Três dos principais suspeitos da Operação “Imergente” trabalharam juntos na sede nacional do Partido Socialista (PS), que foi alvo de buscas judiciais por parte da Polícia Judiciária (PJ), e terá sido ali que se conheceram a partir de 2015: Duarte Moral, Rui Pedro Nascimento e Dimas Pestana. Os três trabalharam nas redes sociais que projetavam o trabalho de António Costa, primeiro-ministro e secretário-geral do PS, e dois deles ganharam projeção política interna no partido.
Rui Pedro Nascimento foi líder da concelhia socialista de Oeiras e Dimas Pestana chegou a liderar uma empresa municipal de mobilidade da Câmara de Almada (da qual Nascimento também fez parte), contratando Rute Reimão, mulher de Duarte Moral. Já Moral, que tinha sido um confidente de António Costa desde os tempos de ministro da Justiça no Governo de António Guterres, acabou por convidar Rui Pedro Nascimento para ser seu sócio na empresa Diálogo Emergente Lda, que ganhou 172 mil euros em contratos públicos em 2025 e 2026.
https://observador.pt/2026/05/28/pj-faz-megaoperacao-em-lisboa-suspeitas-de-crimes-em-juntas-do-ps-leva-a-buscas-em-santa-maria-maior/
Pelo meio, a Diálogo Emergente ainda veio a ser protagonista de um acordo entre Isaltino Morais e o PS de Oeiras. Foi através da empresa de Rui Pedro Nascimento e de Moral que a Câmara de Oeiras pagou a assessoria de Nascimento à vereadora do Partido Socialista chamada Filipa Laborinho — que, entretanto, passou a assessora da vereação do movimento de Isaltino e foi detida em flagrante delito (e, entretanto, libertada) por posse de arma proibida.
Já Duarte Moral, a sua mulher Rute Reimão, Rui Pedro Nascimento e um quarto arguido não tiveram a mesma sorte. Ficaram detidos e só serão levados à presença de um juiz de instrução criminal para primeiro interrogatório durante esta sexta-feira. Não é certo que as medidas de coação sejam conhecidas logo no mesmo dia, o que poderá implicar que fiquem detidos durante o fim de semana.
Buscas no PS no mesmo piso onde trabalha Carneiro, mas circunscritas ao gabinete de Moral
A Operação “Imergente” levou à realização de 31 buscas domiciliárias e 58 não domiciliárias na zona de Lisboa, em Oeiras, Mafra e Coimbra. Foram constituídos 37 arguidos e cinco foram detidos — quatro fora de flagrante delito e uma em flagrante delito (Filipa Laborinho, por posse de arma proibida).
Estão em causa um conjunto muito alargado de contratos públicos, no valor de cerca de dois milhões de euros, e crimes muito diversificados, como participação económica em negócio, peculato, abuso de poder — crimes típicos de titulares de cargos políticos ou de funcionários públicos — mas também ilícitos criminais como burla qualificada e fraude fiscal qualificada.
Uma das linhas de investigação passa pela suspeita de que o PS terá pago quantias indevidas a dois dos suspeitos. Está em causa “a emissão de faturas para recebimento indevido, por dois suspeitos, de quantias de partido político”, lê-se no comunicado do DIAP Regional de Lisboa.
Ao que o Observador apurou, os elementos da PJ que estiveram na sede do PS no Largo do Rato levaram pen drives e documentação do departamento financeiro do partido. As buscas terminaram por volta das 16h00 e incidiram também no gabinete onde Duarte Moral trabalha e que divide com outros assessores — um gabinete que se situa no mesmo piso do gabinete do secretário-geral, José Luís Carneiro.
Isto é, o mandado judicial de busca e apreensão de documentação (em papel ou digital) estava circunscrito ao gabinete onde trabalhava Duarte Moral — dividia com assessores. Os inspetores da PJ e o procurador do Ministério Público não entraram no gabinete do líder do PS.
No centro da investigação está a forma como dirigentes e militantes do PS terão alegadamente manipulado as regras dos contratos públicos para a prestação de serviços para beneficiarem camaradas socialistas. Estão em causa cerca de dois milhões de euros de fundos públicos.
O inquérito, a cargo do DIAP Regional de Lisboa e da PJ, tem três linhas de investigação:
- a contratação de militantes do PS para prestarem serviços junto de várias autarquias e juntas de freguesia socialistas.
