(c) 2023 am|dev

(A) :: André de Freitas: "Tirei um curso profissional no Monte da Caparica. Como é que acabei a atuar no Comedy Cellar?"

André de Freitas: "Tirei um curso profissional no Monte da Caparica. Como é que acabei a atuar no Comedy Cellar?"

O primeiro português no icónico clube de Nova Iorque quer ser o Bad Bunny do humor nacional. A Lisboa, Porto e Coimbra leva o novo solo de stand-up, sobre os pais e corações partidos. Entrevistámo-lo.

Mariana Carvalho
text
Inês Lacerda
photography

André de Freitas tinha 19 anos quando escreveu uma lista de objetivos tão prováveis como “ir à Lua”. No último janeiro, já com 31, concretizou um deles. Depois de uma década de sucesso no estrangeiro, o humorista pisou o palco do clube de stand-up mais icónico do mundo, o Comedy Cellar de Nova Iorque, rampa de lançamento das carreiras de Kevin Hart, Chris Rock ou Dave Chappelle.

Um “nómada” nas Américas, identifica-se como “cidadão do mundo”, mas não recusa a identidade portuguesa. Apesar disso, conta piadas em inglês — afinal começou a fazer stand-up em Londres, onde viveu durante cinco anos e quase se tornou acompanhante para pagar as contas. Esta e outras aventuras foram tema do primeiro espectáculo a solo, What If? (disponível no YouTube), estreado no festival Fringe de Edimburgo em 2023.

Com um currículo impressionante, André já deu entrada no Comedy Store de Los Angeles, co-criou o podcast português Comedy Therapy — que ocupou o terceiro lugar no top de programas mais ouvidos no país — e ainda teve tempo para concretizar um sonho de infância: mudar-se para os Estados Unidos, em 2025. O próximo projeto a solo chega a Portugal em junho, com paragens em Coimbra, Porto e Lisboa. Chama-se Public Display of Affection e é uma declaração de amor aos pais que nunca conseguiu dizer em voz alta. O objetivo é rir, mas não tem mal chorar “um bocadinho”, com a devida contenção na hora de bater palmas. Entrevistámo-lo e assistimos a um open mic do humorista no Selva Comedy Cafe, em Lisboa. Já as fotografias foram feitas na terra onde cresceu, a Costa de Caparica.

Sempre teve uma atração pelo palco?
Nunca fui daquelas pessoas que diz “isto é o meu sonho desde criança”. Tinha muita dificuldade na escola e o percurso normal não encaixava comigo, mas era uma pessoa extrovertida e queria fazer alguma coisa relacionada com performance. Depois entrei num curso de teatro e gostei, senti que me aproximava do meu objetivo, mas ainda não era bem o que queria.

Certo dia, um colega falou-me num primo que fazia stand-up. Eu já tinha visto comediantes americanos na televisão, mas nem sabia que existiam em Portugal. Fomos a uma pequena noite na [Sociedade de Instrução] Guilherme Cossoul, em Santos, com o Salvador Martinha, o Luís Franco-Bastos, o [Rui] Sinel de Cordes e o Ricardo Vilão, e adorei. Só pensava, “quero experimentar isto”. E como sempre consumi muita cultura americana e anglo-saxónica, a ideia de emigrar para os EUA foi óbvia desde o início.

Mas a primeira viagem foi curta.
Sim, tinha 18, 19 anos e fui sem nada, com mil paus no bolso. Fiz skydiving, uma tatuagem, e duas semanas depois já não tinha dinheiro. Ia aparecendo em open mics, surfava durante o dia, ia ao cinema de noite… Entretanto, dormia no carro com o meu primo e, como tinha menos de 21 anos, não conseguia entrar na maior parte dos bares. Não havia nada para fazer. Para ganhar dinheiro às vezes tínhamos de bater à porta de casas em Beverly Hills, a ver se dava para limpar ou cortar a relva.

Obviamente que eu queria ficar nos EUA, mas não era possível, porque tinha de estudar lá e não havia dinheiro para isso. Na altura, alguém me falou do visto de artista, destinado a talentos extraordinários. Estava a fazer cinco minutos de comédia para meia dúzia de pessoas, mas pensei “acho que este é o caminho”. Voltei para a Europa, e procurei o melhor sítio para preencher os requisitos necessários à atribuição de um visto americano: Londres. Fui aos 21 anos e considero que comecei a fazer stand-up na cidade [britânica].

