A primeira coisa que chama a atenção na sala é a bandeira da Ucrânia, pendurada numa parede. Estamos no centro de Taipei, nos escritórios da Kuma Academy, uma organização taiwanesa focada na promoção da defesa civil. Por todo o lado há pequenos souvenirs com o logotipo da Academia: um urso com uma espingarda nas mãos, em referência ao nome do grupo — “Kuma” significa urso em mandarim. Ao longo de outra parede estão penduradas faixas com mais ursos e várias frases em inglês que deixam promessas como “Vais ficar bem” e “Estou contigo”.
O Observador chega aqui como parte de uma delegação de jornalistas, convidados pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros de Taiwan, que escolheu incluir na viagem uma visita à Kuma Academy. O objetivo da organização é o de instalar uma “mentalidade de pré-guerra nos civis”, preparando-os com capacidades de autodefesa para uma possível situação de conflito militar. Para isso, a Kuma Academy ministra vários cursos, que vão desde orientações sobre como criar um kit de emergência até a exercícios de proteção civil, passando pelo ensino de cultivo de plantas para efeitos de sobrevivência.
Tsung-Yi Tang, responsável de relações públicas da organização, está em frente a um projetor com um PowerPoint para fazer uma apresentação do trabalho da Academia. Na mão, tem um torniquete: “Muita gente em Taiwan não sabe usar isto. O que aprendemos com os ucranianos é que isso tem de mudar”, sentencia. A frase “A Ucrânia hoje, Taiwan amanhã” popularizou-se na ilha na sequência da invasão de larga escala por parte da Rússia em 2022 e muitos taiwaneses comparam-se com os ucranianos. O medo é o de uma invasão por parte do vizinho maior, a China.

Mais de 100 mil pessoas já participaram nos cursos da Kuma e a organização tem como objetivo chegar aos três milhões de membros (a população nacional é de cerca de 23 milhões). Fu-Ming Chu, CEO do grupo, justifica a criação da Academia com a necessidade de consciencializar a sociedade do risco de conflito militar com a China: “Em Taiwan, quando as pessoas pensam em guerra, pensam em filmes. Precisamos de estar mais preparados”, diz. “Nós temos um ditado: a primeira guerra vai ser a última guerra.”
Num país com uma das leis de armas mais apertadas do mundo, onde muito poucas estão nas mãos de civis, há quem passe fins de semana em cursos de primeiros socorros da Kuma Academy. Procuram, acima de tudo, combater a sensação de falta de controlo perante uma ameaça que consideram real.
O princípio de “Uma Só China” que endureceu com Xi Jinping
A divisão entre China e Taiwan remonta a 1949, altura em que o Governo nacionalista chinês de Chiang Kai-shek fugiu da China continental depois de as forças revolucionárias de Mao Tsé-Tung terem vencido a guerra civil e fundado a República Popular da China (RPC). Kai-shek refugiou-se em Taiwan e declarou a ilha Formosa como capital da República da China, não reconhecendo o Governo maoísta. Decretou então lei marcial na ilha, que vigorou até ao final dos anos de 1980, e inaugurou um período de repressão de simpatizantes do regime comunista que ficou conhecido como “O Terror Branco”.


