Era uma batalha territorial, no sentido mais literal possível. Se o Casa Pia perdesse, voltava a Pina Manique e deixava vago o Municipal de Rio Maior, que poderia ser a casa do seu adversário no playoff de acesso à Primeira Liga 2026/2027 — quem ganhasse ficava com o campo. Essa disputa de campo acabou por ser ganha pela equipa de Lisboa, que venceu a partida por 2-0 e confirmou a permanência na Primeira Liga 2026/2027.
O Torreense chegava a Rio Maior ainda envolto no vapor do comboio chamado Stopira, que carimbou a conquista do mais importante troféu da história mais do que centenária dos azul-grená. No passado domingo, os 26 autocarros que partiram de Torres Vedras não foram ao Jamor apenas para cumprir calendário. Foram para ver a história ser escrita em 120 minutos de futebol. O Torreense tornou-se a primeira equipa da Segunda Liga a vencer a Prova Rainha, garantindo o estatuto de “imortais” e uma vaga inédita nas competições europeias.
No entanto, a glória do Estádio Nacional trazia o desgaste como fatura, algo que o plano de Álvaro Pacheco já incluía na primeira mão. Em Torres Vedras, assistiu-se a um encaixe que não se desfez, um nulo que serviu os propósitos do técnico casapiano. Mesmo à distância, com a mensagem a chegar “por Zoom ou auricular” devido ao castigo, o treinador casapiano viu a sua equipa demonstrar a serenidade necessária para segurar a igualdade e adiar as decisões do playoff para a segunda mão.
Para o Casa Pia, a tarde/noite era sobre conseguir a manutenção e garantir que a despedida oficial de José Fonte, aos 42 anos, fosse feita de “forma digna”, antecipou Pacheco. Do outro lado, o Torreense trazia o embalo da conquista histórica e o ímpeto de um sonho com 34 anos: o regresso a uma Primeira Liga que não habitava desde a temporada de 1991/92.
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Esse ímpeto chegou logo aos cinco minutos de jogo, com Javi Vásquez a tentar um golo monumental, apenas impedido pela atenção e pelas pontas dos dedos de Patrick Sequeira. Da linha de meio campo, o lateral esquerdo espanhol viu o espaço entre o guarda-redes casapiano e a baliza e quase estabelecia a vantagem para os torreenses no início da partida. Três minutos depois, foi Vásquez que cruzou para Drammeh, que não conseguiu emendar para a vantagem dos azul-grená.
Os primeiros dez minutos de partida tiveram ascendente dos visitantes. A outrora hesitação azul-grená, no jogo em Torres Vedras, transformou-se em assertividade e objetividade nos minutos iniciais em Rio Maior. A experiência do Casa Pia chegaria pouco tempo depois, aos 13 minutos. Uma bola batida num pontapé de canto acabaria por encontrar o poste da baliza de Lucas Paes. O lance foi, entretanto, anulado, mas o aviso dos gansos teria uma réplica minutos depois, quando Livramento encontrou a trave da baliza do Torreense. Álvaro Pacheco, distante do relvado, queixava-se da sorte, mas não se podia queixar do rendimento da equipa. Depois de uma entrada mais expectante, a tentar aguentar o começo assertivo do Torreense, era o Casa Pia, a partir dos 10 minutos de partida, que assumia o controlo do jogo.
Os gansos continuavam à procura da vantagem e a ansiedade de Álvaro Pacheco aumentava à medida que o Casa Pia acumulava oportunidades desperdiçadas: primeiro Khaly, em situação de superioridade numérica; depois Livramento, a cabecear à figura de Paes. Aos 30 minutos, o conjunto da casa podia começar a queixar-se da sorte, à semelhança do seu treinador.
As lamentações terminavam aos 38 minutos. O castelhano serviu para traduzir o primeiro golo do jogo. O uruguaio Kevin Prieto encontrou a desmarcação de Larrazabal. Na cara de Lucas Paes, o lateral espanhol não tremeu perante a possibilidade de ficar mais longe da manutenção e colocou o Casa Pia em vantagem. A diferença não era só no campo — passava também a ser no resultado, que sorria aos gansos à ida para os balneários.
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Com o segundo tempo, chegou uma rápida reação de Luís Tralhão, que substituiu Costinha por Alfaro. A reação também acompanhou a do treinador: aos 49 minutos, os visitantes chegavam à melhor oportunidade da partida até àquele momento, com Stopira a saltar mais alto do que os adversários mas a não conseguir transformar o pontapé de canto em golo.
Os primeiros dez minutos da segunda parte traziam o espelho dos da primeira, mas com um ascendente azul-grená mais tímido do que aquele que se tinha verificado uma hora antes. No campo das diferenças, a ansiedade de Pacheco passava a ser a de Luís Tralhão, que não arredava pé da linha lateral.
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Entre tentativas, mais ou menos tímidas, o tempo ia jogando contra os visitantes e as oportunidades claras não chegavam. Até aos 70 minutos, tanto o Casa Pia como o Torreense traziam o esférico para junto da área contrária, mas as investidas não traziam a confirmação da permanência do Casa Pia ou o adiamento das decisões, com um eventual golo do empate dos azul-grená.
Essa indefinição antecedia uma subida territorial dos visitantes, que tentavam empurrar os gansos à sua baliza, como tinha acontecido no primeiro encontro. Na altura, o jogo estava empatado a zeros e o Casa Pia já tinha menos uma unidade, depois de Rosas ter sido expulso. A história era diferente desta vez e tinha um final distinto. O Torreense já não estava no Estádio Manuel Marques, o Casa Pia agora estava em vantagem e ambas as equipas encontravam-se em igualdade numérica.
Essa igualdade fez toda a diferença para o Casa Pia. Osundina insistiu pela linha de fundo e foi-se aproximando, pelo lado esquerdo, da baliza de Lucas Paes. Na pequena área apareceu Lucas Ofori, que aos 77 minutos marcava o segundo golo dos primodivisionários — um estatuto que ficava cada vez mais longe dos torreenses e cada vez mais perto de se manter em Pina Manique.
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Mesmo na ponta final da partida, Dany Jean acertou na trave e falhou um golo que ainda assim não adiaria o inadiável. O fogo de artifício, outrora ouvido em Torres Vedras, aquando da conquista da Taça de Portugal, ouvia-se em Rio Maior para celebrar a manutenção do Casa Pia na Primeira Liga. Era esse o barulho de fundo das lágrimas dos atletas casapianos, que viam Khaly ajoelhado no relvado agarrado a uma bíblia, igualmente emocionado.
Álvaro Pacheco tinha revelado na antevisão do playoff que queria adiar as decisões da última vaga da Primeira Liga 2026/2027 para Rio Maior. O plano do técnico casapiano, que esteve sempre longe do relvado nos dois jogos, funcionou a dois tempos. O primeiro, no empate a zeros em Torres Vedras, e o segundo com a vitória do Casa Pia, num campo que não vai mudar de dono.