Ou seja, começou a profissionalizar-se, desde início, na comédia em inglês?
Sim.

Atuar em inglês é uma vantagem para quem deseja alcançar um público maior, mas, fora isso, há algum aspeto diferenciador na língua? Um efeito cómico especial?
Sim. Por exemplo, não tem género. Quando não há género é mais fácil guardar a surpresa. E a língua inglesa é muito flexível, permite mudar as palavras com relativa facilidade e usar significados diferentes em função do contexto. Tem um ritmo mais interessante do que o português, é menos palavroso. Em Portugal, para dizer a mesma frase, às vezes são precisas mais cinco ou dez palavras e o ritmo acaba diferente, já não tem aquele kick. O português é mais rígido, mais fechado.

Saiu de Londres e voltou a Portugal na altura da pandemia.
Sim, depois de cinco anos no Reino Unido. A ideia era voltar, mas começaram a aparecer algumas oportunidades de fazer uma digressão pela Europa. Sempre tive muita fome de mundo, por isso achei que a possibilidade de viajar a contar piadas era incrível, e avancei. Entrei num novo capítulo da minha vida, conheci imensas pessoas e sítios diferentes e, consequentemente, a minha comédia começou a ter um tom mais globalista. Porque, de repente, qualquer coisa que escrevesse tinha de funcionar na Polónia, em Portugal, em Londres ou nos Estados Unidos, apesar das diferenças culturais e do humor local — muito influenciado pela História. As pessoas do leste da Europa, por exemplo, têm um humor mais negro porque a sua História é mais negra.

Mais negro, mas com limites, ou não? Nalguns países mais conservadores dos Balcãs, talvez uma piada sobre homossexualidade — por exemplo — não seja bem recebida.
Há um tipo de humor chamado gallows humor que afeta as pessoas antes de serem executadas, decapitadas, enfim, em que começam a contar piadas à frente do carrasco. Existe um livro interessante sobre isto, da autoria de Victor Frankl, que sobreviveu ao Holocausto. Quando ele encontrava pequenos papéis no campo de extermínio, escrevia bits cómicos, que foram reunidos no livro [Em Busca de Sentido, na edição portuguesa]. Ao contrário do que se possa pensar, os prisioneiros encontravam-se de noite, secretamente, e contavam piadas. Porque precisam disso, mesmo quando nos tiram tudo, há certas coisas que são intrínsecas ao ser humano. No meio das maiores atrocidades que o mundo moderno conheceu, o pessoal ria-se. Há uma piada conhecida, sobre um tipo que morre num campo de concentração e vai para o Céu. Pede para conhecer Deus e diz-Lhe: “Quero contar-Te uma piada.” E conta uma piada sobre um campo. Deus diz: “Não, acho graça nenhuma a isso”, ao que ele responde, “You had to be there” [Tinhas de ter estado lá]. Para mim essa piada é perfeita.

É fácil perceber as diferenças culturais e geográficas do público a partir do palco?
Sem dúvida. Por exemplo, no Reino Unido e nos Estados Unidos o pessoal vê um humorista com a mentalidade de “We’re going to the comedy night to have a great time” [Vamos à noite de comédia para nos divertirmos]. Estão lá porque querem rir. Na Europa, sinto que a malta é mais desconfiada. Em Portugal, conheço gente que vai ver uma noite de comédia e bebe um café, numa de “ver se esse pessoal é bom…”

Isso significa que os portugueses são mais reprimidos, riem menos?
Os portugueses batem muitas palmas, o que, na comédia, chamamos de clapter.

O que é que isso diz sobre a audiência? 
A palma deve ser uma coisa merecida, um “Isto é incrível!” Quando o pessoal bate palmas constantemente, o gesto perde peso e valor. Numa noite de comédia, ri quem quer, quem não quer não ri, mas os aplausos deve ser dados quando a qualidade do espectáculo merece.

"No meio das maiores atrocidades que o mundo moderno conheceu, o pessoal ria-se. Há uma piada conhecida, sobre um tipo que morre num campo de concentração e vai para o Céu. Pede para conhecer Deus e diz-Lhe: "Quero contar-Te uma piada." E conta uma piada sobre um campo. Deus diz: "Não, acho graça nenhuma a isso", ao que ele responde, "You had to be there" [Tinhas de ter estado lá]. Para mim essa piada é perfeita."

