. Tem muito caminho pela frente.
Pedro Passos Coelho é um fantasma do passado?
Posso ter boas recordações do passado. Não quer dizer que é para repetir. Não são os tempos da troika, nem os tempos do depois da Troika. A vida não é imutável.
Os passistas ainda não se ajustaram?
Não sei. Teria que estudar um bocadinho mais para poder responder isso.
“Presidências Abertas serão péssimas se forem modo de oposição”
Já percebeu qual a marca que António José Seguro quer deixar enquanto Presidente?
Há aqui alguns equilíbrios que é necessário assumir. Por exemplo, as Presidências Abertas só serão uma boa ideia se gerarem proximidade com as pessoas. Serão péssimas para o sistema se forem um modo de oposição. Este equilíbrio não é fácil de se conseguir. Esse perigo real existe. O segundo risco é a ideia de um Presidente da República executivo. O Governo é o órgão que tem a direção política. Não é o Presidente da República quem tem direção política sobre as mais diferentes áreas.
António José Seguro teve a iniciativa de fazer um pacto para a Saúde, um relatório sobre tempestades que está a ser muito usado para criticar o Governo… Há uma confusão sobre o seu papel?
Não me parece que exista aqui uma questão no presente. Mas há um risco. Vamos ver o que é que acontece. Mas falando sobre presidenciais: o que é que deu a divisão da direita? Deu que o candidato originário do PS venceu.
São lições para o futuro?
Pois, se calhar poderia ter havido união à direita. Foi pena que não tivesse sido aproveitada.
Falemos de divisões, mas desta vez sobre divisões dentro do CDS, ou do que resta dele. Tem defendido que o partido deve fundir-se com o PSD e deixar de ser uma força autónoma. Ideia que Paulo Núncio, no Congresso do CDS, considerou “feia”, numa óbvia alusão ao seu apelido.
Foi? Então agradeço.
Merece-lhe mais comentários?
Não. Não é muito o meu género pessoalizar questões. Mas acho que o CDS deveria ser o motor dessa fusão. O CDS devia gerar utilidade para a sua existência. E se ficasse para a história, mais uma vez, como um partido que capaz de gerar uma grande mudança no nosso sistema, isso era muito importante. Assim como pode ajudar em reformas. Por exemplo, o CDS pode dedicar-se a trabalhar uma das reformas mais difíceis que existem, que é a questão da Segurança Social, por exemplo. Perder-se na revisão constitucional… Parece-me que não é o melhor caminho. O país não tem uma questão constitucional neste momento. O preâmbulo não faz nem bem, nem mal. É como aquelas fotografias que temos de uma bisavó — olha-se para ela com alguma benevolência. É evidente que Portugal não está a caminhar para o socialismo.
O atual CDS está a perder tempo com causas que não contribuem para esse engrandecimento? Quando ouve Paulo Núncio a declarar morte ao wokismo e coisas do género…
Acho que o combate cultural não é por aí. É por outros caminhos. Não nos devemos perder em discussões que, nos clubes, à porta fechada, são muito interessantes, dizem muito pouco às pessoas. E uma das coisas que qualquer partido deve fazer é adaptar-se aos tempos que está a viver.
“Preferia Sebastião Bugalho como capitão”
Vamos entrar no segundo segmento do nosso programa, o Bloco “Carne ou Peixe”. Imagine que estava numa das suas habituais partidas de ténis. Preferia acertar inadvertidamente com uma bola em Paulo Núncio ou Francisco Rodrigues dos Santos?
Não queria acertar em ninguém.
Dissemos inadvertidamente…
Paulo Núncio, que já está mais habituado a esses choques. Levava com a bola, mas devagarinho.
É praticante de fitbox. Quem é que preferia que fosse o seu parceiro de treino? Ascenso Simões ou Mariana Mortágua?
Ascenso Simões. Isso já é um clássico.
Imagine que está a completar a caderneta de cromos do futuro da direita. Tem de escolher apenas um capitão. Preferia Sebastião Bugalho ou António Leitão Amaro?
Até por razões de amizade, claramente o Sebastião Bugalho. Não estou a menosprezar o António Leitão Amaro, mas atenção: neste momento, há uma ruptura de stock em relação aos cromos; é preciso ter algum cuidado, paciência. As horas chegam garantidamente a quem é persistente e se apresenta com boas ideias.
Para acabar, preferia ser mandatário de uma candidatura presidencial de Paulo Portas em 2031 ou integrar um governo da Aliança Democrática Liberal?
Ui, eu estou fora da política.
Neste cenário, estaria dentro.
O lugar de mandatário seria mais adequado, mas, se avançar mais uns anitos, para lá de 2031, poderia haver altura em que não fosse capaz de resistir ao apelo público.