Durante anos, a Oncologia mediu o seu sucesso numa única linguagem: sobrevivência. Quantos doentes estavam vivos aos cinco anos? A doença tinha regredido? O tumor tinha desaparecido nas imagens? Estas eram e continuam a ser, perguntas essenciais. Mas, sozinhas, já não chegam.
Conheci doentes que tinham “ganhado” ao cancro, pelo menos na linguagem dos relatórios médicos, mas que viviam presos numa fadiga que não os deixava trabalhar, numa ansiedade que os acordava de madrugada, numa dor que transformava o dia-a-dia num esforço permanente. Curados, sim. Mas não bem.
Esta é a realidade silenciosa da sobrevivência oncológica e é sobre ela que precisamos de falar.
Em Portugal, estima-se que existam hoje mais de 400 mil sobreviventes de cancro. À escala global, este número ultrapassa os 50 milhões. São pessoas que terminaram o tratamento, que deixaram de ir a consultas de Oncologia, mas que carregam consigo os efeitos tardios da doença e da terapêutica: alterações hormonais, perturbações do sono, dificuldades cognitivas – aquilo que muitos descrevem como o chemo brain -, medo constante de recidiva, entre outros. A lista é longa, e raramente é falada em voz alta.
A boa notícia é que a ciência tem evoluído, e com ela a forma como pensamos o cuidado. Hoje sabemos que o exercício físico regular melhora a fadiga oncológica, reduz o risco de recidiva em vários tumores e melhora o humor. Sabemos que intervenções nutricionais estruturadas têm impacto real na tolerância ao tratamento e na recuperação. Sabemos também que apoio psicológico precoce não é um luxo, é parte do tratamento.
O problema é que este conhecimento ainda não é aplicado, de forma consistente, na prática clínica do dia-a-dia. Muitas vezes, o acompanhamento termina quando termina o tratamento ativo. O doente sai, aliviado e assustado ao mesmo tempo, sem um plano claro para o que vem a seguir.
É precisamente aqui que a Oncologia do futuro tem de ancorar uma das suas prioridades: integrar a qualidade de vida como indicador de sucesso, a par da sobrevivência global e da sobrevivência livre de doença. Não como um extra, não como uma consulta opcional, mas como uma métrica central, mensurada e valorizada.
Hoje, o Hospital CUF Tejo acolhe o II Seminário do Sobrevivente de Cancro, um espaço criado exatamente para dar visibilidade a estas questões. Porque o caminho depois do cancro importa tanto quanto o caminho durante o cancro.
Curar é o ponto de partida. Viver bem é o destino.