Como é que se faz humor com pretensões globais, que agrade a culturas diferentes?
Por exemplo, deixei de escrever sobre sítios geográficos específicos e de usar outras muletas parecidas. Não me vão ouvir falar sobre a Amadora, ou a Margem Sul, porque não dá, não faz sentido. Isso não significa que não é possível ser pessoal — é possível ser super pessoal e universal ao mesmo tempo. As relações amorosas ou familiares, a religião… Somos mais parecidos do que pensamos, mas ao mesmo tempo muito diferentes. Aprendi isso à medida que visitava uma série de países, já são 30 ou 31 ao todo. Ao mesmo tempo, acabei por me rodear de pessoas de todos os lados, toda a gente à minha volta era… um bocado nómada, como eu.

Mas apesar desse caráter nómada, sente a responsabilidade de representar Portugal? Como uma espécie de embaixador?
Sem dúvida. É como se costuma dizer, eu falo mal de Portugal, mas se vou lá fora e ouço alguém falar mal… Às vezes é preciso sair para perceber que estamos muito ligados à cultura. Já fiz espetáculos para comunidades portuguesas no estrangeiro e isso também não é o meu público, porque eles vivem Portugal, só querem falar do país, falar português, essa é a sua identidade. Mas o Portugal da diáspora é imaginado, eles ficam presos na década em que saíram e criam a sua própria versão, baseada nas memórias que têm.

Quando faço esses espectáculos, não sou a pessoa que eles querem ver, porque a minha experiência de emigração é diferente. Eu atraio outra geração, que tem amigos de outros sítios, que não liga a televisão para ver um canal do país deles. Todos acabamos por consumir conteúdos de pessoas que têm experiências semelhantes às nossas, no meu caso pessoas que viajam, que têm… mais mundo, talvez. Em Portugal, vemos o emigrante como uma pessoa de baixo, alguém que faz limpezas ou trabalha nas obras. E, hoje em dia, já não é necessariamente assim.

Utilizou a palavra “nómada” para descrever esse cidadão do mundo moderno. Atualmente, as palavras emigrante, e especialmente imigrante, têm uma conotação muito forte e negativa. Em Portugal, é frequente estabelecer-se uma hierarquia que coloca o nómada digital europeu ou americano acima do imigrante originário do sul global.
Sim, existe a ideia de que o emigrante não vai para outro país ver concertos ou shows de comédia, está lá para trabalhar, ganhar dinheiro e mandar para casa. Mas, hoje em dia, quando a nossa geração vai para fora, quer fazer parte da atividade cultural desse sítio, beber da cultura e conhecer pessoas diferentes. Já não há aquela ideia de “Vai à casa do Benfica ou ao clube português”, as pessoas até se querem afastar disso. Se vou para fora é para estar com gente diferente. O meu mundo acaba por existir nessa mistura de culturas. Muitas vezes tenho mais em comum com alguém de outro país que vive uma vida semelhante à minha do que com um português.

A internet permite viver essas vidas paralelas, que não são determinadas por um local geográfico. E presumo que também teve um papel fundamental no lançamento da sua carreira na comédia.
Obviamente. Tenho piadas sobre um certo sentido de identidade, mas, quando as pessoas partilham os meus vídeos, dizem coisas como “Isto sou eu em mandarim”, “Isto sou eu em turco” ou “Revejo-me neste gajo e sou do Uzbequistão”. Acontece. E isso é incrível. Milhões e milhões de pessoas a verem o que ponho e a comentarem a partir dos próprios países — só é possível por causa da internet. O meu primeiro show, o What If?, é um show de apresentação: aqui estou eu, como cresci, a minha história. Nos espectáculos subsequentes a apresentação já está feita e, hoje em dia, não sinto a necessidade de voltar aos mesmos temas.

Porque não quer ser definido pelo perfil de comediante português emigrado no estrangeiro, que foi o mote do primeiro solo? E é possível libertar-se de uma identidade já tão marcada?
Antes de sair do país, não sabia mesmo o quão pequeno é, não fazia a menor ideia. Realmente há muita gente que não sabe o que é Portugal, especialmente na América. Mas já atuei na Austrália, por exemplo, com a consciência de que o único contacto que muitas daquelas pessoas vão ter com o país é ver-me ao vivo. Não sabem nada sobre Portugal. Não consomem particularmente futebol, ou seja, nem mesmo o Ronaldo lhes diz muito. A opinião que têm de Portugal é 100% dependente da experiência que tiveram comigo nessa noite. E isso também foi uma aprendizagem: como é que se apresenta um país ao mundo em cinco minutos?