- O papel de Duarte Moral nesse esquema, de duas formas: como a sua mulher Rute Reimão foi contratada para a Junta de Freguesia de Santa Maria Maior e para uma empresa municipal de Almada, e como a própria empresa Diálogo Emergente acabou a prestar serviços a entidades públicas (como a Junta de Freguesia da Misericórdia) e a campanhas eleitorais de estruturas autárquicas do PS, que terão sido pagas pela sede nacional socialista, onde o próprio Moral trabalhou durante vários anos;
- E a forma como a Diálogo Emergente acabou por ser parte do acordo entre o PS de Oeiras e o movimento independente de Isaltino Morais para a governação da Câmara de Oeiras no mandato entre 2021 e 2025.

Em relação à primeira linha da investigação, o caso da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, que foi liderada por Miguel Coelho até às últimas eleições autárquicas, é um dos exemplos mais paradigmáticos.
Miguel Coelho, que foi constituído arguido e suspendeu as suas funções como deputado na Assembleia Municipal de Lisboa, terá contratado nove militantes e candidatos socialistas da concelhia de Mafra. Um deles foi Sérgio Santos, líder da concelhia, deputado municipal em Mafra e candidato num lugar não elegível às eleições legislativas de 2022, como noticiou a revista Sábado em janeiro de 2022.
A revista Sábado noticiou igualmente que a Junta de Freguesia de Santa Maria Maior tinha feito adjudicações a 19 empresas da região de Mafra.
Além desta questão, Miguel Coelho contratou igualmente Rute Reimão, mulher de Duarte Moral, como assessora cultural da freguesia por si liderada. O contrato foi feito através da empresa Cidade Etérea Unipessoal, Lda, que tem Reimão como única sócia. Dos seis contratos públicos assinados entre 2020 e 2023, num total de 105.840 euros, cinco foram assinados com a Junta de Freguesia de Santa Maria Maior:
- A 30 de dezembro de 2019, para o desenvolvimento de atividades artísticas, aulas na Universidade Sénior e gestão de galeria, por 10 mil euros (mais IVA) em 5 prestações, por ajuste direto;
- A 29 de maio de 2020, novamente para atividades artísticas e curadoria, por 18 mil euros (acresce IVA) via ajuste direto;
- A 12 de março de 2021, para projetos artísticos e apoio à Orquestra Juvenil, no valor de 20 mil euros (mais IVA) em 10 prestações, através de consulta prévia;
- A 21 de janeiro de 2022, para o desenvolvimento de projetos socioculturais, por 24 mil euros (mais IVA) em 12 prestações, por consulta prévia;
- E a 2 de janeiro de 2023, para assessoria ao Presidente [Miguel Coelho] e acompanhamento da Orquestra Juvenil, mantendo o valor de 24 mil euros (mais IVA), por consulta prévia.
Ou seja, Rute Reimão faturou cerca de 96 mil euros (mais IVA) com a Junta de Freguesia de Santa Maria Maior.
A fechar o histórico, a mulher de Duarte Moral foi ainda contratada em 2019 pela WeMob — a empresa municipal de Almada, câmara liderada pela socialista Inês de Medeiros — para prestar serviços de assessoria de design e produção gráfica. Foi mais um ajuste direto no valor de 9.840 euros.
Pormenor relevante: a WeMob era liderada por Dimas Pestana, e Rui Pedro Nascimento fazia também parte da administração da empresa.
O “caçador de Pokémons”, os flyers de Mafra e a concorrência entre Moral e a mulher na Misericórdia
Duarte Moral e Rui Pedro Nascimento tornaram-se sócios da Diálogo Emergente Lda em novembro de 2021. Moral era sócio minoritário da empresa desde a data da sua criação, em fevereiro de 2021, sendo Pedro Cabral Pontes o sócio maioritário e gerente da sociedade. Poucos meses depois, Nascimento assumiu a gerência, o capital manteve-se nos 1.000 euros mas Moral e Nascimento passaram a ter duas quotas exatamente iguais: 500 euros cada uma.
Certo é que os contratos públicos da Diálogo Emergente só aparecem no base.gov, o portal dos contratos públicos, entre 2025 e 2026.
