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Buscas no PS: o assessor fanático sportinguista de Carneiro e o autarca que tratava a freguesia como "um feudo"

Um assessor histórico do PS de António Costa recuperado por Carneiro. Um autarca que dominou Lisboa por décadas. Quem são os dois homens que as buscas desta quarta-feira colocam na mesma investigação.

Rita Tavares
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Duarte Moral e Miguel Coelho são dois veteranos da máquina socialista, ainda que tenham seguido por caminhos muito diferentes. Estão agora os dois no centro da Operação Imergente, que esta quinta-feira levou a buscas na sede nacional do PS e também em autarquias do partido. Um, ex‑jornalista, sportinguista fanático e assessor histórico de António Costa, recuperado recentemente por José Luís Carneiro para o núcleo duro do Largo do Rato. Outro, autarca de longa data e “senhor do feudo” de Santa Maria Maior, histórico do PS‑Lisboa que foi durante anos um dos homens‑fortes da concelhia da capital e também um elemento importante no apoio a Carneiro no PS.

No caso de Duarte Moral, o foco está nos contratos por ajuste direto ao assessor político, que tem décadas de ligação ao PS (na órbita do qual trabalhou grande parte da sua vida) e, por isso mesmo, contactos e conhecimento profundos na estrutura do partido. No de Miguel Coelho, a investigação centra-se na forma como exerceu poder autárquico em Santa Maria Maior e sobre decisões de contratação tomadas nesse cargo. Pelo meio, José Luís Carneiro, o líder socialista que escolheu Moral para o seu gabinete, viu Coelho ser um dos seus principais apoiantes internos e é agora obrigado a gerir politicamente o impacto de uma investigação que atinge em cheio o partido — ainda que tente blindar o PS. Quem são os dois socialistas em maior destaque neste novo abalo judicial para o PS.

Duarte Moral. Sportinguista, jornalista e assessor histórico de Costa. E agora de Carneiro

“É isto a que chamam triplete, não é?”. Em maio de 2013, o Benfica vivia semanas traumáticas, perdeu três competições de seguida: uma final da Liga Europa, outra da Taça de Portugal e ainda o Campeonato. Duarte Moral provocava os benfiquistas nas suas redes sociais, era prática habitual. É descrito como um “fanático sportinguista” e é seguramente a “virtude” – como o próprio gosta de chamar à sua devoção clubística – que mais se destaca no socialista e assessor de José Luís Carneiro que está a ser investigado pela Justiça. A par com a capacidade de leitura política e uma marcada capacidade de provocar.

A sua vida foi passada entre o Largo do Rato, gabinetes do poder e também redações de jornais — o do Sporting incluído, quando a dada altura se distanciou de António Costa, o político de quem foi mais próximo e durante muitos anos. Duarte Moral até começou pelo Direito, licenciou-se na Universidade de Lisboa, mas nem testou essa arte já que saiu da faculdade para a redação do jornal Público. A sua primeira profissão foi jornalista e foi sempre aí que regressou nos intervalos da assessoria que a dada altura começou a fazer.

No jornal acompanhava a política nacional. É recordado como “um jornalista talentoso” e “inteligente”, pelos colegas com quem se cruzou nas redações, mas também como demasiado próximo do PS, o que se notava quando cobria a área da política nacional — há quem diga que não tem outra forma de estar na vida, seja quanto a partidos, seja no clube do coração. Não conseguia disfarçar preferências e terá sido isso que Jorge Sampaio detetou nos textos do jornalista do Público quando se queixou, num jantar de Natal do PS, de vários jornalistas, criticando concretamente a cobertura de Moral da tensa disputa da liderança entre ele mesmo e António Guterres.

Certo é que quando Guterres conquista a liderança do PS, Duarte Moral integrou o seu gabinete no Largo do Rato. Mas acabou por ser com o sampaísta António Costa (as duas alas reconciliaram-se entretanto e estes dois já se tinham cruzado nos corredores da faculdade de Direito) que trabalhou mais anos, quando o PS chega ao poder e Costa ao Ministério da Justiça. Duarte Moral foi adjunto nesse tempo e voltou a ser, mais tarde, quando Costa é ministro da Administração Interna, já na era de José Sócrates. E dali seguiu com ele para a Câmara Municipal de Lisboa, quando o socialista venceu as eleições autárquicas intercalares em 2007.