Mas, desde então, Taiwan democratizou-se. Formalmente nunca declarou independência da RPC, mas instalou um sistema político próprio, separado da China continental. Por todo o mundo, apenas 12 países reconhecem formalmente a ilha como um país independente, mas, na prática, a autonomia face à China é total. Esta continua a defender o seu princípio de “Uma Só China”, desejando absorver Taiwan e colocar a ilha sob a sua alçada. Para isso, exerce pressão militar, através de exercícios regulares no Estreito de Taiwan, que se tornaram mais regulares desde que Xi Jinping chegou ao poder. “Vamos apanhar-vos, mais cedo ou mais tarde”, prometeu o ano passado o porta-voz do Ministério da Defesa chinês. Se a promessa se traduzirá numa invasão militar ou não, ninguém sabe ao certo.
O Governo taiwanês atual, liderado pelo Partido Democrático Progressista (DPP na sigla em inglês), mantém uma posição crítica da RPC, como foi visível no encontro da delegação de jornalistas em que o Observador estava incluído com dois vice-ministros dos Negócios Estrangeiros. “No ano passado tivemos incursões de mais de cinco mil aviões chineses. Taiwan tornou-se, em termos geopolíticos, a primeira na linha da frente de defesa da estabilidade, para impedir que a China altere o statu quo”, disse François Chihchung Wu. Mais dados partilhados por outros responsáveis taiwaneses dão conta de que a China levará a cabo, em média, dez exercícios (navais ou aéreos) por dia no Estreito de Taiwan.
Taipei, garante o vice-ministro Wu, não sente necessidade de declarar formalmente a independência, preferindo que tudo se mantenha como está: “Temos um Ministério dos Negócios Estrangeiros, temos um Presidente eleito pelo povo… O Presidente Lai Ching-te tem mais legitimidade que o Presidente Xi Jinping, sabem porquê? Foi eleito por seis milhões de vozes. Xi Jinping só foi eleito por uma voz.” “Somos ‘Uma Nova Esperança’, como no Star Wars”, acrescenta o ministro com uma risada, referindo-se ao filme mais antigo da saga de George Lucas. Taiwan, resume, é “o último território no mundo que fala chinês onde ainda existe uma democracia que funciona bem.”
A influência de Pequim tem feito a maioria dos governos mundiais hesitar em reconhecer Taiwan como um país independente. E, segundo Taipei, a China continua a exercer pressão no palco mundial para isolar Taiwan, como denunciou recentemente o ministro da Saúde, a propósito da Assembleia Mundial de Saúde (das Nações Unidas) — Taiwan não é membro das Nações Unidas, porque a maioria dos países reconhece o princípio de “Uma Só China”. “Só há dois tipos de pessoas impedidos de entrar no edifício da ONU: um terrorista e um taiwanês”, diz acidamente o vice-ministro François Chihchung Wu.
Outro responsável oficial sublinha como a tensão entre a China e Taiwan tem subido de tom desde que Xi Jinping se tornou Presidente: “A China acabou com todas as comunicações oficiais”, ilustra Wen-Jia Luo, secretário-geral da Fundação para o Intercâmbio do Estreito, o órgão que funciona como canal oficial de comunicação com a República Popular da China. “E, informalmente, desde que Xi assumiu o cargo que a postura é ainda mais conservadora. Antes disso, alguns académicos estavam mais disponíveis para partilhar, por exemplo, mas agora são mais cautelosos. Ninguém quer ir contra Xi, nem sequer em privado. Ninguém se atreve.”
“Movimento Girassol”: uma geração anti-China que saltou de uma invasão ao Parlamento para a política mainstream
Brian Hioe nunca participou num dos cursos da Kuma Academy, mas conhece-os bem. Cada vez que tem um jantar de família, descobre que mais um primo se envolveu na organização. Mesmo sendo parte daquilo que considera ser uma família do Kuomintang (KMT), o partido taiwanês de Chang Kai-shek que, curiosamente, ocupa hoje no espectro político o lugar mais próximo da China continental. “A nossa geração tem posições muito diferentes dos nossos pais.”
Os avós deste jornalista e DJ emigraram para Taiwan depois da Guerra Civil. Os pais são os dois etnicamente chineses. “Muita gente tem as mesmas origens que eu. Muitos dos meus amigos são netos de generais do KMT”, explica. Quando o Observador se encontra com Brian, à margem do programa organizado pelo Ministério, o jovem de 35 anos está na Academia Sinica, uma das principais instituições de investigação académica do país, para participar numa conferência. Ao final do dia, porém, já tem destino: conta juntar-se à manifestação que está a decorrer naquele sábado, no centro de Taipei, para protestar contra os cortes ao orçamento da Defesa que o KMT quer aplicar.
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Não é a primeira vez que Brian se envolve no ativismo social que tem como alvo o KMT. “Em 2014, o Governo [liderado pelo KMT] tentou aprovar um acordo de livre comércio com a China que traria imensa influência do país sobre Taiwan. E grupos da sociedade civil começaram a protestar”, recorda. Uma geração mais nova saiu à rua para mostrar o descontentamento com uma política de aproximação à China continental, naquilo que ficaria conhecido como “Movimento Girassol” — um mês depois dos protestos da Euromaidan, onde os ucranianos se opunham a um tratado semelhante de aproximação à Rússia.


