Têm sido anos de seca em Wall Street no que toca a grandes entradas em bolsa de tecnológicas. A última foi a da Uber, já em 2019. Mas este ano há um “tripé” que promete romper a tendência. As expectativas de analistas e investidores são tão altas que já é usada a expressão “mega-IPO” para fazer referência às operações de oferta pública inicial (IPO) de grandes dimensões que são esperadas nos próximos tempos.
Tudo porque há um trio de empresas — SpaceX, OpenAI e Anthropic — que deverá fazer este ano a estreia na bolsa norte-americana. Até agora, só a SpaceX é que oficializou o primeiro passo, ao revelar o prospecto de IPO ao mercado na semana passada. Quanto aos dois laboratórios de inteligência artificial (IA), vários jornais norte-americanos avançam que deverão oficializar em breve o seu caminho para Wall Street. As três empresas rivalizam entre si nos negócios, mas há também animosidade entre os CEO.
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A operação da SpaceX, a empresa de exploração espacial de Elon Musk, poderá vir a ser a maior da história da bolsa. A empresa pretende angariar 75 mil milhões de dólares (64,6 mil milhões de euros), um valor recorde que poderá avaliar a companhia em 1,75 biliões de dólares (1,5 biliões de euros). E, a confirmarem-se montantes desta ordem, será a primeira vez que uma empresa se estreia em Wall Street com um valor de mercado acima da fasquia do bilião de dólares. A Apple, que em 2018 foi a primeira norte-americana a cruzar a marca de um bilião em bolsa, precisou de quase 38 anos em Wall Street para chegar a esse patamar.
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A OpenAI estará a correr contra o tempo para preparar a documentação para o seu IPO. A ronda mais recente de financiamento elevou a avaliação da dona do ChatGPT para 852 mil milhões de dólares (733,8 mil milhões de euros). De acordo com o Wall Street Journal (WSJ), a tecnológica deverá formalizar o processo para avançar com o IPO “dentro de semanas”, com expectativas de passar a ser uma empresa cotada em setembro.
Já a Anthropic, a criadora do chatbot Claude, estará mais demorada no processo. Mas, tal como a OpenAI, também a companhia liderada por Dario Amodei estará a apontar o seu IPO para o outono. A estreia também deverá levar a empresa à fasquia do bilião de dólares.
Kyle Stanford, diretor de pesquisa de capital de risco da PitchBook focado no mercado norte-americano, refere que “se os potenciais IPO destas empresas ficarem concluídos em 2026, seriam as maiores ofertas públicas iniciais de sempre no setor tecnológico dos EUA apoiadas por capital de risco”.
Numa nota enviada ao Observador, Stanford afirma que “estes mega-IPO podem servir como catalisadores, encorajando mais empresas a entrar em bolsa, dependendo da receção do mercado”. Mas admite também a possibilidade de “cenários negativos” causados pela vaga de IPO, como a possibilidade de “estas empresas absorverem o capital que, de outra forma, poderia ir para outros IPO tecnológicos”.

João Queiroz, head of trading do Banco Carregosa, diz ao Observador que “é razoável esperar que a OpenAI e a Anthropic procurem encaixes mais modestos do que os da SpaceX”, apontando para intervalos “entre 20 mil a 50 mil milhões de dólares [17,2 mil milhões a 43 mil milhões de euros], porque a libertação de ‘free float’ em escala excessiva poderia comportar o risco de pressão sobre o preço de estreia em bolsa”. De qualquer forma, este especialista considera que “se aproxima uma reconfiguração da capitalização do índice Nasdaq sem precedente histórico relevante”. Quando oficializou os planos para o IPO, a SpaceX indicou que pretende integrar o Nasdaq, a bolsa composta maioritariamente por empresas do setor tecnológico.
Mas o analista também olha além do “tripé SpaceX, OpenAI e Anthropic”. “A carteira de cotadas a admitir em bolsa para 2026 é assinalavelmente larga”, realça. Além do trio de empresas, “há um conjunto de candidatos com diferentes graus de maturidade no processo”. E, em dados agregados, há referências a “aproximadamente 12 grandes operações com um valor combinado próximo de 3,1 biliões de dólares”, o equivalente a 2,67 biliões de euros. Deste grupo, “cerca de sete têm relação direta, ou quase, com inteligência artificial”, destaca.
