A primeira missão é conseguir que o caça F-35 descole e o acelerador já está no máximo. Ao lado do simulador está Carlton “Puff” Wilson, que, enquanto piloto da Força Aérea norte-americana, somou várias missões no Médio Oriente. Além disso, já formou mais de 100 pilotos ao longo dos seus mais de 20 anos de experiência. Hoje em dia, cabe-lhe a tarefa de testar os F-35 Lightning II que saem da linha de montagem na fábrica da empresa norte-americana Lockheed Martin.
Com uma ligeira pressão na manche da direita do simulador de cockpit, presente no evento dedicado à defesa AED Days 2026, fixam-se os alvos no painel de controlo e um toque num botão vermelho liberta, cada um na sua vez, mísseis e uma bomba de precisão. O próximo passo é voltar ao porta-aviões e um botão no acelerador estabiliza a aeronave. As piores aterragens de Puff, afirma o próprio, aconteceram durante noites com más condições meteorológicas, mas o céu que surge nos ecrãs está limpo e claro.
O piloto aconselha a moderar a força na manche e, pouco a pouco, o F-35 pousa na pista. “Penso que todos saem do simulador com a ideia de que é muito fácil de usar”, crê o piloto norte-americano. É com o F-35 que a Lockheed Martin está na corrida da substituição dos F-16 da Força Aérea Portuguesa, contra os concorrentes da sueca Saab e do consórcio europeu Eurofighter. O general Cartaxo Alves, chefe do Estado-Maior da Força Aérea, já manifestou preferência pelos F-35, a empresa norte-americana salienta a longa relação com Portugal e diz ainda não ser possível aferir o custo dos caças: tudo depende de uma carta que ainda não chegou aos EUA.

Demora em enviar carta pode colocar em risco “perfil de entrega” dos caças
Atualmente, refere o diretor de desenvolvimento de negócios internacionais do F-35 Rob Weitzman, a empresa está em modo de “stand-by, pacientemente à espera que a Letter of Request (ou carta de pedido) [do governo português] dê entrada”. Trata-se do primeiro passo formal em que são dados, aos EUA, os detalhes da encomenda e que dá origem ao processo de Foreign Military Sales (Vendas Militares ao Estrangeiro).
Apesar de terem decorrido conversas informais “com todos os stakeholders”, “qualquer demora ou demora contínua para receber essa carta de pedido coloca potencialmente em risco esse perfil de entrega”, explica Rob Weitzman, mas a empresa tem “uma capacidade de produção robusta e cinco vezes maior do que qualquer fornecedora de aeronaves”, garante. “Deixamos 156 caças prontos por ano..”
Em março de 2025, o ministro da Defesa expressou numa entrevista ao jornal Público as suas reservas sobre a compra de caças norte-americanos perante as posições que o Presidente Trump tem vindo a adotar “no plano geoestratégico internacional” e quanto à NATO. “A previsibilidade dos nossos aliados é um bem maior a ter em conta”, apontou na altura Nuno Melo. Porém, a Lockheed Martin recorda a relação antiga com Portugal que remonta a 1977 com a compra dos C-130 e que em 1990 levou à aquisição dos F-16 a substituir. “Com os F-35, esperamos continuar a relação que já temos e construir por cima dessa base”, sublinha Rob Weitzman.
Nessa entrevista, Nuno Melo alertou para possíveis limitações por parte dos EUA quanto à utilização, manutenção e componentes das aeronaves caso haja divergências entre as políticas externas norte-americana e portuguesa, preocupações que Rob Weitzman descarta. “Qualquer cliente, incluindo Portugal, quando adquire o [programa do] F-35, obtém todos os dados necessários para operar a plataforma mediante a sua atividade e necessidades soberanas”, salienta o diretor de desenvolvimento de negócios internacionais. “Dizemos que é um programa global, com uma elevada concentração na Europa, mas é uma plataforma soberana. Queremos deixar isso abundantemente claro: é um programa construído [com base] na cooperação e parceria, o que pode dar azo a alguma confusão, porque se se é um parceiro, pode haver um botão para desligar [a aeronave]. Não existe um botão para desligar.”