As manifestações em frente ao Parlamento repetiram-se ao longo de dias. Numa noite, Brian saiu para ir comprar jantar; quando voltou, deparou-se com uma invasão ao edifício em curso: “A invasão aconteceu por volta das 19h e eu cheguei lá às 23h. Saltei de imediato por cima das grades para me juntar. O resto é História.” Menos de 20 dias depois, o presidente da Assembleia declarou que a proposta de lei não seria votada até serem instituídos mecanismos de supervisão públicos. Os manifestantes venceram.
Brian não tem dúvidas de que, se fossem vivos, os seus avós não gostariam nada de saber que esteve envolvido nos protestos. “Nem os meus pais gostam. Dizem que eu ando metido com os miúdos problemáticos, porque veem nas notícias que nos metemos em confusões. O que é verdade”, declara, com um sorriso.
A diferença geracional sobre a relação que Taiwan deve manter com a China é clara. “A geração dos meus avós tem uma nostalgia pela China que lhes foi passada pelos pais. Ironicamente, agora é a minha geração que pode visitar a China. Mas o rumo político que a China tem tomado nas últimas décadas mudou as coisas”, resume. No fundo, mais do que uma identidade diferenciada da RPC, o que os jovens taiwaneses sentem é uma repulsa por um sistema não-democrático como o chinês. “Mas culturalmente também nos tornámos diferentes”, acrescenta. “Por exemplo, os chineses casam muito cedo, em Taiwan os jovens casam muito mais tarde.”

Os dados sustentam este fosso geracional. De acordo com um estudo do Pew Research Center de 2023, 83% dos taiwaneses com menos de 35 anos identificam-se apenas como taiwaneses. Já entre os mais velhos, 46% dos que têm mais de 35 anos dizem sentir-se ligados à China.
O “Movimento Girassol” deu origem a uma nova geração que entrou na política (sobretudo para o DPP, mas também em partidos novos) e trouxe consigo esta atitude diferente em relação à China continental. Lai Pin-yu, conhecida por fazer campanha em cosplay, tornou-se deputada; Lin Fei-fan, que fez discursos improvisados à multidão dentro do Parlamento ocupado, tornou-se vice-secretário-geral do DPP; Freddy Lim, conhecido cantor de heavy metal, é hoje embaixador na Finlândia.
“É estranho”, confessa Brian Hioe. “Temos pessoas que entraram à força no Parlamento e que dois anos depois estavam a ser eleitos.” Em tempos, “andávamos a ler filosofia política, agora vamos a conferências falar de drones, acordos de comércio e semicondutores”. “São os tempos em que vivemos”, remata.
Atualmente, o Presidente, que nomeia o primeiro-ministro, é do DPP (que venceu as últimas três eleições presidenciais), mas o KMT tem maioria no Parlamento. O Kuomintang mantém também um domínio a nível autárquico, tendo conquistado nas últimas eleições 13 das 22 câmaras mais importantes do país. Se os jovens têm tendência a apoiar mais o DPP, o KMT continua ainda a ser um partido relevante na cena política e com uma palavra a dizer na relação que Taiwan mantém com a China.
Daí que tenha sido particularmente relevante a visita da líder do partido, Cheng Li-wun, a Pequim, no final do mês de maio — a primeira visita de um responsável do KMT ao país em dez anos —, onde Li-wun se encontrou com Xi Jinping. Atualmente, a líder do Kuomintang está numa visita aos Estados Unidos, onde espera poder vir a encontrar-se com Donald Trump, embora não esteja nenhuma reunião agendada.