"Não sou uma pessoa particularmente política ou que fala 'truth to power', mas obviamente tenho as minhas convicções. Antes, o comediante era o bobo da corte, que gozava com o rei à frente da sua cara. Os comediantes sempre foram a última linha de liberdade. Porque há um acordo entre o público e o artista: 'Nesta sala, nada é a sério. Estamos todos a brincar.'"

Mas sente a obrigação de representar Portugal? Isso pesa-lhe de alguma forma?
No início não pensava muito nisso. Depois, a certa altura, quis afastar-me dessa imagem. Quando vemos artistas de que gostamos, não pensamos na nacionalidade. Vemos ou ouvimos porque gostamos, não porque é daqui ou dali.

Em todas as situações?
Essa é a minha experiência. Mas, por exemplo, há uns dias vi o Bad Bunny ao vivo e foi uma overdose de Porto Rico, ele tem orgulho em publicitar o país de origem e os fãs aderem. Também sou português com orgulho. Representar a própria nação nos Jogos Olímpicos é uma conquista incrível, e sinto que faço mais ou menos isso, na minha liga. Quero que a pessoa que me vê na Austrália tenha uma boa imagem de Portugal por minha causa. Mas a identidade cultural passa por fases diferentes. Hoje em dia, não sinto tanta necessidade de falar sobre Portugal, mas quero que qualquer português à volta do mundo diga com orgulho “este gajo é nosso”. Não sei se vou ser o Bad Bunny, mas ele conseguiu pôr milhões de pessoas que não sabem nada sobre Porto Rico a usar T-shirts do país.

"Todos nós acabamos por consumir conteúdos de pessoas que têm experiências semelhantes às nossas, no meu caso pessoas que viajam, que têm... mais mundo, acho eu. Em Portugal, vemos o emigrante como uma pessoa de baixo, alguém que faz limpezas, ou trabalha nas obras. E, hoje em dia, já não é necessariamente assim."

Esteve em Londres durante cinco anos, durante os quais teve vários trabalhos e chegou a ser acompanhante para pagar a vida na capital britânica.
Tentei ser “escort”.

Não se concretizou?
Não se concretizou. Isto foi pré-OnlyFans. Se houvesse OnlyFans na altura, será que teria criado uma conta? Não sei. Não sou a pessoa mais criativa do mundo, no sentido em que não consigo inventar a partir do vazio. Há pessoas que escrevem coisas incríveis. O Fernando Pessoa mal saiu de Portugal, apesar de ter vivido na África do Sul, mas escrevia sobre mundos e mundos. Eu não tenho essa capacidade. Preciso de viver as experiências para escrever sobre elas.

Então pôs-se nessa situação para ter material cómico?
Um bocado. Eu digo sempre que sim a tudo e acabo por ter histórias incríveis.

Mas, além disso, estava numa situação limite?
Sim, precisava urgentemente de ganhar dinheiro. Quando comecei a procurar mais sobre o assunto, comecei a ter uma série de sentimentos. Será que consigo mesmo fazer isto, quando a altura chegar? Porque a pessoa abre a porta e não sabe quem está do outro lado. Comecei a ouvir histórias e achei que era um mundo super interessante. Tenho o sonho de um dia fazer uma série sobre isso, acho que não há muita coisa a partir da perspetiva masculina. Cheguei a escrever um guião e até estava a falar com a BBC, mas nunca aconteceu. Se um dia avançar com o projeto, vou ter de entrar no papel de um “escort”, ter essa experiência para ver se consigo ou não. Se algum dia fizermos a série, vai acontecer. Está aqui escrito.