Nos intervalos desta assessoria que foi fazendo sempre junto de Costa, Moral foi estando em redações de jornais. Esteve no já extinto A Capital, como diretor adjunto, e foi lá que conheceu a sua mulher Rute Reimão, que era gráfica do jornal e que está também implicada na investigação judicial que está em curso. Esteve no Diário de Notícias, onde editou a secção de Desporto, depois da queda de Guterres. E também chegou a trabalhar no jornal do seu clube, como editor executivo, numa altura conturbada da sua relação com António Costa.

Já levavam muitos anos de trabalho em conjunto e também de uma relação pessoal que corria em paralelo. Nem sempre os planos se separavam facilmente e a relação hierárquica tornava-se complicada de gerir. Quem conhece ambos descreve dois “feitios difíceis”, muitas vezes altivos e impacientes. No segundo mandato de Costa em Lisboa (por volta de 2011) zangaram-se, mas poucos perceberam o motivo concreto. Houve um afastamento e é precisamente nessa altura que Moral sai da Câmara e vai trabalhar no jornal do Sporting. O presidente do clube era Godinho Lopes, mas o socialista terá entrado por influência de outro camarada de partido, o então membro da direção do clube e também presidente do PS-Lisboa, Rui Paulo Figueiredo. Saiu em maio de 2013, agradecendo precisamente “com sentida amizade, às pessoas” que lhe “permitiram ter vivido estes momentos: ao Rui Paulo Figueiredo, ao Pedro Sousa, ao eng. Godinho Lopes.”

Um ano depois desta despedida no Sporting, voltava ao PS, novamente ao lado de António Costa. Apesar do afastamento, o então recém-eleito líder contou com Duarte Moral na sua equipa no Largo do Rato. “Era muito bom de escrita, nos discursos, na pesquisa e a trabalhar a estratégia”, diz um socialista ao Observador sobre as mais-valias de Moral num gabinete político. Tendo em conta o passado com Costa, muitos, no PS, viram naquela reaproximação um sinal de que para onde o líder do PS fosse, depois das eleições de 2015, Moral seguiria com ele. Mas não foi assim.

A rutura dá-se de forma mais visível para todos quando Costa consegue negociar uma “geringonça” e chegar a São Bento e deixa o seu assessor de sempre para trás. Duarte Moral não integra o gabinete do primeiro-ministro e acaba por ficar na sede nacional do partido, a trabalhar com a secretária-geral adjunta Ana Catarina Mendes, na gestão das redes sociais e do site do PS. É desta fase um episódio que embaraçou o PS no então Twitter. Na conta oficial do partido surge uma publicação a considerar “assustador” um comentário do presidente do Sporting nessa altura, Bruno de Carvalho. A frase “assustadora” tinha sido dita pelo dirigente desportivo numa conferência de imprensa: “Eu não sou daqueles que dorme com um olho aberto. Eu quando durmo tenho os três olhos fechados.” A publicação do PS foi retirada com um pedido de desculpas ao Sporting e a suspeita do deslize recaiu sobre o gestor das redes, o feroz sportinguista Duarte Moral.

Mais tarde, o socialista acaba por sair do PS mas mantém ligação com os socialistas, em vários trabalhos de comunicação. Por exemplo, em 2019 começa a ser assistente externo da eurodeputada Isabel Santos (trabalhava a partir de Lisboa para Bruxelas) e em 2021, durante as autárquicas, ajudou na campanha da candidatura de Hugo Pires (muito próximo de Ana Catarina Mendes) a Braga.

É nesse período que chega outro convite. João Paulo Fafe assume a presidência executiva do grupo de comunicação Global Media, que detinha o Diário de Notícias, o Jornal de Notícias, o Jogo e a TSF. Mas também o Açoriano Oriental, diário sediado em Ponta Delgada, para cujo conselho de administração Fafe convida Duarte Moral. O grupo entra num processo de despedimentos em 2024 e o CEO é chamado ao Parlamento, onde acaba por abordar a contratação de Moral depois de ser questionado por uma deputada da Iniciativa Liberal sobre as funções do socialista, antigo assessor de António Costa – numa altura suspeitava-se que a recomposição acionista da Global Media obedecia também a uma lógica de influência política e a audição parlamentar também tinha essa agenda.

