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Planeta Terra: Habitats Executivos

A Natureza já entrou nos terminais Bloomberg, sem ticker novo, de modo discreto entre os indicadores de pânico vindos de Ormuz.

Nuno Gaspar de Oliveira
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Se David Attenborough ainda tivesse câmara e fôlego para uma última temporada, suspeito que se interessaria menos pelos felinos do Serengeti e mais por uma espécie urbana até há pouco invisível nos episódios de domingo-antes-do-almoço.

Planet Earth: Boardrooms, episódio piloto, a fauna executiva diante da Natureza. A premissa do programa é simples: uma boa parte do PIB europeu depende de coisas que durante séculos chamámos paisagem, e a paisagem, sem aviso, começou a entrar nos balanços; o Banco Central Europeu informa, em boletim seco, que três em cada quatro euros de crédito bancário concedido na União Europeia estão expostos a serviços de ecossistemas; as normas europeias estimulam as empresas a divulgar dependências e impactos sobre ecossistemas; os stress tests prudenciais incluem hoje cenários hídricos que em 2010 teriam sido considerados ficção literária. Há, é certo, discursos demagógicos a apresentar uma correção metodológica recente dos cenários climáticos como confissão de fraude generalizada, e a tese chega aos auditórios europeus em voz baixa, com modos polidos de quem se afirma ‘o adulto na sala’. O mercado, sempre mais prosaico, continua a precificar o pior, sempre em modo ‘bigger-better-faster-more!’. Mas a Natureza já entrou nos terminais Bloomberg, sem ticker novo, de modo discreto entre os indicadores de pânico vindos de Ormuz.

Mas agora, vamos descer a três habitats da mesma cidade, na mesma manhã, com a câmara baixa, conforme protocolo da nossa série.

Habitat A. No 12.º andar de um edifício antigo, reúne-se um conselho de administração que poderia ser o de muitas empresas, e que por isso mesmo importa não nomear. A reunião começou às 8.30 em ponto, quem se atrasa fica à porta, assim é há décadas, e segue uma ordem do dia que, com as variações mínimas exigidas pelo calendário fiscal, se perpetua. O presidente lê o ponto 1, o administrador financeiro consulta o documento que tinha aberto à frente antes do ponto ter sido enunciado, e o não-executivo formula a pergunta cuja resposta consta da página 23 do documento, recebendo, com a cortesia que estes ritos exigem, a resposta com referência à página 23 do documento. A ata regista maquinalmente que o ponto foi discutido em profundidade e que se chegou a amplo consenso, fórmulas que constam, com variações mínimas, das atas dos últimos quarenta e três anos, e que ninguém propôs alterar, porque alterá-las seria admitir entropia, e ninguém ainda foi ao dicionário ver o que isso significa. Há quem chame a isto governance. A jovem assessora que toma notas há vinte minutos sem ter sido formalmente apresentada a ninguém escreve no canto inferior do caderno uma frase que não constará da ata: Está mesmo tudo bem?

Habitat B. No sexto andar de um edifício super cool, perto de um sítio ainda mais cool onde se tomam cafés com leite de aveia sem que ninguém se ria disso, reúne-se uma equipa de sete pessoas com plantas suculentas em três pontos da sala, da responsabilidade rotativa do Chief Vibes Officer. Na parede, um quadro branco coberto a meias com fluxogramas e a meias com letras maiúsculas que dizem OKRs Q3, e ao lado, em letra mais pequena mas cuidada, Wellbeing Pulse Survey — Tuesday at 11. O CFO, recém-chegado de uma firma maior e ainda sem um nome sonante mas com o entusiasmo pueril de quem acredita que os relatórios são para serem lidos, projeta uma apresentação intitulada Nature-related Risk and Opportunity, e enquanto a apresenta a Head of People & Culture anota três hipóteses que se excluem mutuamente mas que serão, ainda assim, exploradas em paralelo, taskforce? working group? cross-functional pod?. O Sustainability Champion, que regressou esta semana de uma off-site em Marraquexe com meditação guiada e cold plunge opcional, sugere uma sessão de empathy mapping, e o Director of Mindful Performance, que se juntou à empresa há 11 semanas e cujo papel ninguém ainda conseguiu explicar lá muito bem, propõe que se faça em paralelo, com check-in sincronizado às sextas. Daqui a dezoito meses, garantidamente, alguém com cartão Chief Regeneration Officer entra na sala…