No What If?, o André faz humor sobre as dificuldades por que passou — por exemplo, a nível financeiro e familiar. É preciso ter essas experiências para ser um bom comediante?
Não, até porque a maior parte dos comediantes em Portugal, ou uma parte considerável, vem de meios privilegiados. Se ajuda ter dificuldades? Não sei, mas acho que não é obrigatório. A verdade é que qualquer pessoa que queira fazer carreira nas artes passa por aquilo a que chamo de “deserto”. Isto é, sair do ponto A e entrar num vazio que não se sabe quando acaba, até atingir o sucesso. Toda a gente passa por isso, a única diferença é que alguns vão de jipe, param para acampar e têm ar-condicionado. Outros têm de andar com mochila às costas, à procura de água. E no fim de contas, não sei, mas como o meu pai diz, se calhar o sucesso sabe melhor porque foi tudo tão difícil.

E não será isso uma mentalidade muito portuguesa? Uma cultura do trabalho que continua a dominar no nosso país, sobretudo entre as gerações mais velhas?
Se calhar. As pessoas da idade dos meus pais priorizavam a estabilidade, um trabalho de 30 anos, esperavam pela reforma para aproveitarem o mundo. Nós queremos aproveitar agora, fazer o que nos apetece. Priorizamos a liberdade, acho que perseguimos os nossos sonhos muito mais do que eles.

Tem um pendente com um cravo ao pescoço e uma tatuagem da célebre fotografia do menino a colocar uma flor no cano da espingarda. Quando diz que valoriza a liberdade, também se refere à liberdade política?
Sim, sim, até porque seria impossível ter este trabalho se essa liberdade não existisse. Não sou uma pessoa particularmente política ou que fala truth to power, mas obviamente tenho as minhas convicções. Antes, o comediante era o bobo da corte, que gozava com o rei à frente da sua cara. Ou seja, os comediantes sempre foram a última linha de liberdade. Porque há um acordo entre o público e o artista: “Nesta sala, nada é a sério. Estamos todos a brincar.” Mesmo assim, as pessoas comentam “Ah, isto que tu disseste está errado”. Claro, eu não sou professor de História, não sou professor de nada! A comédia não tem de ser factual, de todo. A comédia pode gozar com o poder, pode não gozar com o poder — o que é essencial é a liberdade para dizermos o que nos apetece. Vivermos num mundo em que todos podemos ter opiniões.

Mas humor é opinião?
Não, mas podemos ter opiniões diferentes e, ainda assim, rir na boa do mesmo espectáculo de stand-up. O humor tem esse poder, de juntar as pessoas. Os meus espectáculos têm gente de nacionalidades, contextos históricos, culturas e idades diferentes. Pessoas dos 20 aos 60 anos, e estão todas ali, a rir.

Nunca pensou em fazer humor político?
Não particularmente, há sempre coisas que acabo por dizer que são políticas, mas não o faço de propósito. Não ligo muito a política, para ser sincero.

Mas o clima político nos EUA, a reeleição de Donald Trump no ano passado, os radicalismos, a repressão policial, não influenciam o seu quotidiano? É fácil alhear-se dessa realidade?
Moro em Nova Iorque e Nova Iorque é o seu próprio mundo. As intervenções do ICE, por exemplo, não acontecem lá, porque a cidade está cheia de imigrantes. É um mix de toda a gente, tem israelitas e palestinianos a viver na mesma rua, ucranianos e russos — é um melting pot. Além disso, as pessoas estão ocupadas, people got shit to do. Nova Iorque é uma bolha, não é a América, da mesma forma que Londres não é Inglaterra e Lisboa não é Portugal.

"Representar a própria nação nos Jogos Olímpicos é uma conquista incrível, e sinto que faço mais ou menos isso, na minha liga. Quero que a pessoa que me vê na Austrália tenha uma boa visão de Portugal por minha causa, [...] quero que qualquer português à volta do mundo diga com orgulho, 'Este gajo é nosso'."

O American Dream é real?
Menos do que costumava ser. O American Dream era a ideia de conseguir criar uma vida confortável. Hoje, a América é um sítio muito caro para viver. Cada vez há um gap maior entre pobreza e riqueza. No país que praticamente inventou o conceito de classe média, ela quase já não existe. O atrativo da América é que a vida pode mudar num instante, mas para isso é preciso ser empreendedor e ter garra.

É preciso ser um bom vendedor? Ser persuasivo e carismático?
Sim, porque é tudo dinheiro, business, business, business. O dinheiro americano, a fama, a vida que pode mudar num espaço de tempo tão curto — não há outro sítio no mundo que seja assim. Agora, para quem não é empreendedor e não quer montar um império e reach the top and make it, a América é um sítio horrível para estar, porque toda a gente é assim.

