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(A) :: Das mais antigas cantigas de amor ao relato de Alcácer Quibir: e se pudéssemos ver os tesouros da biblioteca do Palácio da Ajuda?

Das mais antigas cantigas de amor ao relato de Alcácer Quibir: e se pudéssemos ver os tesouros da biblioteca do Palácio da Ajuda?

Três especialistas querem dar a conhecer os manuscritos mais valiosos e curiosos das bibliotecas portuguesas e chamar a atenção para um património “escondido” que, muitas vezes, passa despercebido.

Rita Cipriano
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Inês Lacerda
photography

As bibliotecas e arquivos portugueses estão repletos de tesouros, mas são poucas as pessoas que têm acesso a eles. Um grupo de investigadores quer mudar isso. O primeiro passo nesse sentido foi dado no passado dia 11 de maio, quando se realizou, na Biblioteca do Palácio Nacional da Ajuda, em Lisboa, o primeiro encontro do ciclo “Manuscritos fora da estante”, que pretende dar a conhecer, a um público mais vasto, o rico espólio manuscrito nacional. Uma iniciativa dos investigadores Elena Lombardo (Centro de Linguística da Universidade de Lisboa), Joana Gomes (Instituto de Filosofia da Universidade do Porto) e Filipe Alves Moreira (Instituto de Estudos de Literatura e Tradição na Universidade Aberta), o ciclo quer mostrar “outro tipo de património”, que costumava ser menos visível, mas que não é, por isso, menos interessante ou relevante.

Durante a primeira sessão, que reuniu cerca de 30 pessoas, um número que superou as espectativas iniciais dos organizadores, foram apresentados alguns dos mais importantes e curiosos manuscritos da coleção da Biblioteca do Palácio da Ajuda: um códice que junta o Cancioneiro da Ajuda e um exemplar do Livro de Linhagens do Conde D. Pedro, dois dos mais relevantes manuscritos medievais em território nacional; o códice 51-IX-22, com uma narrativa inédita sobre a Batalha de Alcáver Quibir; e a única cópia manuscrita conhecida da crónica de D. João II de Garcia Resende. Os participantes tiveram oportunidade de observar de perto os manuscritos — ver ao detalhe as ricas iluminuras do Cancioneiro, a caligrafia desenhada do 51-IX-22 e tentar decifrar as histórias jocosas sobre D. João II, reunidas no final da cópia da crónica de Garcia Resende. Colocaram perguntas e sugeriram hipóteses. Os investigadores esclareceram as dúvidas e prometeram voltar.

Antes que a sala se enchesse, o Observador visitou a Biblioteca do Palácio da Ajuda, outro tesouro escondido, e conversou com os investigadores Elena Lombardo e Filipe Alves Moreira sobre os três códices, numa sala com vista para a casa outrora habitada por Alexandre Herculano, o primeiro bibliotecário da Ajuda.

Um mundo “escondido”

Existem bibliotecas portuguesas cuja fama atravessa fronteiras. A do Palácio Nacional da Ajuda, em Lisboa, não será uma delas. A fraca popularidade não se justifica. Uma das mais antigas e elegantes bibliotecas portuguesas, encontra-se localizada numa ala própria do palácio desde 1880, mas a sua origem é muito anterior. As estantes e vitrinas são acessíveis através de duas galerias, inferior e superior, e impressionam pela altura e decoração elegante, com apontamentos em dourado. Os tetos, pintados a fresco, são da autoria do pintor e decorador José Pereira Júnior, conhecido como Pereira Cão, que foi responsável pelas obras de restauro realizadas no palácio por altura do casamento de D. Luís e D. Maria Pia. A biblioteca está repleta de referências a Alexandre Herculano. O escritor foi nomeado bibliotecário-mor em 1839 e foi responsável por tratar e classificar os milhares de volumes que permaneciam ainda dentro dos caixotes em que tinham sido transferidos do Brasil, para onde a biblioteca foi enviada, juntamente com a família real, por altura das invasões francesas. A casa onde Herculano viveu e trabalhou, junto ao edifício principal do palácio, é visível através das janelas da biblioteca.

Embora as suas origens remontem ao século XV, a Biblioteca do Palácio da Ajuda, tal como hoje existe, começou a ser construída no século XVIII, após o terramoto de 1755, que destruiu grande parte do espólio da antiga Biblioteca Real, instalada no Paço da Ribeira. Ao longo das décadas, a coleção foi crescendo em número e em prestígio, graças à integração de coleções privadas e às doações de obras raras. Atualmente, é composta por 150 mil exemplares, manuscritos e imprensos, produzidos entre os séculos XII e XXI. A coleção de manuscritos inclui 2.512 códices (volumes manuscritos, que podem conter mais do que uma obra) e cerca de 33 mil documentos avulsos, e contém o mais importante acervo de manuscritos musicais do país.