O primeiro contrato da Diálogo Emergente é com a Junta da Freguesia da Misericórdia, então liderada pela socialista Carla Madeira — que é hoje vereadora do PS na Câmara de Lisboa. A empresa de Moral e de Nascimento foi contratada através do regime de consulta prévia, por um valor de 22.000 euros. Pormenor muito relevante: marido e mulher foram concorrentes na consulta prévia feita pela Junta da Misericórdia.
Ou seja, a Diálogo Emergente de Duarte Moral concorreu com a Cidade Etérea de Rute Reimão — um facto que coloca aquela consulta prévia sob suspeita, por manipulação das regras da contratação pública. Participou ainda uma terceira empresa, mas, no final, ganhou a Diálogo Emergente para prestar serviços de “consultoria e imagem, informação, participação e cidadania”, segundo o portal base.gov.
Já este ano, a 12 de fevereiro, a Diálogo Emergente voltou a ganhar um concurso para o mesmo tipo de serviço. Desta vez, o valor mais do que triplicou, ascendendo aos 88.560 euros, a serem liquidados em prestações mensais fixas de 2 mil euros acrescidos de IVA, com uma duração prevista de 36 meses.
A Junta de Freguesia da Misericórdia foi também alvo de buscas judiciais esta quinta-feira. A socialista Carla Almeida, atual presidente do Executivo da Misericórdia, foi constituída arguida. “Colaborámos prontamente em tudo o que nos foi solicitado e mantemo-nos disponíveis para prestar, às entidades competentes, todas as informações que venham a ser consideradas necessárias”, afirmou a presidente da Junta, confirmando igualmente ao Observador ter sido constituída arguida.
Contudo, os contratos da Diálogo Emergente não se cingiram às autarquias. A empresa de Duarte Moral e de Rui Pedro Nascimento também trabalhou em várias campanhas autárquicas do PS ao longo do país. Uma dessas campanhas foi a de Mafra, nas eleições de 2021. A revista Sábado noticiou em janeiro de 2022 que a proposta para a prestação desse serviço de produção de flyers e material de campanha terá sido enviada por Dimas Pestana em nome da sociedade de Moral e de Nascimento.
Sérgio Santos, líder da concelhia do PS de Mafra, declarou à Sábado que contrataram a Diálogo Emergente porque “era alguém do Partido Socialista para criar a imagem e se, no fim, não chegasse” poderiam “demorar mais tempo a pagar”, acrescentando que tinha um orçamento de 30 mil euros e gastou 12 mil euros com a empresa de Moral e Nascimento.
Duarte Moral e Dimas Pestana conheciam-se do gabinete de António Costa na Câmara de Lisboa. Foram ambos assessores de Costa, tendo Moral sido contratado como funcionário do PS depois de 2015 (ano em que Costa chega a primeiro-ministro) e Pestana pelo Grupo Parlamentar do PS.
Ao que o Observador apurou, Duarte Moral, Dimas Pestana e Rui Pedro Nascimento juntaram-se na equipa de apoio ao secretário-geral António Costa e trabalharam os três no backoffice do Largo do Rato. Moral, como ex-jornalista, produzia conteúdos para o site e para as redes sociais do PS, enquanto Dimas e Nascimento agiam como gestores das redes sociais.
Curiosamente, Dimas Pestana é apresentado pelo jornal Público como um “militante do PS” e “caçador de Pokémons”. Porquê? Porque o então primeiro-ministro António Costa tinha criticado Pedro Passos Coelho, líder da oposição, porque andava “à procura de encontrar o diabo”, mas mais valia “dedicar-se à caça de pokémons”. Daí o PS ter criado uma série de publicações nas suas redes sociais para ligar o PS ao universo da então popular aplicação Pokémon Go.
Na altura, o jornal Público descrevia Dimas Pestana como “alguém que apenas pretendia demonstrar que o PS tem ‘as portas abertas’, apoiando a visita dos cidadãos à sede socialista” e que era normal ver cidadãos a utilizar aquela app na zona do Rato, “embora não costumem aventurar-se pelo edifício do Partido Socialista” — ao contrário do que a PJ fez esta quinta-feira.
A Oeiras connection
Regressando ao histórico da empresa Diálogo Emergente e de Rui Pedro Nascimento com outras entidades públicas, destacam-se outros dois contratos: ambos com a Câmara Municipal de Oeiras, liderada por Isaltino Morais.
