(c) 2023 am|dev

(A) :: Ão é nome de banda: música inquieta, promessa confirmada

Ão é nome de banda: música inquieta, promessa confirmada

Entre o gelo da eletrónica ambiental e a quentura do semba, o afro-fado e o folclore sul-americano, as cores da pop, os ritmos magrebinos e o arranhar da tristeza a que chamam de "saudade": eis os Ão.

Filipa Vaz Teixeira
text

Lisboa acordara com as poeiras do norte de África e com um calor desértico a desafiar as cerejas de maio. Brenda Corijn, Siebe Chau, Jolan Decaestecker e Bert Peyffers, apesar de mais habituados à chuva belga do que ao sol lisboeta, não se deixaram murchar pelo abafo. Numa pequena sala luminosa do Jam Hotel, em Santos, montaram um cenário com guitarras, percussões, sintetizadores e um bloco de pedais — que eles nos juravam ser muito menor do que o que costumam carregar consigo — e fizeram daquele lugar intimista a sua versão Tiny Desk de Malandra, álbum lançado em fevereiro, no pico do inverno.

O showcase serviu de teaser para os concertos de 18 e 19 de dezembro, em Lisboa e no Porto, e mostrou do que este grupo de músicos dotados, leves e sem deslumbramentos de vedeta, é capaz. Na curta plateia reservada a convidados, ouviu-se “quando a música é boa, não há dúvidas”. E com razão. Entre o gelo da eletrónica ambiental e a quentura do semba, o afro-fado e o folclore sul-americano, todas as cores da pop, dos ritmos magrebinos e o arranhar da tristeza a que chamam de “saudade”, eis os Ão, uma das grandes promessas da irrequieta e multifacetada cena musical belga.

https://open.spotify.com/intl-pt/album/5azfYN3PqeXTNfC00wvKs1?si=LJwqpk07RMquenfYfC3VdQ

“Quanto mais tocamos, mais livres nos tornamos”

Saudade, palavra que nos é cara, também o é para Brenda, descendente de mãe moçambicana e com raízes em Portugal, que cresceu numa casa habitada de sons luso-africanos, hispânicos e brasileiros. “Se não havia música em casa, alguma coisa estava errada”, diz sobre uma infância a cantar “Bom xibom, xibom, bombom” (As Meninas), antes de voltar à saudade: “Ela faz parte da nossa música. É um sentimento muito triste, mas também é bom. Sentir a falta de alguém, o desejo por algo ou alguém é uma coisa quente. A nossa música é uma mistura entre a melancolia e a sensualidade e essa fricção sente-se em todas as canções”, explica a vocalista dos Ão.

Quanto ao nome, agrada-lhes que seja um som e não uma palavra concreta, algo que não só se ajusta à anatomia de “saudade” como à própria fluidez de géneros a que se entrega a banda. “O que gostamos em ‘Ão’ é que não tenha um significado em si. Mesmo que muitas pessoas o escrevam de forma errada e o pronunciem mal, estamos muito felizes com o nome”.

https://www.youtube.com/watch?v=0OLmn5evjTM

Não ter um significado deixa em aberto vários caminhos para os Ão, que, antes de Malandra, já se tinham apresentado com Ao Mar (2023). Tanto são programados em encontros de jazz ou de músicas do mundo como em clubes de dança, salas clássicas ou em grandes festivais da cultura pop — em julho vão atuar no festival Dour, um dos mais emblemáticos da Bélgica, no mesmo dia que os portugueses Buraka Som Sistema. Em cada atuação, adaptam o contexto ao seu corpo maleável, sensual, mas também profundo e, por vezes, sombrio.

“No Ao Mar éramos mais tímidos e tocávamos com muito cuidado. Tudo tinha que ser perfeito. Com o Malandra, sentimos que podíamos ir mais a fundo, ser mais honestos e exigir mais uns dos outros. Agora permitimo-nos ser mais selvagens e soltos. Quanto mais tocamos e a cada nova música que compomos, mais livres nos tornamos”, refere Brenda. Essa liberdade de movimentos e os contrastes que abraçam é onde reside a beleza da sua música. A “beleza de não encaixar”, como os próprios assumem.