A importância do espólio da Biblioteca da Ajuda foi um dos motivos que levaram Elena Lombardo, Joana Gomes e Filipe Alves Moreira a escolhê-la como o local do primeiro encontro do ciclo “Manuscritos fora da estante”. “Já tínhamos uma ideia do que queríamos mostrar”, afirmou Filipe Alves Moreira ao Observador. Mas o plano é que não fique por ali. “A ideia é que venha a ser um ciclo de encontros, em que se repita até localizações, mas mostrando obras diferentes e em vários pontos do país”, explicou o investigador do Instituto de Filosofia da Universidade do Porto. A próxima data deverá ser novamente em Lisboa, mas os investigadores gostavam de visitar, em breve, a Biblioteca Joanina, da Universidade de Coimbra, uma das mais ricas do período barroco. A biblioteca está atualmente a ser alvo de um processo de digitalização, que prevê a disponibilização em formato digital de cerca de 30 mil volumes do Piso Nobre até 2030.

O objetivo do ciclo “é mostrar ao público em geral, ou ao público potencialmente interessado, um outro tipo de património, que são os manuscritos. Quando falamos em património, pensamos muitas vezes em castelos, palácios, esse tipo de coisas, mas há muito outro património que fica esquecido, entre o qual está o património bibliográfico e, no nosso caso, muito particularmente, os manuscritos. É outra forma de património que está um bocado esquecida”, disse Filipe Alves Moreira. Uma das razões é porque se trata de um tipo de material que “parece inacessível”. “Acho que existe, a priori, o preconceito de que uma biblioteca é um lugar muito distante, que tem muitas regras, onde não se pode consultar os materiais, ainda mais no caso dos textos e códices antigos. Que se trata de um muito fechado, muito inacessível.” Mas nem sempre é assim. “Depende da instituição e do códice, mas, em princípio, justificando-se o interesse”, é possível fazê-lo, esclareceu o investigador. Por outro lado, o estudo das obras manuscritas é “uma área que está em perigo”. “Há poucas pessoas interessadas em Portugal. É também uma forma de tentar chamar pessoas para esta área, que, infelizmente, tem poucos jovens interessados.”

As mais antigas cantigas de amor estão na Ajuda

Na última sala da biblioteca, foi colocado, sobre uma mesa baixa de madeira, um códice enorme, com uma encardenação em couro trabalhado e fechaduras. “Este é a joia da coroa”, disse Filipe Alves Moreira, aproximando-se. “Este é o Cancioneiro da Ajuda, encadernado juntamente com o Livro de Linhagens do Conde D. Pedro”, explicou, enquanto calçava as luvas descartáveis para poder folheá-lo. “Isto é uma emoção, até. É a primeira vez que vou tocar nestas páginas.”

Produzido em pergaminho — um suporte de escrita feito a partir da pele raspada de animais —, provavelmente no final do século XIV, o chamado Cancioneiro da Ajuda é a mais antiga coleção manuscrita de cantigas galego-portuguesas, um tipo de lírica trovadoresta que floresceu no território peninsular entre o final do século XII e meados do século XIV. Inclui 310 composições, pertencentes a um único género — o da cantigas de amor —, enquanto que as outras coletâneas abrangem todos os principais géneros das cantigas galego-portuguesas — amor, amigo e escárnio e maldizer. O mais ricamente decorado e iluminado dos três grandes cancioneiros, que incluem o da Biblioteca Nacional de Portugal e o da Biblioteca Vaticana, o Cancioneiro da Ajuda foi, no entanto, deixado inacabado, o que é percetível pelas iluminuras e ilustrações por terminar e pelos espaços em branco nos quais deviam ter sido colocadas as pautas musicais. Porque, embora se tenha perdido a noção disso, as cantigas eram compostas para serem cantadas com acompanhamento musical, mas foram poucas as pautas que sobreviveram ao período medieval.