As circunstâncias desses dois contratos obrigam a uma contextualização. O movimento independente de Isaltino Morais fez um acordo político com o PS no mandato de 2021 a 2025 para reforçar a maioria absoluta que tinha garantido nas urnas. Rui Pedro Nascimento era o líder da concelhia de Oeiras e assinou esse acordo, tendo a sua camarada Filipa Laborinho ficado como vereadora com pelouro atribuído.
É nesse contexto que Nascimento, que desistiu de ser deputado municipal de Oeiras (onde apenas recebia senhas de presença), assina um primeiro contrato em nome individual com a autarquia, firmado a 5 de abril de 2023, com o objetivo de prestar assessoria política à vereação do PS nos pelouros delegados. O ajuste foi estabelecido em regime de avença por 24 meses, com um valor global de 60.000 euros e um limite mensal de 2.500 euros (mais IVA).
Passados dois anos, foi a vez de a empresa Diálogo Emergente, Lda assinar um contrato para “assessoria política especializada no âmbito do apoio à vereação do PS”, tendo sido representada por Rui Pedro Nascimento. Logo nessa altura, o movimento Coligação Evoluir Oeiras, liderado por Carla Castelo, denunciou a “conivência do PS e a utilização dos mesmos esquemas que Isaltino de Morais”, o que chocava “de frente com a mensagem que os socialistas querem colar à pressa à sua campanha para as Autárquicas de 2025”.
O contrato estabelecido por ajuste direto valia um máximo de 19.990 euros (sem IVA) por cinco meses, o que assegurava à empresa de Duarte Moral e de Rui Pedro Nascimento “o máximo de 3.998,00 € líquidos por mês (equivalente a muitos, muitos anos de senhas de presença)”, denunciava a Coligação Evoluir Oeiras (constituída por independentes e pelos partidos Livre/Bloco de Esquerda/Volt Portugal).
O último dos contratos da empresa de Duarte Moral e Rui Nascimento, datado de 23 de fevereiro deste ano, através de concurso público, foi estabelecido com o INEM a 23 de fevereiro deste ano, atingindo o montante de 58.650 euros para a aquisição de serviços de georreferenciação (Google Maps) destinados aos anos de 2026, 2027 e 2028.
Fonte oficial do INEM desmentiu que o instituto tivesse sido alvo de buscas judiciais e explicou que o “procedimento em causa corresponde a um concurso público para aquisição de serviços Google, destinados a apoiar a localização das ocorrências pelos Centros de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) e a contabilização dos quilómetros efetuados pelos parceiros do Sistema Integrado de Emergência Médica (SIEM) na prestação de socorro”.
A mesma fonte acrescenta que o “critério de adjudicação definido no procedimento foi o do mais baixo preço, tendo a empresa Diálogo Emergente, Lda. apresentado a proposta economicamente mais vantajosa nesse âmbito, razão pela qual lhe foi adjudicado o contrato”.
Carneiro diz que PS não “é visado” e que “tudo fará para que a legalidade seja defendida”
A reação do PS veio em dois tempos. Numa primeira fase, foi emitido um comunicado a confirmar a realização de buscas na sede nacional do partido, acrescentando apenas que as “diligências” estavam “relacionadas com atividades que são imputadas a um dos seus trabalhadores”.
No mesmo comunicado, o PS sublinhava que o partido “não é, como tal, visado pela investigação” da Polícia Judiciária. Acrescentava ainda que estava a colaborar com a PJ em tudo o que estava a ser solicitado, “no sentido de assegurar a boa condução das investigações e no respeito integral dos princípios e regras do Estado de direito”.
Numa segunda fase, em declarações aos jornalistas, o secretário-geral José Luís Carneiro insistiu que o “PS não é visado nas investigações”, que o partido “cooperará para que todos os factos sejam cabalmente apurados” e que o próprio Carneiro “tudo fará para que o apuramento dos factos seja cabal e se possa garantir que se faz justiça”.
O líder socialista nada disse sobre se mantinha a confiança no seu assessor Duarte Moral, afirmando que ainda não tinha toda a informação sobre a situação.
Nota: acordo político feito entre o movimento independente de Isaltino Morais e o PS/Oeiras serviu para reforçar a maioria absoluta de Isaltino, não para garantir a governabilidade. Correção feita às 9h45 do dia 29 de maio de 2026