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O que é uma relação tóxica? 12 perguntas sobre manipulação, controlo, sofrimento e dependência

Medo, culpa, confusão, controlo, manipulação, perda de autoestima, ataques de ansiedade. Uma relação tóxica tem sinais de alerta bem visíveis – mas nem sempre é fácil de abandonar.

Sara Dias Oliveira
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Há amor, mas vem revestido de controlo, manipulação, ciúme excessivo e instabilidade emocional. E, do outro lado, há amor também mas há culpa e sofrimento psicológico. Uma relação tóxica não é um lugar seguro e pode causar ansiedade e dor emocional. Infelizmente, os sinais de alerta — como enviar mensagens compulsivamente, precisar de saber onde o outro está constantemente, verificar o telemóvel, ciúmes excessivos confundidos com cuidado, medo extremo do fim da relação e pânico permanente — nem sempre entendidos.

Não existe uma causa única, mas várias, e pode nascer de carências afetivas antigas, infância emocionalmente insegura, medo de rejeição, modelos familiares disfuncionais, dependência afetiva. Em alguns casos, pode haver perturbações psicológicas associadas e tanto atetam homens como mulheres. “A toxicidade não tem género”, diz a psicóloga clínica Bárbara Ramos Dias, autora de “Dizer ‘Não” é um Ato de Amor [ed. Manuscrito]. “Tem dor emocional, feridas antigas e padrões aprendidos.”

O que é uma relação tóxica?

É uma relação afetiva onde o amor deixa de ser um lugar seguro e passa a ser um lugar de desgaste emocional. Segundo Bárbara Ramos Dias, psicóloga clínica, existe vínculo, existe sentimento, mas também existe medo, culpa, confusão, controlo, manipulação e uma sensação constante de que “nunca sou suficiente”.

Muitas vezes, estas relações não começam mal. Pelo contrário, começam de forma muito intensa, quase avassaladora. “Há uma fusão muito grande, uma necessidade constante de estar junto, mensagens a toda a hora, idealização… e, aos poucos, a pessoa vai deixando de ser ela própria para conseguir manter a relação viva.” Nem tudo o que parece amor é amor, por vezes é dependência emocional vestida de intensidade. Confunde-se intensidade com amor verdadeiro, quando o que existe é medo de perder, carência ou necessidade de validação.

“Quando o amor é sinónimo de dor emocional, estamos a amar demais”, diz a psicóloga, porque o amor saudável não nos destrói, não nos faz viver em ansiedade constante, nem nos obriga a deixar de ser quem somos para sermos aceites.

Quais as características mais comuns?

São várias. As relações tóxicas têm padrões muito repetitivos. Desde logo, dependência emocional: a pessoa passa a viver mais em função do parceiro do que dela própria. Existe sofrimento intenso quando o outro não está presente, necessidade constante de validação e medo profundo de ficar sozinho. E, claro, o medo de abandono: muitas destas pessoas fazem tudo para impedir o fim da relação, mesmo quando já existe sofrimento emocional evidente. Toleram situações dolorosas por receio da solidão e do desconhecido.

O controlo e a vigilância estão entre as características mais comuns. É muito frequente surgirem comportamentos obsessivos, como mensagens constantes, chamadas excessivas, controlo do telemóvel, redes sociais, emails, deslocações ou até de contas bancárias. A relação torna-se o centro da vida “e a pessoa pensa constantemente no outro, vive em ansiedade e perde equilíbrio emocional sempre que sente distância, rejeição ou ausência de resposta”.

A instabilidade emocional também é uma constante, com emoções intensas e contraditórias em permanente rebuliço: amor, ansiedade, culpa, medo, dependência, esperança, insegurança, vazio emocional, obsessão, carência, desespero perante abandono. “Muitas pessoas vivem numa montanha-russa emocional: sentem-se vazias sem o outro, embora por vezes seja um tormento estar com ele”, diz Bárbara Ramos Dias.

Outras carecterísticas comuns são:

  • Tentativa constante de mudar o outro. A pessoa vive mais ligada ao potencial da relação do que à realidade daquilo que realmente está a viver;
  • Baixa autoestima. São pessoas que, muitas vezes, não se sentem suficientes nem merecedoras de amor saudável;
  • Atração por pessoas emocionalmente indisponíveis, imprevisíveis ou difíceis de conquistar;
  • Isolamento e abandono de si próprio, afastamento de amigos, família, interesses pessoais e projetos de vida;
  • Manipulação emocional e sexual. O seja, o sexo é utilizado como forma de manipular, evitar conflitos, manter ligação emocional ou impedir o abandono.

Quais os sinais de alerta?

Alguns sinais importantes: enviar mensagens compulsivamente, precisar de saber onde o outro está constantemente, pedir para verificar telemóvel, controlar as redes sociais ou emails, ciúmes excessivos confundidos com amor, deixar amigos e família para viver em função da relação, necessidade constante de agradar, medo extremo do fim da relação, viver em ansiedade permanente, perder autoestima desde que entrou na relação, sentir que “já não se reconhece”.

Com o tempo começam a surgir ansiedade, alterações do sono, tristeza, exaustão emocional, sensação de vazio e, por vezes, depressão. Segundo a psicóloga clínica, as pessoas “vivem muito mais no sonho de como a relação poderia ser do que na realidade. É uma idealização daquilo que não existe na realidade”. São relações onde existe muito medo e pouca paz emocional.