Apesar da sua importância, pouco se sabe sobre as origens do Cancioneiro da Ajuda, também conhecido como Cancioneiro do Colégio dos Nobres, por ter pertencido à biblioteca desse estabelecimento de ensino fundado pelo Marquês de Pombal, onde foi descoberto no início do século XIX. Nem tão pouco se sabe se foi produzido em território atualmente português ou espanhol. Sabe-se, apenas, que o seu patrono terá sido alguém com posses, tendo em conta a riqueza da decoração, sem rival. Cada iluminura representa um autor e trovador diferente, que surge num lugar de destaque, como que “a supervisionar o trabalho” daqueles que estão a executar a sua composição, como explicou Filipe Alves Moreira. Na ilustração, “surge sempre, ou quase sempre, uma mulher dançarina e um músico, que executava a parte musical”.

No final do século XV, o manuscrito encontrava-se em Évora, na posse de um fidalgo chamado Pedro Homem. É possível ver a sua assinatura no final do manuscrito, juntamente com outras marcas — desenhos, palavras e outros rascunhos —, deixadas por muitos dos que tiveram o Cancioneiro nas mãos. Essas marcas não são exclusivas desse códice, nem se devem ao facto de o manuscrito ter ficado inacabado. “Não é nada incomum haver folhas com cálculos, números e qualquer tipo de desenho, anotações ou até mesmo gatafunhos”, esclareceu Elena Lombardo. Até porque, “antes de fazerem os documentos, experimentavam a escrita”, acrescentou Filipe Alves Moreira. Além dessas marcas, o manuscrito inclui também comentários escritos, que foram deixados pelos seus leitores cerca de 100 anos depois. Junto a uma das composições, alguém escreveu: “Mui, mui boa”, indício de que o Cancioneiro foi “lido com atenção, mesmo um século ou dois depois”, comentou o investigador do Instituto de Filosofia da Universidade do Porto. A determinada altura, o Cancioneiro terá pertencido à biblioteca dos jesuítas de Lisboa, e após a expulsão e a confiscação dos bens da Companhia de Jesus pelo Marquês de Pombal, em 1759, terá passado para o Colégio dos Nobres, instituído por carta régia em 1761. No século XIX, encontrou uma nova casa na Biblioteca do Palácio da Ajuda, que, na sequência da extinção das ordens religiosas, em 1834, passou a agregar as antigas bibliotecas da Companhia de Jesus e da Congregação do Oratório.

Atualmente, o Cancioneiro da Ajuda encontra-se num grande códice encadernado, que inclui o Livro de Linhagens do Conde D. Pedro, uma importante obra geneológica do século XV, que foi também mostrado pelos investigadores durante a sessão de 11 de maio. A encadernação tem um padrão em grelha, com decorações vegetais, conhecido como S. Lourenço, numa referência à história do martírio do santo espanhol do século II, que foi assado vivo numa grelha de ferro. Diz a lenda que, quando estava sobre a grelha, Lourenço pediu para que o virassem, para que ficasse bem passado dos dois lados. Em conversa telefónica com o Observador, a investigadora Joana Gomes, que não pôde acompanhar-nos durante a visita à Biblioteca do Palácio da Ajuda, explicou que o padrão estará também relacionado com o encadernador, que se chamaria Afonso Lourenço. “Essa marca de encarnação, por associação onomástica, remeteria para o encadernador que, como símbolo do seu trabalho, recorreria ao santo com o mesmo nome”, afirmou a investigadora do Instituto de Estudos de Literatura e Tradição na Universidade Aberta.

A encadernação é do século XVI, quando as duas obras foram reunidas num só volume. Não há nada a separá-las — apenas um olhar atento consegue discernir onde começa uma e acaba outra, embora sejam visualmente distintas. E, curiosamente, o Livro de Linhagens, que é mais antigo do que o Cancioneiro, foi colocado em primeiro lugar. Cronologicamente, o códice está ao contrário.

O Livro de Linhagens do Conde D. Pedro é uma obra geneológica que descreve as origens de algumas das mais importantes famílias nobres portuguesas, com algumas “histórias pelo meio”, destacou Filipe Alves Moreira. O seu autor, D. Pedro, conde de Barcelos (c. 1285-1354), era filho ilegítimo de D. Dinis e de D. Grácia Anes Froes. Uma das figuras mais relevantes do panorama cultural medieval ibérico, além da sua famosa obra geneológica, escreveu uma crónica e um conjunto de cantigas que foi copiado em Itália durante o século XVI. A versão do seu Livro de Linhagens que se encontra agregada ao Cancioneiro da Ajuda, e que também foi produzida em pergaminho, não é o original do conde, que não chegou aos dias de hoje, mas uma reformulação posterior. “O Livro de Linhagens do Conde D. Pedro foi utilizado por autores posteriores nas suas próprias obras. Quando utilizaram o Livro, fizeram várias reformulações. Pensa-se que o manuscrito que está agregado ao Cancioneiro seja de um autor que trabalhou em cerca de 1360 e, portanto, nunca poderia ser o livro do Conde”, explicou Joana Gomes, acrescentando que, atualmente, é possível assumir que o Livro de Linhagens do Conde D. Pedro “está perdido”. “O que temos hoje são essas reformulações posteriores.”