“É um pecado ser ex-assessor de António Costa. Pelo amor de Deus, do Dr. António Costa!”, exclamou Fafe na resposta. “O Duarte Moral é uma pessoa que respeito muito, que conheço há uns 30 anos: grande jornalista, pessoa extraordinária, uma pessoa de princípios notáveis”. O então CEO do grupo explicou que o tinha convidado para ser vice-presidente do Conselho de Administração da Açor Media, do Açoriano Oriental “por duas razões: porque é um homem muito sério, de princípios, que conhece muito bem o que é um jornal e o que é o negócio da comunicação, e também porque é uma pessoa que até pensei que era açoriano, tal a forma como sempre se refere aos Açores. Quando percebi que ele não era açoriano, não quis acreditar. E é uma pessoa que me dá garantias para o Açoriano Oriental, que foi esquecido, ostracizado durante anos”.

Moral é apaixonado pelos Açores há vários anos, mas não era, de facto, açoriano. A relação durou pouco e acabou por ir na leva de despedimentos do grupo. Foi nessa altura que vários socialistas e amigos do assessor de José Luís Carneiro relatam ao Observador que sabem que Moral, que estava desempregado, tiveram conhecimento de que Moral estaria a passar por dificuldades financeiras. Entretanto o PS reconfigura-se, depois da hecatombe da Influencer, em 2023, e das eleições de 2025. José Luís Carneiro chega a líder do PS e, de acordo com fontes do partido, recupera Duarte Moral.

Não tinham uma relação próxima e, de acordo com várias fontes ouvidas pelo Observador, o nome do assessor foi uma recomendação que chegou ao líder. Duarte Moral voltou, assim, ao Largo do Rato, trabalhando diretamente com o atual secretário-geral do partido no último ano que usou a seu favor experiência acumulada do assessor, que trabalhou com outros líderes no passado e conhece bem as lógicas do partido. Duarte Moral acompanhava muitas vezes Carneiro em deslocações e conferências na sede nacional do partido e era, até ao momento, um dos elementos com mais influência no seu gabinete no delinear da estratégia socialista.

Esta quinta-feira, quando foram noticiadas as buscas à sede do partido, o PS não deixou passar muitas horas até emitir um comunicado a sublinhar que se tratava de “diligências relacionadas com atividades que são imputadas a um dos seus trabalhadores“. Carneiro fez declarações ao início da tarde onde continuava a tentar conter as ondas de choque, isolando em Moral o problema. Mas este não foi o único socialista com influência no partido a ser visado.

Miguel Coelho. O “senhor do feudo” que dominou o PS-Lisboa

Miguel Coelho é um histórico do PS em Lisboa. O peso do socialista é de tal forma relevante que chegou a enfrentar presidentes de Câmara da sua própria cor política para afirmar o seu poder em Santa Maria Maior, Junta que liderou entre 2013 e 2025. “Tratava a freguesia como um feudo”, comenta um socialista ao Observador, lembrando as guerras com Fernando Medina, por exemplo a propósito das obras no Martim Moniz, uma das suas principais zonas de influência. Ou com o seu proselitismo contra o excesso de turistas — entendido de forma muito direta pelos seus eleitores, espalhados entre Alfama, Mouraria e Baixa — em choque com a lógica pró‑turismo que marcava a governação de Medina em Lisboa e muito vocal na pressão para a regulamentação desta atividade.

“É muito duro, muito senhor do seu nariz” e combativo mesmo dentro do seu partido, mantendo relações tensas com freguesias vizinhas também socialistas. E não foi um osso fácil de roer na relação com os vários secretários‑gerais do PS, ao longo dos muitos anos em que liderou a concelhia de Lisboa. Um socialista lembra mesmo ao Observador como Coelho se opôs à escolha das candidaturas de João Soares e de Manuel Maria Carrilho para a Câmara de Lisboa. Nem sempre conseguiu levar a sua avante, mas foi sempre tentando.