Brian Hioe considera que a linha mais pró-China de Li-wun não é maioritária no país e que, se quiser voltar a conquistar a presidência, o KMT terá de optar por candidatos mais moderados, como o presidente da Câmara de Taipei, Chiang Wan-an. Mas o jornalista sublinha que a líder do partido é “muito astuta” e “uma política muito boa”. “O que é certo é que a China prefere sempre que o candidato seja da linha mais dura, mesmo que tenha menos hipóteses de ganhar.”
Mas pintar o retrato da sociedade taiwanesa como sendo toda a favor da independência, assumindo que não há quem apoie a estratégia da líder do KMT, é um erro. Basta ouvir testemunhos como o do reformado Harry Chen, que o The Guardian encontrou nas ruas de Taipei em 2022: “Aquilo que as pessoas normais querem é uma boa vida, paz e felicidade”, declarou. “As pessoas que querem independência… Isso é uma tanga. Estão a mentir a eles próprios.”
Desinformação, drones e semicondutores. Como a tecnologia está a mudar a relação entre Taiwan e a China
Pequim deseja que mais pessoas tenham a opinião de Chen. E, por isso, não tem poupado esforços em tentar influenciar a sociedade taiwanesa. Um dos meios que tem utilizado é a desinformação: de acordo com a Universidade de Gotemburgo, Taiwan é o maior alvo de desinformação entre todos os países democráticos do mundo. A isso juntam-se os ciberataques: 2,8 milhões por dia.
Os exemplos sucedem-se nas redes sociais. Veja-se o caso de um vídeo difundido em 2024 que dava conta de que um deputado do DPP mantinha um caso amoroso com uma chinesa — não era verdade, mas o homem que dava voz ao vídeo falava com um sotaque taiwanês perfeito, o que levou muitos a acreditarem.
No mesmo ano, o youtuber Ba Jiong, denunciou o que diz ser uma campanha de conluio entre as autoridades chinesas e influencers taiwaneses para promover conteúdos favoráveis a Pequim. Numa reportagem recente do Le Monde à cidade chinesa de Hangzhou, o jornalista conheceu dois estudantes taiwaneses que estavam de visita. Todas as despesas da viagem foram pagas pelo Governo chinês, com o pedido de que partilhassem com os seus seguidores as suas impressões da viagem. No encontro com a delegação de jornalistas de que o Observador fez parte, o secretário-geral da Fundação para o Intercâmbio do Estreito, Wen-Jia Luo, acusou diretamente a China de estar a levar a cabo uma “guerra cognitiva, através da desinformação e dos seus próprios media”.
Taiwan acusa a China de pagar diretamente a estes influencers, mas não há provas disso. Outros pagamentos, porém, resultaram em penas judiciais: pelo menos vários soldados e um coronel na reserva foram condenados por passarem informações confidenciais à China em troca de pagamentos. Para combater a espionagem, várias bases militares em Taiwan já têm afixados posters com uma linha telefónica para denúncias, de acordo com o Japan Times.
O Exército é um organismo vulnerável a fenómenos do género, num país onde 75% dos taiwaneses têm salários em média mais altos do que os soldados. Mas uma das principais fragilidades na área da Defesa prende-se com a falta de militares, com o número a descer ao longo dos últimos anos. E, sobretudo, com a dependência dos Estados Unidos para obter armamento.

Daí que a proposta de lei para o novo orçamento da Defesa se tenha tornado um tema central da discussão nacional ao longo das últimas semanas, depois de o KMT ter proposto um corte — o que levou a uma série de protestos como aquele em que o jornalista Brian Hioe participou no dia em que se encontrou com o Observador. No final, os deputados chegaram a acordo para cortar o orçamento, mas num valor mais baixo do que o Kuomintang desejava.
Durante as discussões parlamentares, o DPP apresentou também uma proposta para criar um fundo estatal que financie a indústria de drones nacional. O Governo quer um investimento nesta indústria, inspirado pelo sucesso ucraniano na área.
Mas, no terreno, esse investimento público ainda não se sente, como revelou aos jornalistas da delegação Allan Chi, porta-voz da fabricante de drones Thunder Tiger, durante uma visita às instalações da empresa: “Esperamos que o Governo taiwanês se foque nesta indústria, mas é muito difícil para nós sobreviver e, por isso, temos de olhar para outros mercados.” Em concreto, o mercado norte-americano, principal consumidor dos produtos de Thunder Tiger — como o Papa Delta, um drone semelhante aos Shahed iranianos, que custa entre dois mil a três mil dólares cada um. “Qual o seu raio de alcance?”, perguntamos. “Pode chegar pelo menos a Xangai”, diz Chi, sorrindo.

A empresa — que nasceu como uma fabricante de brinquedos, mas mudou para outra área de negócio que considera mais lucrativa — vende pouco para o mercado taiwanês, mas alimenta esperanças de que tal venha a mudar no futuro. Para isso, e também para agradar aos norte-americanos, está a tentar criar uma cadeia de abastecimento a que chama “não-vermelha”, por não incluir qualquer componente fabricado na China. Por enquanto, a Thunder Tiger ainda importa 5% de material vindo da China, devido à dependência das terras raras chinesas. “Mas como Taiwan se está a preparar para uma invasão chinesa, estamos focados em componentes não-chineses. Só para o caso”, explica Chi.
A China ainda representa cerca de 80% do mercado de drones mundiais e Taiwan é neste momento um player pequeno nesta área. “O Exército não sabe usar drones”, resumiu ao Le Figaro em abril Tai Chih-yen, diretor-adjunto do Instituto de Pesquisa Económica Chung Hua.
Mas apesar do atraso na indústria de drones, há muitas outras áreas tecnológicas onde Taiwan prospera — mais de três quartos das suas exportações estão relacionadas com tecnologia. A grande rainha é a indústria de semicondutores, essenciais no mundo contemporâneo. A Taiwan Semiconductor Manufacturing Co. (TSMC) controla quase 90% do mercado de chips em todo o mundo, vendendo a empresas como a Apple e a Nvidia. Uma vantagem não só competitiva, mas também de defesa contra uma possível invasão chinesa, já que esta mergulharia o mundo num caos económico. Não por acaso, há quem chame à indústria o “escudo de silício” [matéria-prima usada no fabrico de semicondutores] de Taiwan.
“Se Taiwan passar a ser controlada pela República Popular da China, isto afetará seriamente as cadeias de abastecimento das democracias”, sentenciou Wen-Jia Luo, secretário-geral da Fundação para o Intercâmbio do Estreito, no nosso encontro. “Os EUA estão 15 anos atrás de nós.”
Sabendo disso, o Presidente norte-americano tem feito declarações como a de que “Taiwan roubou a nossa indústria de chips”. A Donald Trump não agrada a dependência de várias tecnológicas americanas de uma só empresa taiwanesa. Outros membros da administração, como o secretário do Tesouro Scott Bessent, têm noção do risco que tal significa: “Se a ilha fosse bloqueada, essa capacidade [de produzir semicondutores] seria destruída, seria um apocalipse económico”, disse.