IA explica parte da narrativa dos “mega-IPO”, mas não é o único fator
Tanto a OpenAI como a Anthropic são vistas como as empresas em destaque no setor da IA. E embora a SpaceX seja mais conhecida pelos foguetões e pelo serviço de comunicações por satélite Starlink, Elon Musk quer agora posicioná-la como uma empresa de IA. Em fevereiro deste ano, a SpaceX comprou a xAI, o laboratório de IA criado por Musk em 2023 e responsável pelo chatbot Grok — uma preparação de terreno para tirar partido da IA.
João Queiroz, do Banco Carregosa, considera que “atribuir o renascimento das ofertas públicas de venda exclusivamente à IA seria uma simplificação”. “Estamos perante uma confluência de três fatores, sendo a IA o mais visível, mas não o único.”
Fala, por exemplo, no contexto macroeconómico. “Depois de um período prolongado em que a subida das taxas diretoras e a recalibração dos múltiplos de avaliação relativa pressionou as ofertas iniciais, o mercado dos EUA não tinha tido uma emblemática admissão tecnológica de grande dimensão desde o IPO da Uber, em 2019”, explica. Na altura, a plataforma de mobilidade estreou-se com ações a 45 dólares, angariando 8,1 mil milhões no primeiro dia de negociação. O head of trading do Carregosa refere que agora “o ajustamento monetário ofereceu uma janela de oportunidade que esteve encerrada durante um tempo relevante”.
Já o segundo fator é “estrutural”, assegura. “Muitas das empresas que hoje preparam a sua estreia em bolsa cresceram, no mercado privado, até dimensões que tornam a obtenção de liquidez para colaboradores, fundadores e investidores de risco materialmente difícil sem uma colocação pública”, contextualiza.
Por fim, chega à IA. “Uma narrativa capaz de absorver capital em escala”, diz. É neste campo que se fala nas “necessidades de financiamento de infraestrutura computacional na ordem das centenas de milhares de milhões de dólares” de várias destas empresas, que “só são compatíveis com o acesso ao mercado de capitais público”.
A resposta do mercado às ofertas destas empresas também poderá ser uma forma de medir o pulso à forma como a IA é percecionada. “Estes IPO vão ser relevantes para o mercado por várias razões”, explica Kyle Stanford, da PitchBook. “Ao estarem na base do mercado de IA, os IPO da OpenAI e da Anthropic poderão validar a enorme quantidade de capital que está a fluir para o mercado se as entradas em bolsa forem fortes”, considera. “Mais importante: estreias fortes poderão puxar mais pessoas para os IPO, desbloqueando milhares de milhões de retorno para os investidores. Pelo menos é essa a esperança.”
Renos Savvides, diretor-geral e responsável pelo departamento de mercados de capitais da gestora de investimentos Neuberger, adiciona mais um fator ao apetite por estas ofertas públicas iniciais. “Há um elemento de FOMO [fear of missing out, medo de perder algo] que entra em cena aqui e que irá, talvez, levar a um possível nível não natural de interesse”, refere numa nota enviada ao Observador. “Toda a gente quer entrar. Isto é um efeito que irá afetar o resto do mercado”, assegura Savvides.
“São empresas geracionais que não aparecem com muita frequência e as pessoas querem tê-las [na carteira]”, aacrescenta. O responsável da Neuberger diz, por isso, “que é provável vermos algumas vendas para arranjar espaço para estas empresas. E não estamos a falar de pequenas quantidades. Poderão ser milhares de milhões de dólares. A pergunta que tenho é ‘o que é que as pessoas vão vender?’”. Savvides considera que os “mega-IPO” vão ser “um acontecimento tão grande e com tanto impacto, o ‘uma vez na vida’ que vai ter um impacto no mercado alargado”. Usa como exemplo o que aconteceu durante o IPO do Facebook, em 2012, em que “houve um pouco de sell off”.
João Queiroz, do Banco Carregosa, admite que “é real” a possibilidade de as empresas tecnológicas a caminho da bolsa estarem sobrevalorizadas. Salienta que há alguns indicadores que “sugerem cautela”, como “a ausência de lucros” da OpenAI, que “está prevista até 2030”.
No prospecto, também a SpaceX incluiu um alerta sobre a sua “história de prejuízos” e para o facto de que “poderá não vir a alcançar a rentabilidade no futuro”.
Já de uma perspetiva histórica, João Queiroz nota que “das cinco maiores admissões à cotação dos últimos 25 anos, apenas a Visa superou claramente o índice de referência, com a Saudi Aramco a manter-se abaixo do preço de estreia, o que sugere uma assimetria desfavorável ao investidor que entra no primeiro dia”. “A probabilidade de existir um ‘prémio de entusiasmo’ é real; o que está em aberto é a magnitude desse prémio e o tempo que demorará a ajustar”, resume.