Mais recentemente, numa atitude que foi muito mal recebida pelo então líder do PS, chegou a atirar Pedro Nuno Santos como um bom candidato à Câmara de Lisboa. Caiu mal porque a entrevista onde Miguel Coelho o diz foi dada em agosto de 2024 ao Diário de Notícias, e nessa altura Pedro Nuno já era o líder do PS, posicionando-se para ser, um dia, primeiro-ministro. A entrevista desqualificava essa ambição.

“Sem nenhum tipo de ironia, nem jogo escondido, acho que o secretário-geral do PS, se se candidatar, provavelmente vence estas eleições [autárquicas de 2025 em Lisboa]”. Logo de seguida, o socialista cravava mais fundo e acrescentava que também achava que “há um nome que tem de ser obrigatoriamente testado, que é o José Luís Carneiro. Não só pelo seu perfil como pela capacidade congregadora. Não sei se está disponível ou não, mas deveria ser testado. O secretário-geral não deve ser testado. Se quiser ser o candidato, é ele. Ponto final, parágrafo.”

Nas eleições diretas do PS logo em 2023, Coelho estivera na frente de ataque contra Pedro Nuno, ao lado de José Luís Carneiro, na disputa no pós‑Costa. Foi mesmo diretor de campanha do atual secretário‑geral, em Lisboa, nessas eleições e deu luta interna, enfrentando o alinhamento maioritário do distrito com a candidatura de Pedro Nuno, sobretudo perante a influência de Duarte Cordeiro, que continuava a pesar na distrital de Lisboa. No final acabou 70% para o lado de Pedro Nuno Santos e 30% para Miguel Coelho, mais ou menos o que Carneiro conseguiu no total país socialista.

É um militante antigo do PS, desde 1976. As primeiras funções que teve no partido foi no grupo de António Guterres, quando este era o responsável pela organização do partido. Foi dirigente nacional e presidente da concelhia de Lisboa durante 14 anos, uma das mais longas lideranças nessa estrutura. Saiu de presidente da Junta de Freguesia porque chegou ao limite de mandatos, mas não deixou de figurar nos órgãos de topo da máquina socialista: é atualmente membro da Comissão Política Nacional do PS. Era também, até esta quinta-feira, deputado municipal — nesta altura é uma frente importante no partido em Lisboa, já que conseguiu a liderança da Assembleia Municipal quando a Câmara é liderada pelo PSD.

Tem-se destacado sobretudo na área da habitação, envolvendo-se em iniciativas legislativas sobre leis das rendas, despejos, combate ao chamado “bullying imobiliário” , sobretudo na zona da Baixa, e teve também um papel relevante na Lei de Bases da Habitação, enquanto deputado na Assembleia da República — foi deputado entre 1995 e 2019, sempre eleito pelo círculo de Lisboa.

Nas últimas autárquicas já não era candidato à Junta de Freguesia, mas esses tempos e o seu discurso em defesa dos imigrantes nos últimos anos — e muito crítico das investidas do Governo de Luís Montenegro sobre este grupo — ainda lhe valeram um episódio no dia das eleições. Foi agredido por alguém que o acusou de ser “amigo dos monhés”. Denunciou-o de imediato nas redes sociais: “Acabei de ser agredido por um indivíduo que me chamou ‘amigo dos monhés’ e atirou-me ao chão com uma ‘pazada’ na cara. Gritou ‘Vota Chega'”.

Mais do que qualquer afinidade pessoal explícita, Miguel Coelho e Duarte Moral movem-se no mesmo território político e segundo a investigação da Operação Imergente, uma das linhas do inquérito é precisamente a contratação por ajuste direto de Rute Reimão, mulher de Duarte Moral, pela Junta de Santa Maria Maior entre 2020 e 2022, num total de cerca de 70 mil euros através da sua empresa unipessoal Cidade Etérea. Foi a Junta liderada por Miguel Coelho que aprovou esses contratos, colocando o autarca e o assessor (e respetiva mulher) no mesmo tabuleiro: ele, como presidente que decide contratações; eles, como beneficiários dos ajustes diretos que agora estão sob investigação.