Talvez não por acaso, em 2025 a TSMC anunciou um investimento de 100 mil milhões de dólares nos Estados Unidos, através da construção de mais cinco fábricas no país. Na cerimónia que reuniu os representantes da empresa com Trump, o Presidente dos EUA voltou a defender a independência norte-americana de Taiwan nesta área, dizendo que é uma questão de “segurança nacional”.
A relação de Trump com Taiwan: “Para ele, somos uma peça de xadrez”
Enquanto os Estados Unidos continuam altamente dependentes da indústria de semicondutores de Taiwan, os taiwaneses lidam com outra dependência extrema dos Estados Unidos: o armamento.
A cimeira entre Donald Trump e Xi Jinping deixou os líderes taiwaneses ansiosos, já que o Presidente norte-americano admitiu que conversou com o homólogo chinês sobre o acordo de venda de armamento a Taiwan no valor de 14 mil milhões de dólares (cerca de 12 mil milhões de euros) que foi aprovado pelo Congresso.

Ninguém sabe o que foi dito na reunião, mas, desde então, Trump tem mantido o mundo em suspenso sobre se vai ou não assinar o acordo — chamou-lhe “uma carta na manga muito boa” para negociar com a China. Desde então, o secretário da Marinha norte-americana Hung Cao declarou que o acordo está a ser adiado porque os EUA precisam de garantir que têm armamento suficiente para a guerra no Irão.
Formalmente, os responsáveis taiwaneses tentam afastar qualquer imagem de nervosismo. “Temos uma ótima comunicação com o Departamento de Guerra e o Departamento de Estado norte-americanos”, disse o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros Chen Ming-Chi no encontro com a delegação de jornalistas. “Queremos que os EUA avancem com a entrega [das armas], mas não nos vamos preocupar demasiado.” Wen-Jia Luo, da Fundação para o Intercâmbio do Estreito, é menos amistoso: “Esperamos sinceramente que os EUA mantenham o statu quo”, partilha com os jornalistas. “As grandes potências têm tendência a ver os países pequenos como moedas de troca, a realidade é essa. Mas não estamos estagnados, não estamos sem vida, não somos uma moeda de troca.”
Em Taiwan, ninguém sabe ao certo o que esperar de Donald Trump. O jornalista Brian Hioe tem agora medo de acordar sábado de manhã e perceber que tem de ir trabalhar porque Donald Trump disse alguma coisa bombástica durante a noite. “Ele quer negociar com Xi Jinping, não quer saber de nós”, lamenta. “Para ele, somos uma peça de xadrez.”
Uma sondagem de abril, ainda antes da cimeira entre Trump e Xi, dava conta de que a maioria dos taiwaneses (57%) já não mantém a fé de que os Estados Unidos alguma vez venham em seu auxílio no caso de uma invasão chinesa. Mas, apesar desse receio, a verdade é que os números mostram que grande parte da sociedade considera improvável que um ataque militar possa ocorrer nos próximos cinco anos.
Pelo sim pelo não, muitos vão-se precavendo, como os primos de Brian que se inscrevem nos cursos da Kuma Academy para aprender a fazer torniquetes. A ameaça da China não é um sprint, mas antes uma maratona.
O Observador viajou para Taiwan a convite do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Taiwan
*Artigo atualizado para alterar a definição “escudo de silicone” para “escudo de silício”