Qual é o atual panorama das empresas com mais de um bilião de valor de mercado?
Se se cumprirem as expectativas destes “mega-IPO”, a SpaceX, OpenAI e a Anthropic entrariam diretamente para o clube das empresas mais valiosas do mundo.
Um grupo que é composto maioritariamente por empresas tecnológicas.
A Nvidia é a empresa mais valiosa do mundo e a única que ultrapassou a fasquia dos cinco biliões de dólares em bolsa.
A Alphabet, a dona da Google, ocupa o segundo lugar da lista (4,66 biliões), disputando o lugar com a Apple (4,57 biliões). A Microsoft ocupa o quarto lugar da lista (3,14 biliões), à frente da Amazon (2,89 biliões de dólares).
É preciso chegar ao sexto lugar para encontrar uma empresa fora dos EUA: a TSMC, fabricante de chips, sediada em Taiwan, que vale 2,178 biliões de dólares. Seguem-se a Broadcom (1,98 biliões) e a Saudi Aramco (1,798 biliões). A petrolífera saudita é a atual detentora do IPO mais valioso, de 26 mil milhões de dólares em 2019.
A lista de empresas com um market cap acima de um bilião inclui ainda a Tesla (1,654 biliões) ou a Meta (1,6 biliões). As sul-coreanas Samsung e SK Hynix são entradas recentes para o clube, assim como a Micron Technology.
A Berkshire Hathaway, que este ano passou a ser liderada por Greg Abel, também figura no grupo.
Além do “tripé SpaceX, OpenAI e Anthropic”, quem mais quer chegar à bolsa?
Kyle Stanford, da PitchBook, afirma que a “OpenAI, Anthropic e a SpaceX não são os únicos mega-IPO possíveis no horizonte, são apenas os mais valiosos atualmente”. E, nesse sentido, refere outros nomes passíveis de realizarem um IPO, dando como exemplo a empresa de IA Databricks, a companhia de pagamentos Stripe, a ByteDance, a gigante que criou o TikTok, ou a empresa de tecnologia aplicada à defesa Anduril, “que podem chegar à bolsa com valores de ou acima de 100 mil milhões de dólares”.
João Queiroz, do Banco Carregosa, também tem uma lista de empresas que são referidas como estando a estudar possíveis IPO. “Os nomes mais frequentemente citados incluem a Databricks, a plataforma de dados e IA, com avaliação privada na ordem dos 130-134 mil milhões de dólares [111,8 a 115,2 mil milhões de euros], a Revolut, que opera na banca digital, com avaliação próxima dos 75 mil milhões de dólares [64,5 mil milhões de euros], a Canva, serviço de software de design e o Discord”, conhecido pela comunicação em comunidade. Refere ainda a Stripe e a Anduril, e acrescenta a “Shield AI no segmento de defesa”.
Na área da computação aponta a Lambda, a startup focada em cloud criada em São Francisco, nos EUA. A empresa recebeu investimentos da gigante Nvidia e, no início do ano, anunciou que angariou 350 milhões de dólares numa ronda de investimento. João Queiroz menciona ainda a Nscale, a empresa britânica que está envolvida na chegada de chips topo de gama da Nvidia ao data center de Sines. E, fora do setor da tecnologia, faz menção à “X-Energy, na energia nuclear de pequena escala”.
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Mas faz uma ressalva. Há que “adicionar uma nota de moderação”. “Várias destas candidaturas são reiteradas há 12 meses [como candidatas a IPO] sem materialização.” Também aponta para “o histórico recente de operações como a da CoreWeave, que mostra que a passagem do anúncio ao ‘livro de ordens’ pode traduzir-se numa trajetória menos linear e dotada de alguma incerteza.” O head of trading do Carregosa refere-se à tecnológica norte-americana de computação que se estreou em bolsa em março de 2025, angariando um total de 1,5 mil milhões de dólares. Uma “estreia sem brilho”, escreveu a Reuters há um ano.
Já a PitchBook põe mais algumas empresas à mistura, como a Strava e a Motive. A Strava foi fundada em 2009 na Califórnia e é mais conhecida pelos entusiastas da corrida, mas começou como uma aplicação de nicho para os ciclistas. É uma das aplicações mais populares de desporto, usada por mais de 180 milhões de pessoas em 185 países. A 2 de fevereiro revelou ter submetido de forma confidencial o registo para o IPO. “O número de ações a serem oferecidas e a faixa de preço da oferta proposta ainda não foram determinados. Prevê-se que a oferta pública inicial tenha início após a SEC [reguladora do mercado norte-americano] concluir o seu processo de análise, sujeito às condições do mercado e a outras condições.”