Quais as causas?

Não existe uma única causa. Muitas vezes estas relações nascem de uma baixa autoestima, carências afetivas antigas, infância emocionalmente insegura, medo de rejeição, modelos familiares disfuncionais, necessidade extrema de aprovação, trauma relacional, abandono emocional, dependência afetiva.

Habitualmente, realça a especialista, são pessoas que experimentaram pouca segurança na infância, desenvolvendo a necessidade desesperada de controlar relações. Muitas vezes, esse controlo nasce do medo, não da força.

Pode haver alguma perturbação associada?

Sim, pode haver algumas perturbações psicológicas associadas, embora seja importante perceber que nem todas as pessoas que vivem relações tóxicas têm necessariamente um diagnóstico clínico. “Muitas vezes estamos a falar de sofrimento emocional profundo, feridas afetivas e padrões relacionais disfuncionais.”

As situações mais frequentemente associadas são: ansiedade, depressão, perturbações de vinculação, trauma complexo, algumas perturbações de personalidade, e, em certos casos, consumo de substâncias ou outras dependências.

“Muitas destas pessoas cresceram sem segurança emocional consistente, sem validação afetiva ou com modelos relacionais instáveis. E isso influencia muito a forma como vivem o amor na vida adulta. Mas é fundamental não patologizar tudo”, diz a psicóloga clínica, acrescentando que “nem todas as pessoas ciumentas têm uma perturbação e nem todas as relações tóxicas significam doença mental”.

Uma relação tóxica é uma relação abusiva?

Nem sempre. Uma relação tóxica pode envolver imaturidade emocional, dependência, comunicação destrutiva, caos emocional dos dois lados. Já uma relação abusiva normalmente implica desequilíbrio de poder, medo, controlo sistemático, violência emocional, física ou sexual. “Toda a relação abusiva é tóxica. Mas nem toda a relação tóxica chega ao abuso.”

Amor patológico e relação tóxica são a mesma coisa?

Não são exatamente a mesma coisa, mas existe uma ligação muito forte. O amor patológico torna a pessoa mais vulnerável a permanecer em relações tóxicas. “Quanto maior a dependência emocional, maior a probabilidade de a pessoa permanecer presa numa relação destrutiva.”

O amor patológico acontece quando a pessoa vive em função do outro, sente medo intenso de abandono, necessidade constante de validação e dificuldade em colocar limites. Existe dependência emocional, obsessão e sofrimento constante associado à relação. Uma relação tóxica, por sua vez, é uma relação onde existe desgaste emocional constante. “Há amor, mas também controlo, manipulação, ciúme excessivo, culpa, instabilidade emocional e sofrimento psicológico. A relação deixa de ser um lugar seguro e passa a gerar ansiedade e dor emocional.”

Quais os impactos na saúde mental para quem controla e para quem é manipulado?

Em quem é manipulado, podem surgir ansiedade, depressão, ataques de pânico, perda de autoestima, isolamento, exaustão emocional, dependência emocional, perda de identidade. Exemplo: uma pessoa que antes era leve, criativa e autónoma, quando está numa relação tóxica passa a viver apenas em função do humor do parceiro.

Em quem controla, também existe sofrimento, insegurança extrema, obsessão, medo de abandono, vazio emocional, dificuldade em confiar, impulsividade. Seja como for, sofrimento emocional nunca justifica o controlo ou manipulação.

As “pessoas tóxicas” são sobretudo mulheres ou principalmente homens?

Existem homens e mulheres “tóxicos”. Segundo Bárbara Ramos Dias, os estudos mostram que os homens praticam mais frequentemente violência física e controlo coercivo e que mulheres também podem exercer manipulação emocional, dependência e controlo psicológico. “A toxicidade não tem género. Tem dor emocional, feridas antigas e padrões aprendidos.”

Quando se deve procurar ajuda clínica?

Em várias situações. Quando a relação gera sofrimento constante, existe perda de autoestima, há medo intenso de abandono, a pessoa sente que perdeu quem é, há ansiedade, tristeza ou obsessão, há controlo ou humilhação, a pessoa não consegue terminar a relação apesar da dor.

Quais as terapias mais aconselháveis?

As mais indicadas são psicoterapia individual, terapia cognitivo-comportamental, terapia focada no trauma, terapia da vinculação, terapia sistémica/familiar, trabalho de autoestima e limites emocionais.

“O grande objetivo terapêutico é aprender a gostar de si, deixar de viver em função do outro, tolerar solidão sem desespero, construir relações seguras, diferenciar amor de dependência”, diz Bárbara Ramos Dias.

A família e os amigos podem ajudar?

Sim. Devem acolher sem julgar. Evitar frases como: “Então sai dessa relação.” Porque quem está preso emocionalmente já vive culpa suficiente. Devem ouvir, validar emoções, ajudar a recuperar autoestima, lembrar a pessoa do seu valor, incentivar a procurar ajuda profissional, manter presença afetiva sem pressão.

Às vezes, o mais importante, lembra Bárbara Ramos Dias, não é “salvar”. “É ajudar a pessoa a reencontrar-se. Lembrem-se sempre, o amor genuíno não sufoca, não controla e não destrói identidade. E o amor saudável dá paz, não estado de alerta permanente.”

A psicóloga Bárbara Ramos Dias  desenvolveu um teste online (com resultados imediatos) a que chamou “Será amor… ou dependência emocional?”