Habitat C. Na sala interior do quinto andar de um banco de média dimensão, sem janela e sob luz led mal calibrada, sentam-se nove pessoas em torno de uma mesa concebida para 16 lugares. À cabeceira, o responsável de risco, e ao lado, compliance, ambos com a postura serena de quem aprendeu, ao longo dos anos, que o tempo é aliado do método; do outro lado da mesa, três pessoas da equipa recém-criada de sustainable finance, com idade média inferior em 12 anos, vocabulário técnico diferente o suficiente para ter sido necessária uma reunião prévia entre chefias para se acordar nomenclatura. A primeira meia hora é gasta a confirmar que ambas as equipas leram o documento, e que ambas têm dúvidas, embora não exatamente as mesmas, porque uma quer perceber como integrar o vocabulário novo nos modelos existentes, enquanto a outra quer perceber se o banco está disposto a desenhar produtos novos, e o compliance, com a calma profissional de quem já viu este filme, quer apenas saber se há jurisprudência. Sucedem-se silêncios curtos depois das perguntas certas, e há também, ao longo da mesa, a sensação partilhada, ainda inarticulada, de que esta é a primeira de muitas reuniões, e de que o banco que delas sair, daqui a um ano ou dois, não será positivamente o mesmo onde estão agora.

A câmara recua, o plano cresce e aquilo que vemos é habitats com espécies diferentes e em processo de divergência. A primeira arrasta-se à velocidade do mundo que a produziu, mesmo quando o mundo mudou. A segunda ajusta a plumagem, mas a identidade essencial, mesmo que com muito esforço de maquilhagem, mantém-se. A terceira luta com o GPS, lê com dificuldade o mapa, altera o terreno, e ao alterá-lo muda o que vai contar como adaptação bem-sucedida, desde que sobreviva aos sobressaltos. Razões diferentes produzem equilíbrios diferentes, e algumas trajetórias alongam-se num confortável coma, que é a forma elegante de descrever o caminho para a extinção, porque a extinção, na natureza, é a regra e a sobrevivência a exceção, assim dizia Carl Sagan.

Mas o que se vislumbra num close-up de fecho é que cada uma destas três espécies, por razões diferentes, vai migrar para o mesmo destino, rumo ao dia 1 de julho, na Católica, onde irá ocorrer uma jornada dedicada a Nature Positive: From Thinking to Acting, no âmbito da Lisbon Sustainability Week. A primeira vai por defesa, talvez por insistência da assessora silenciosa que colocou o evento no calendário. A segunda talvez vá por oportunidade, talvez por oportunismo, mas vai, com o Director of Mindful Performance a aprender a soletrar stress ecológico pelo caminho. A terceira vai por construção, ou até por curiosidade, com comité de risco e os tais do sustainable finance na mesma fila de inscrição. Razões diferentes, mesma migração, como acontece na Natureza.

O momento de zoom out panorâmico antecipa os créditos do episódio. Lá em baixo, num espaço de jardim que escapou à urgência paisagista de usar tantas ornamentais exóticas quanto possível, um velho sobreiro manda a sua raiz mais fundo, em busca de água, sem saber que está, neste momento, a ser pauta simultânea de três salas desta cidade, e responderá, daqui a uns meses, com o silêncio próprio da sua espécie, com mais um anel de crescimento.

P.S. Dedicado a David Attenborough que completou cem anos no passado dia 8 de maio. Esta crónica foi escrita com a câmara que ele nos ensinou a segurar.