A Motive, uma plataforma de gestão de frotas, que alia segurança, operações e contabilidade num sistema só, apresentou o formulário S-1 ao regulador do mercado norte-americano a 23 de dezembro de 2025. A empresa, que tem investimento da Alphabet, terá adiado o marketing do seu IPO, de acordo com uma notícia de janeiro do site The Information. Não há desenvolvimentos desde então sobre a operação.

Entrada em bolsa da Cerebras, vista como rival da Nvidia, preparou terreno para os “mega-IPO”
Ainda que num patamar de dimensão diferente, a Cerebras System estreou-se no Nasdaq este mês. A empresa de semicondutores para IA, vista como rival da Nvidia, passou a ser cotada a 14 de maio.
A Cerebras teve uma estreia auspiciosa, com um preço inicial de 185 dólares por ação (158,8 euros), angariando 5,55 mil milhões de dólares (4,76 mil milhões de euros). No fim do dia, a tecnológica ficou-se pelos 95 mil milhões de dólares (81,6 mil milhões de euros) de valor de mercado. Um valor que a deixou próxima do valor de mercado atingido pela Meta, no primeiro dia de negociação (104 mil milhões de dólares, 89,22 mil milhões de euros).
O IPO da Cerebras é agora visto como uma espécie de aquecimento para a entrada em bolsa das restantes empresas de IA. O facto de a oferta da Cerebras ter sido “mais de 20 vezes subscrita”, diz João Queiroz, do Banco Carregosa, “é bastante ilustrativo do sentimento atual”. “É a maior estreia tecnológica desde a Snowflake, em 2020, e a primeira oferta pura de IA com dimensão sistémica”, realça.
Há sinais no IPO da Cerebras “para os emitentes que se preparam para seguir o mesmo caminho”, acrescenta Queiroz. “Existe apetite real do mercado para o tema, o segmento de retalho mostra capacidade de mobilização significativa, e as ‘bookbuildings‘ [o processo para definir o preço inicial] toleram preços bem acima do intervalo inicial”, enumera. Em sentido inverso, menciona a queda de 10% das ações da Cerebras na sessão seguinte, “que evidencia a volatilidade típica destas operações e a fragilidade de fundamentais, base de clientes muito concentrada e dependência de relações circulares com a OpenAI”.
“A Cerebras funciona como teste de tração do mercado para o que pode acontecer nas próximas semanas, com a ressalva de que SpaceX, OpenAI e Anthropic operam noutra escala e estarão sujeitas a um escrutínio também ele de outra ordem, exigindo conhecimento e frieza de análise”, destaca.
Incerteza geopolítica poderá levar empresas a pôr planos em pausa ou a mover datas
Mesmo com o entusiasmo do regresso aos IPO de grandes dimensões, a incerteza global poderá levar a mudanças de planos, admitem os analistas. “É um risco inerente à operação”, explica João Queiroz, do Carregosa, ainda que reconheça que a “probabilidade de materialização” dos IPO seja “diferenciada consoante o emitente e o interesse do público”. De qualquer forma, nota que “a experiência mostra que as janelas de admissão à cotação fecham com relativa rapidez perante choques de volatilidade”. Recorda, por exemplo, “o adiamento generalizado de operações em 2022, na sequência da invasão da Ucrânia, ou a paragem de março de 2020” causada pela pandemia de Covid-19.
Os cenários de risco geopolítico já são conhecidos: “as tensões no Médio Oriente com potencial reflexo no preço do petróleo e na possível inflação persistente, a relação tecnológica entre os EUA e a China, com particular incidência em semicondutores e cadeias de logística, e uma distopia política interna nos próprios EUA que afeta a previsibilidade regulatória”.

João Queiroz refere que estes fatores podem afetar o trio de empresas na calha para “mega-IPO” de formas diferentes. “Para a SpaceX, que tem uma componente significativa de receitas com origem em contratos com a defesa norte-americana, alguns destes cenários são até favoráveis”, explica. “Para empresas mais expostas a uma base de clientela internacional, como é o caso da OpenAI ou da Anthropic, um agravamento brusco poderia traduzir-se em adiamento das apresentações públicas como os ‘roadshows’”, referindo-se às reuniões feitas para aferir o apetite do mercado antes de definir o preço inicial do IPO.