O exemplar da Ajuda é a mais antiga dessas reformulações. Todas as outras são posteriores e foram produzidas a partir de finais do século XVI. “Este da Ajuda é, de facto, o fragmento mais antigo, porque não está completo”, salientou a investigadora. Por outro lado, apresenta um sistema de organização que é mais complexo do que o das restantes cópias, com títulos, parágrafos e remissões, que permitiam encontrar mais facilmente a passagem que se queria consultar. “Há outra característica que também é importante: além dos títulos e das remissões, a própria alternância de instrumentos de escrita, de tintas, etc., ajuda a criar uma hierarquia nos conteúdos. Embora seja uma cópia inacabada, percebe-se o cuidado de produção e, eventualmente, a sua utilização. Por um lado, é uma cópia luxuosa, para ser vista, e por outro, para ser consultada”, destacou Filipe Alves Moreira.

A narrativa inédita sobre a Batalha de Alcácer Quibir

Na outra ponta da sala, afastado do Cancioneiro da Ajuda, repousava sobre uma mesa alta um livro aparentemente desinteressante. Com uma capa mole em pergaminho, sem qualquer decoração, o códice é conhecido apenas como 51-IX-22. É uma de várias miscelâneas — coleções de textos de diferentes proveniências que têm, frequentemente, um tema em comum — que integram a coleção da Biblioteca do Palácio da Ajuda e que, na sua maioria, dizem mais sobre quem as colecionou do que sobre o contexto em que foram produzidas. Sem nada que o distinguisse das outras miscelâneas, o códice 51-IX-22 teria permanecido na obscuridade se Elena Lombardo não se tivesse interessado por ele e descoberto que inclui uma fonte inédita sobre a Batalha de Alcácer Quibir e o destino do exército português após a campanha de 1578 no norte de África.

Produzido no século XVII, por um único autor anónimo, o códice reúne pequenos excertos, “eventualmente de textos maiores, que se foram autonomizando ao longo do tempo e que podem ter sido transmitidos a partir de outras cópias de forma autónoma”. As fontes, quando citadas, são diversas — Homero, Eutrópio, Damião de Góis, João de Barros —, e os temas variados — história antiga e moderna, portuguesa e estrangeira, mitologia. Os títulos são bastante sugestivos e entre esses incluiu-se, por exemplo, “Costumes dos bárbaros do oriente”, “Vícios dos filhos de Roma que haviam de ser proibidos”, “Sepultura de um rei do Chipre”, “O que disse o rei do Malabar aos primeiros portugueses”, ou “A serpente do Egito”.

Em termos de encadernação, o 51-IX-22 é muito menos luxuoso do que o Cancioneiro da Ajuda e o Livro de Linhagens do Conde D. Pedro. “Tem uma encadernação mole, em pergaminho, sem fechos, sem nada. É mesmo muito simples. Era um livro de todos os dias”, apontou Elena Lombardo, acrescentando que, “ainda assim, é importante prestar atenção a estas encadenações, porque nos dizem como é que eram feitos os livros”. Também ao contrário dos outros dois manuscritos, o 51-IX-22 foi produzido em papel. Apesar de o uso do papel ser mais associado à imprensa, a verdade é que esta alternativa ao pergaminho começou a ser introduzida na Europa nos séculos XIII e XIV. A sua produção seguia um processo muito diferente do atual. “O papel era de origem vegetal, mas não era fabricado como estamos acostumados. A celulose não vinha diretamente das fibras da madeira, mas de panos, que eram postos de molho, batidos e transformados numa pasta”, explicou a investigadora do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa. A pasta era depois colocada dentro de um molde de madeira com fios metálicos, que podiam ser usados para criar símbolos — a chamada marca de água. O molde era depois espremido, para retirar toda a água da pasta de papel. Esse processo fazia com que as linhas metálicas e a marca de água deixassem uma impressão sobre o papel, apenas visível em contraluz. Atualmente, as marcas de água podem ser usadas pelos investigadores para identificar os diferentes produtores e o período de produção das folhas de papel.