Já atuou na Comedy Store em Los Angeles, é comediante residente no mítico Comedy Cellar de Nova Iorque… O que é que estes sítios representam para um humorista em ascensão?
O Comedy Cellar é basicamente o topo da nossa profissão em termos de live performance. É o equivalente na comédia a ser jogador do Real Madrid na Liga dos Campeões — que neste caso é Nova Iorque. Ter chegado lá é uma vitória gigante do ponto de vista pessoal e profissional, ainda por cima sendo eu o primeiro português a consegui-lo e um dos únicos europeus (acho que há cinco ao todo). Na Europa começa a surgir uma nova geração de comediantes que atuam em inglês. É possível um de nós chegar ao Cellar porque não importa se o inglês é a primeira ou segunda língua, estás lá para competir com toda a gente, de qualquer estado, de qualquer cidadezinha no meio dos EUA — toda a gente do mundo que acha que é bom vai lá e compete. E isso é a América.

Mas não basta achar que se é bom. O que é, de facto, preciso fazer para ser humorista residente no Cellar?
É uma combinação de meter dez mil horas de trabalho e alguma insensatez. Quando eu tinha 19 anos e decidi sair do país, escrevi cinco objetivos para a minha carreira. Um deles era chegar ao Comedy Cellar, o que, na altura, era tão provável como ir à Lua. É preciso ter algumas ilusões. Ir subindo as escadinhas, completando check marks até chegar ao ponto em que é possível ser recomendado, porque já conhecemos as pessoas certas.

Quais foram os outros objetivos que escreveu nessa lista?
Fazer uma showcase bastante significativa dentro da nossa indústria, que é a New Faces do Festival Just For Laughs [em Montreal, no Canadá]. Muitos comediantes icónicos passaram por lá, por exemplo o Kevin Hart, o John Mulaney ou a Ali Wong. Depois gostava de aparecer no Tonight Show apresentado pelo Jimmy Fallon. Tendo em conta o atual clima político, não sabemos quanto mais tempo é que vão existir talk shows, então… gostava de atuar lá antes que acabassem. E finalmente, ter um especial na HBO, porque a HBO sempre foi a plataforma dos artistas. Lembro-me de ver coisas nos anos 2000 e saber que quando aparecia aquele sinal da HBO ia ver alguma coisa incrível. Ah, e esgotar uma arena grande, só para dizer que consegui, porque não acho que seja o melhor espaço para comédia.

E como é que a família e outras pessoas que deixou em Portugal veem a sua carreira? É um universo paralelo e incompreensível para eles?
Os meus pais não percebem nada, mas percebem o que lhes digo. E digo-lhes que isto é grande. Falam do Comedy Cellar, mas não sabem o que é, nunca foram aos Estados Unidos. Quando fiz o [Festival] Fringe, [em Edimburgo,] o espetáculo foi muito bem recebido pela crítica, que tem um grande peso no Reino Unido, e os meus pais perguntavam “que jornais são estes?”. Vou-lhes dizendo à medida que as coisas acontecem. Mas demorou tempo. Começar há dez anos, quando mal havia comédia em Portugal, e dizer “vou contar piadas como profissão, noutro país, numa língua que não é a nossa”? Obviamente, isso preocupava-os, como a qualquer pai, mas hoje, quando duvido de mim próprio, eles dão-me força.

"Qualquer pessoa que queira fazer carreira nas artes passa por aquilo a que chamo de deserto. Isto é, tu sais do ponto A e entras num vazio que não sabes quando acaba, até atingires o sucesso. Toda a gente passa por isso, a única diferença é que alguns vão de jipe, param para acampar e têm ar-condicionado. Outros têm de andar com mochila às costas, à procura de água. E no fim de contas, não sei, mas como o meu pai diz, se calhar o sucesso sabe melhor porque foi tudo tão difícil."