De qualquer forma, o head of trading do Banco Carregosa considera que a “possível leitura mais equilibrada é a de que, mais do que cancelamentos, é provável assistir-se a um calendário flexível, com janelas táticas escolhidas em função das condições de estabilidade de mercado” para estes IPO.
Já Kyle Stanford, da PitchBook, realça que “parte da movimentação mais lenta de colocação em bolsa tem acontecido devido a fatores externos, com a incerteza tanto de políticas (tarifas) como a incerteza geopolítica a reinar nos últimos anos”. “Estas questões complicaram o momento certo para os IPO, assim como os preços e a incerteza aumentaram a volatilidade do mercado e reduziram os múltiplos do setor tecnológico.”
Para este especialista, conflitos como a “guerra que envolve os EUA, Israel e o Irão ameaçam um mercado relativamente estável e, no mínimo, aumentam a incerteza e a tentação de as empresas adiarem a entrada em bolsa”.
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Mas também há quem defenda que o cenário atual geopolítico possa não ser “um motivo convincente para adiar os IPO que estão atualmente na calha”. É o caso de Michele Morganti, estratega sénior de ações da Generali Investments, que diz ao Observador que “um cenário base” destas operações, “ainda que tenha em conta algum recuo na escalada de tensão do conflito no Irão”, tem já em conta “preços do petróleo e a inflação acima do que era esperado”.
No entanto, “o risco de adiamento não pode ser excluído” por completo. Em particular se “a escala da guerra continue além das expectativas ou no caso de um acontecimento pontual que afete uma das empresas que se prepara para entrar na bolsa”, exemplifica. “Nesses casos, as empresas terão de esperar por condições de mercado mais estáveis para maximizar a avaliação e a procura dos investidores.”
Na Europa, a criadora dos anéis smart Oura também trabalha num IPO
Embora as maiores atenções estejam viradas para os IPO de tecnológicas norte-americanas, também há empresas nascidas na Europa interessadas na bolsa norte-americana. É o caso da Oura, nascida na Finlândia e responsável pelos anéis inteligentes que registam dados de saúde e exercício.
A Oura foi criada em 2013 e alia uma base de investigação e desenvolvimento aos dados de saúde. A empresa já vendeu 5,5 milhões de anéis desde 2015, quando lançou a primeira geração de anel. Em Portugal, este smart ring arranca com preços a rondar os 400 euros, que ainda precisa de uma aplicação, de subscrição paga, para tirar partido de todas as funcionalidades. Embora ainda tenha um quartel-general em Oulu, na Finlândia, a Oura tem agora a sede em São Francisco, nos EUA.
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A empresa revelou, a 21 de maio, que submeteu de forma confidencial documentação à SEC, o regulador do mercado norte-americano, para dar início ao processo de oferta pública inicial. Não foi definida a quantidade de ações ou preço da oferta, ambos valores “que ainda não foram determinados”, disse a empresa em comunicado. Também não foi definida uma data, com a Oura a referir “que a operação irá decorrer depois de a SEC concluir o seu processo de análise, que está sujeito ao mercado e a outras condições”.
Em outubro, numa entrevista à CNBC, Tom Hale, CEO da Oura, sinalizou que a empresa queria “entrar em bolsa no momento certo”. E, há alguns meses, ainda havia “algum trabalho a fazer” antes de dar esse passo. “Estamos a escalar o negócio depressa. (…) Queremos focar-nos no que podemos fazer pelos clientes e não deixar que a distração de ser uma empresa cotada afete o que podemos fazer”, declarou.
A entrevista foi feita na altura em que a Oura anunciou que angariou 900 milhões de dólares numa série E de financiamento, o equivalente a cerca de 774 milhões de euros. O montante elevou a avaliação da fabricante de anéis inteligentes para 11 mil milhões de dólares (9,5 mil milhões de euros).
Tom Hale explicou que a Oura pretende vender “mais cinco milhões de anéis” em 2026 — uma meta ambiciosa, tendo em conta que a empresa demorou dez anos a chegar à marca de 5,5 milhões vendidos. Na mesma ocasião, Hale declarou que o dinheiro recebido permitiria “investir mais em funções de inteligência artificial e saúde”. Também falou sobre a ambição de expansão internacional, ao defender que a empresa “pode cobrir o mundo e colocar um anel no dedo de toda a gente”.