O primeiro excerto do códice é precisamente o da “Jornada de África del rei Dom Sebastião”, um texto relativamente longo — o maior do manuscrito —, dividido em 55 capítulos, que fala sobre a campanha norte-africana de 1578, que culminou na Batalha de Alcácer Quibir e na esmagadora derrota do exército português. Contudo, o texto “tem relativamente pouco sobre a jornada de África” em si, uma vez que se foca, sobretudo, no que aconteceu depois. “Começa com os preparativos para a jornada, mas, além da descrição da batalha, relata todos os acontecimentos posteriores do ponto de vista dos portugueses e europeus que ficaram cativos.” Inclui também informações sobre o trabalho das ordens religiosas que se encarregaram do resgate dos cativos e uma descrição dos costumes e hábitos dos muçulmanos, o que o distingue de todos os outros textos sobre Alcácer Quibir. O excerto “foi escrito por alguém que também ficou cativo e decreve, não só o dia a dia dos cativos, mas também os costumes dos mouros, a relação entre eles, e toda uma série de informações que são muito importantes, porque dão a entender o que essa pessoa viveu”, especificou Elena Lombardo. Por outro lado, a descrição do papel das ordens religiosas e dos costumes locais torna-o numa “fonte interessante para a história religiosa e para a história dos costumes sociais da época”. “É claramente um texto diferente de todos os outros que são conhecidos” sobre a campanha militar, acrescentou a investigadora, embora não apresente qualquer novidade relativamente ao que se passou no norte de África em 1578.

Elena Lombardo, que o identificou em 2019, quando estava a acabar o doutoramento em Crítica Textual na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, acredita que a “Jornada de África del rei Dom Sebastião”, tal como aparece no 51-IX-22, não se trata de uma primeira versão do texto, mas de uma cópia de um relato escrito por alguém que esteve no norte de África na altura da campanha, mas a narrativa carece de um estudo mais aprofundado. A investigadora começou a editá-lo, mas o trabalho foi interrompido pela pandemia de Covid-19 e, desde então, ainda não teve oportunidade de lhe dar continuidade. Espera poder retomá-lo em breve e divulgar o texto pela primeira vez na íntegra.

A vida, os feitos e o mau-feitio de D. João II

O último manuscrito que foi mostrado aos mais de 30 curiosos que se reuniram na Biblioteca do Palácio da Ajuda no dia 11 de maio foi a cópia da Vida e Feitos Del Rey Dom João Segundo, a única manuscrita que se conhece da crónica de D. João II de Garcia Resende (1470-1536). Datável de meados do século XVI, a cópia em papel foi feita por “um tal” Álvaro de Couto de Vasconcelos, sobre o qual nada se sabe, além de ter dedicado vários anos da sua vida a copiar “as crónicas de todos os reis de Portugal até D. João II, ao final do século XV”, em volumes “com o mesmo tamanho, o mesmo tipo de letra, o mesmo layout”, dos quais apenas dois se encontram fora da Ajuda, no Arquivo da Torre do Tombo, explicou Filipe Alves Moreira. “O nome Couto de Vasconcelos denota nobreza, o que é curioso, porque não é um nome típico de copista”, destacou o investigador, acrescentando que também não é comum saber-se o nome do autor de uma cópia.

Além da importância que tem por integrar “um conjunto imenso” de cópias feitas pelo “tal” Couto de Vasconcelos, o exemplar manuscrito da Vida e Feitos Del Rey Dom João Segundo da Ajuda tem, “sobretudo, dois pontos de interesse principais”, um dos quais relacionado com a transmissão do próprio texto. A crónica de Garcia Resende foi a primeira dos reis de Portugal a ser impressa — “as outras, mesmo as que são anteriores, só foram impressas muito tempo depois, o que é um bocado estranho” —, mas só se lhe conhece uma cópia manuscrita — a de Couto de Vasconcelos que pertence à Biblioteca do Palácio da Ajuda. “Portanto, todas as outras são impressas, e esta é anterior à imprensa”, datada de 1545. Essa datação é, em parte, sustentada por uma data que surge no próprio manuscrito — junho de 1538 —, mas que foi acrescentada posteriormente. Apesar disso, na opinião do investigador do Instituto de Filosofia da Universidade do Porto, essa data “bate certo” com a cronologia das outras cópias das crónicas dos reis portugueses feitas por Couto de Vasconcelos, que datou algumas delas das décadas de 1520 e 1530. Além disso, a cópia manuscrita da crónica de Garcia Resende “tem diferenças em relação ao que foi impresso, o que interessa estudar.” Essas divergências não passaram despercebidas a um dos bibliotecários da Ajuda, que deixou notas à margem dos capítulos indicando o que está e o que não está na edição imprensa. Mas talvez o mais interessante não seja o que está na crónica, mas fora dela.