Problemas de software? “A aeronave continua a ficar melhor e melhor”
Em março, um relatório do Pentágono revelou que o software do F-35, a que foi dado o nome de TR-3, era “predominantemente inutilizável” em testes operacionais. “Até à data [setembro de 2025, até quando foram recolhidos os dados], não foram entregues aos Serviços dos Estados Unidos da América aeronaves prontas para combate”, lê-se no mesmo documento.
Mas a empresa não desarma. “O TR-3 Block 4 é um exemplo perfeito do nosso programa de modernização”, responde Rob Weitzman. “De como a aeronave continua a ficar melhor e melhor. Uma coisa boa para o Governo português é que na altura em que os caças saírem da linha de produção, todos esses problemas ficarão para trás. E essas aeronaves serão melhores do que aquelas a que se refere ou a que o relatório se referia.”
https://observador.pt/2026/05/15/norte-americanos-da-lockheed-martin-admitem-producao-de-componentes-do-f-35-em-portugal/
Também Carlton “Puff” Wilson desvaloriza: “Todas as aeronaves têm pequenos problemas de software a que temos sempre que voltar e corrigir. E quando temos a interoperabilidade, quando temos milhares de pessoas a pilotar o mesmo caça e estão constantemente a olhar para essas coisas, vamos encontrar esses problemas e corrigi-los muito mais depressa do que se estivéssemos num grupo pequeno.”
Afinal, sustenta Rob Weitzman, se Portugal escolher a Lockheed Martin, “irá juntar-se a um ecossistema de F-35 que já estão a operar na Europa”, onde também já existem infraestruturas de final de linha de produção (em Itália) e de manutenção (como em Itália e na Noruega).

“Até 2035, mais de 700 aeronaves serão entregues e Portugal irá juntar-se a um programa. Será o caça de eleição da NATO nessa altura. Em termos de interoperabilidade, será crítico conseguir operar com os aliados”, frisa o responsável. O contributo da indústria portuguesa, garantem os representantes da Lockheed Martin, não será deixado de fora. “Sabemos o que a indústria portuguesa pode dar às nossas plataformas”, afirma Rob Weitzman, que no passado não pôs de parte o fabrico de componentes em Portugal. “Não há nada no programa dos F-35 que indique que Portugal tenha que mudar a forma como faz agora as coisas. Se há uma organização definida entre esquadrões, podem continuar a usá-la”, acrescenta Puff. “Manutenção, também podem seguramente fazê-la como até agora.”
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“No futuro, vamos definitivamente trabalhar com IA”
Foi em plena Segunda Guerra Mundial que a Lockheed Martin avançou com o seu Programa de Desenvolvimento Avançado, atualmente com o nome Skunk Works. Se nos seus primórdios levou à criação do P-80 Shooting Star — o primeiro caça a ser usado em operações pela Força Aérea dos EUA —, nos últimos anos o desafio passa pelo aproveitamento da Inteligência Artificial (IA) em cenário de combate.
“No futuro, vamos definitivamente trabalhar com IA”, confirma Puff. A Skunk Works, concretiza, “já está a trabalhar com IA”, especialmente na programação. “Já fizemos algumas coisas, como a identificação em combate. Usámos um agente de IA, colocámo-lo na aeronave e utilizámo-lo para determinar que outras aeronaves ou sistemas de terra-ar se encontravam no solo.”
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Enquanto piloto em combate, Carlton “Puff” Wilson pilotou na maioria caças Harrier, mas também F-16. Agora piloto de testes do F-35 e formador para a Lockheed Martin, defende que os caças de quinta geração — uma categorização questionada pelos concorrentes — são “únicos”. “O que torna o F-35 diferente? A interoperabilidade e a capacidade de sobrevivência. Primeiro, todos os sensores avançados criam muita informação, e o caça tem a capacidade de fundir toda essa informação numa vista do piloto que lhe permite focar-se na tática. Numa aeronave de quarta geração, ainda tenho que manobrar o meu radar e o meu sistema de guerra eletrónica. O F-35 já faz muito disso por nós. Por isso, sou capaz de me focar no que está a acontecer e a tomar decisões cedo, em vez de me concentrar em como dirijo o meu caça”, além de a partilha de informação com o wingman ser bem mais fácil.

“Se o meu caça vê alguma coisa, e o meu wingman não, agora começam a comunicar juntos para alcançar a informação e especificamente nas missões que estamos a fazer. E quanto à capacidade de sobrevivência, o que a furtividade nos permite é poder fazer o primeiro tiro e sair dali antes que alguém dê por nós”, explica.
“Como piloto, o que mais me importa é que os meus amigos voltem a casa. Quero que a minha família volte. Que os meus conterrâneos voltem para casa. Atualmente, o F-35 é o que vai permitir fazer isso contra as ameaças avançadas que existem hoje em dia. É assim tão simples.”