E como é de facto o Comedy Cellar? Qual é a sensação de estar no meio dos gigantes da comédia?
É estar sentado à mesa com pessoas que cresci a ver. O Cellar tem uma zona reservada só para os comediantes da casa. O Olive Tree Café, no interior, é dividido por uma linha invisível que distingue as mesas “For Comedy Cellar comedians only” das normais. Lembro-me de ir lá comer antes de ser humorista residente e sentir-me tão perto mas tão longe ao mesmo tempo. E agora posso sentar-me na mesa que vi em tantos documentários e filmes, por onde passaram os meus comediantes favoritos e onde fizeram a mesma audição, à frente da mesma senhora israelita de 80 anos. Toda a gente, não importa quem, faz a audição à frente dela, quer seja o Jerry Seinfeld, o Kevin Hart ou o Dave Chappelle.

Qual é o nome da senhora?
Estee [Adoram]. Todos passámos pelo mesmo stress, pelo mesmo nervosismo de atuar à frente dela. E a partir do momento em que estamos na mesa, somos todos pares. Não costumo ter reações exageradas de fã, mas às vezes fico mesmo starstruck. Tirei um curso profissional na escola do Monte da Caparica. Como é que acabei a atuar no Comedy Cellar?

Recorda-se de alguma interação particularmente marcante?
Lembro-me de ver uma sitcom com os meus pais que se chamava Everybody Loves Raymond. Encontrei o protagonista [Ray Romano] no Cellar, começámos a conversar e, a certa altura, ele disse “acho que sou a seguir a ti nesta sala. Apanhei um bocado do teu set, you’re killing. Tough follow”, que na comédia significa “és difícil de seguir porque estás a partir a sala”.

O que podemos esperar de Public Display of Affection, o seu próximo espectáculo a solo?
Aconteceram duas coisas impactantes na minha vida nos últimos dois anos. A minha mãe teve cancro e terminei uma relação significativa. Pela primeira vez, enfrentei a mortalidade dos meus pais, e o espetáculo é um bocado sobre isso, sobre a transição para a vida adulta, o que é o amor para mim, se fui boa pessoa enquanto estava tão focado no meu sonho e nos meus objetivos. Quando a minha mãe adoeceu, senti alguma culpa por não ter estado presente e uma nova necessidade de conhecer os meus pais. No espectáculo reflito sobre esse processo, admito coisas que por vezes são difíceis.

Como dizer “amo-te” aos pais? O André fala sobre isso no primeiro solo, sobre como a expressão tem enorme peso em português, mais do que noutras línguas.
Exatamente, entro em maior profundidade nessa questão. A premissa é: “We were never a public display of affection kind of family” [Nunca fomos o tipo de família que demonstrava afeto em público], daí o nome do espectáculo.

"O Comedy Cellar é basicamente o topo da nossa profissão em termos de live performance. É o equivalente na comédia a ser jogador do Real Madrid na Liga dos Campeões — que neste caso é Nova Iorque. Ter chegado lá é uma vitória gigante do ponto de vista pessoal e profissional, ainda por cima sendo eu o primeiro português a consegui-lo e um dos únicos europeus."

Está a ser bem recebido?
Há mais gente nesta digressão, o que é sempre positivo. Muita gente nova a descobrir-me, outros vêm ver-me pela segunda vez. Houve uma série de pessoas que se sentiram muito conectadas com o What If?. Lembro-me de às vezes chegarem ao pé de mim no fim a dizer “chorei um bocadinho”. Gente que sentiu um vazio, que disse “não tenho um sonho como tu, não há nada de que goste tanto como tu gostas disto”.

E já fez o novo espectáculo à frente dos seus pais?
Não. Vão ver aqui em Lisboa, pela primeira vez. E isso é sempre um momento…

…de grande ansiedade?
Mais intensa do que no confronto com os críticos. Obviamente, falo de muitas coisas pessoais da minha família. Nem tudo é verdade e eles sabem disso…

Sente que os interlocutores deste espectáculo são os seus pais? Escreveu o texto para eles?
De certa forma, é uma dica para a minha mãe. Uma pessoa normal diz que ama a mãe, mas como não tenho essa capacidade, isto é a minha forma de mostrar apreciação. O objetivo principal é ser o máximo engraçado, mas sei de espectadores que acabaram por refletir com maior profundidade sobre as respetivas vidas. Recebi mensagens a dizer “fizeste-me pensar sobre a relação que tenho com os meus pais. Houve algumas perguntas que fizeste aos teus, que eu nunca fiz e tenho vontade de fazer”. Mas, acima de tudo, espero que as pessoas venham e se divirtam, que riam imenso. Se levarem mais qualquer coisa, é um bónus.