No final do manuscrito, é possível encontrar um conjunto de “historietas” sobre D. João II que não estão na crónica de Garcia Resende e que não se encontram em mais lado nenhum. Um comentador considerou que seriam da autoria do próprio Couto de Vasconcelos, escrevendo à margem do texto: “Acrescentamento de capítulos por Álvaro de Couto de Vasconcelos, que ele fez”. As histórias são “dos mais variados tipos”. Algumas são até humorísticas. Uma delas faz referência ao conflito que opôs o rei a D. Fernando, duque de Bragança, seu primo e um dos senhores mais poderosos do reino. Em 1483, D. Fernando foi julgado e condenado à morte por conspirar contra D. João II, e os seus bens foram confiscados pela Coroa. Um dos alcaides-mor do duque de Bragança terá resistido a entregar um dos castelos, o que, segundo reza a história, terá levado o rei a elogiá-lo e a considerar que os restantes alcaides é que tinham agido mal, propondo que deviam passar a ser conhecidos por “alcaides-moles”. Outras histórias “são muito típicas do que se sabe de D. João II, que era uma personagem um bocado dura”, disse Filipe Alves Moreira. Uma delas descreve a reação do rei a uma brincadeira do seu filho, o príncipe D. Afonso. “O filho do rei, ainda criança, estava a brincar com outros meninos da corte, que estavam a ver quem é que aguentava mais tempo com a cabeça dentro de um balde com água. O príncipe não entrou na brincadeira, porque estava com medo. O rei, que estava a observá-lo, viu que o príncipe estava com medo e ficou furioso. Entrou de repente em cena, pegou no filho, meteu a cabeça dele no balde e disse-lhe: ‘Mostra que também és filho de homem’.”

“É curioso, porque vai um bocado ao encontro do que, por outras vias, se sabe sobre a personalidade de D. João II”, comentou Filipe Alves Moreira, recordando uma história, que foi incluída na crónica, a propósito da morte de D. Afonso, que morreu precocemente após cair de um cavalo. “Quando o filho morreu — e isto está na crónica —, D. João ficou muito triste, de luto, mas depois terá dito que, bem vistas as coisas, até era bom que tivesse morrido, porque era demasiado efeminado para ser rei.”

Não se sabe como é que essas histórias chegaram ao conhecimento de Couto de Vasconcelos, mas tendo em conta o que se sabe sobre a personalidade de D. João II, “um sujeito duro”, são “muito verossímeis”. “Até diria que é bem possível que todas estas histórias sejam verdadeiras, mesmo aquelas mais jocosas”, sugeriu o investigador. “Todos os historiadores dizem que, quando D. João II mandou prender o duque de Bragança para o matar, e mandou entregar os castelos, os alcaides entregaram-nos todos; mas uma destas historietas mostra que não, que houve um que resistiu, que foi o alcaide de Monforte. Pelo menos uma coisa é certa: o nome do alcaide é efetivamente o nome histórico do alcaide daquela altura. Portanto, é possível que haja uma base histórica e que tenha havido resistência à ordem do rei, e isso não se sabia, nem pelas crónicas nem por nenhum outro documento”, apontou Filipe Alves Moreira, destacando que, “até nisso”, a cópia manuscrita da Vida e Feitos Del Rey Dom João Segundo é “uma espécie de intermédio” entre os outros manuscritos apresentados pelos investigadores no Ajuda: “Não é propriamente uma miscelânea, mas também não é uma só obra. Tem as histórias e, depois, ainda tem cópias de documentos sobre D. João II”.

No seu conjunto, os manuscritos apresentados pelos três investigadores na Ajuda representam diferentes formatos e abordagens à produção manuscrita, e também géneros literários distintos, que revelam a diversidade e a riqueza da literatura medieval. Mas há muito mais para observar e conhecer, e Elena Lombardo, Joana Gomes e Filipe Alves Moreira prometem reunir-se, em breve, para mostrar outros manuscritos importantes. Afinal, existem muitos outros tesouros “escondidos” à espera de serem revelados.