A hipersensibilidade e o erro, como poesia da música

Em Malandra, tão depressa estamos no universo de Stromae ou Branko, palpável em “Talvez”, faixa na qual o charango impõe o tom e o ritmo, como entramos numa neblina cerrada em Cinza e nos recordamos de como Justin Adams e John Baggott deram um novo significado ao fado de Lina_ e à sua belíssima Senhora Minha. Não raras vezes, a tensão acontece dentro da mesma canção. Veja-se Sorte, com mudanças de tonalidade de menor para maior, conforme a sorte vira ou não; Volta, um lamento com bandoneón e alma fadista que não percebemos se é de despedida ou de reencontro; ou Orgulho, aquela onde a admiração por Slow J é mais evidente e em que Brenda canta uma mesa pronta, com a comida a fumegar e família, amizades, todos juntos a contar histórias do passado, ao mesmo tempo que Jolan Decaestecker põe o dedo da morte, frio e distante, a soprar dos sintetizadores.

“Para mim, que venho de um campo mais experimental e ambiental eletrónico, o elemento do perigo é muito importante. O perigo faz-te contar a tua verdadeira história a partir do som”, diz o músico que olha para si como um Nazgul, os cavaleiros negros do Senhor dos Anéis. “Gosto de desenhar o som Nazgul”, brinca. Já Siebe Chau, guitarrista e amigo de Brenda desde os tempos em que estudavam no Conservatório, tem a América do Sul na ponta dos dedos, dos Andes ao Brasil, e um cheirinho a morna de Cabo Verde, a Angola 72 e ao oud palestiniano de uns Le Trio Joubran. Bert Peyffers, que caiu nos Ão de improviso, quando o então trio precisou de um percussionista para uma pequena digressão de 10 concertos, é quem traz a cultura Gnawa para a banda. Na bateria é tão livre e virtuoso quanto Hamid Drake, tão irreverente e colado à raiz como Rodrigo Cuevas, de quem se confessa fã.

E depois há a voz de Brenda, límpida e quente, porém com textura e lágrima. Em torno dela gravitam os arranjos, trazendo-lhe ora um musgo fofo onde pousar, ora um relâmpago para acordar. “Somos todos muito sensíveis e isso liga-nos uns aos outros”. Enquanto os músicos brincam com as dinâmicas e com os elementos, uma brincadeira que ao vivo se expande para lá da pauta, Brenda reage sem medo de rugir e latir quando as canções lhe pedem para ser animal ou de sussurrar nos momentos em que precisa de se dissolver como uma semente dente-de-leão. Tudo isto feito em português, a sua língua emocional, com exceção de “Aren’t You Tired”, onde, na ausência de respostas, dançar é salvação, tal como o é em Sirât.

https://www.youtube.com/watch?v=YcGUsunsjgE

“Na maior parte das vezes, escondo o meu lado vulnerável e então sinto-me mais segura a falar em português, uma língua que a maior parte das pessoas [na Bélgica e na Europa] não percebe. Isso dá-me liberdade para ser brutalmente honesta. Enquanto o inglês e o flamengo são, para mim, línguas racionais, o português é muito intuitivo. Quando a palavra vem, é uma coisa muito aberta. Muitas vezes penso, ‘será que estou a inventar palavras ou isto existe mesmo?’, mas isso não me impede de usar as palavras como eu as quero usar. Essa liberdade de escrever permite-me cometer erros e os erros fazem parte da poesia da música”.

Nos concertos de dia 18 de dezembro, na Casa do Capitão, e de dia 19, na Casa da Música, Brenda estará menos vulnerável do que é costume. “É assustador, porque o público vai entender tudo o que eu digo. Vou-me sentir nua!”, diz de sorriso cheio e olhos brincalhões, como é a sua forma natural de comunicar. Por outro lado, reflete Jolan, será especial, “porque as pessoas vão poder mergulhar a sério no conteúdo das letras”. Não há outra forma de encarar o universo dos Ão. Assim que pomos um pezinho em Malandra, já estamos a mergulhar — e que bom é simplesmente deixarmo-nos levar pela luz e pela escuridão, até às profundezas de nós mesmos.