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(A) :: Quase todo o jet fuel para a aviação importado por Portugal vinha do Golfo e da Ásia. Alternativas estão na bacia atlântica

Quase todo o jet fuel para a aviação importado por Portugal vinha do Golfo e da Ásia. Alternativas estão na bacia atlântica

Em 2025 o Kuwait foi o maior fornecedor de combustível para aviação a Portugal. Alternativas ao Golfo Pérsico e à Ásia estão no Atlântico. Galp reafirma que tem procura coberta com stocks e contratos.

Ana Suspiro
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O Governo reafirmou a posição “relativamente robusta” de Portugal em matéria de abastecimento energético. A declaração do secretário de Estado da Energia, Jean Barroca, é sustentada nos principais fornecedores de petróleo — Brasil e Argélia — e de gás natural — Nigéria e Estados Unidos — ao país em 2025. Mas se Portugal não recebe petróleo e gás do Médio Oriente (em anos recentes), o mesmo não se pode dizer de alguns produtos refinados.

Descrita como a maior crise na segurança energética mundial pela Agência Internacional de Energia, a disrupção causada pelo estrangulamento da navegação no Estreito de Ormuz está a ter efeitos assimétricos nos produtos e nos países. Os produtos que estão sob maior pressão são o jet fuel consumido na aviação, mas também um subproduto usado no fabrico de gasóleo que já tinha sido notícia quando a Rússia invadiu a Ucrânia — o VGO.

E nestes dois casos, as importações portuguesas no passado recente vêm do Golfo Pérsico e de países asiáticos que são, segundo as organizações internacionais, os que estão a ser mais diretamente afetados pela interrupção dos fluxos de produtos com origem no Médio Oriente.

O primeiro alerta para o risco de rutura no abastecimento de combustível para a aviação na Europa foi dado pelo diretor-geral da Agência Internacional de Energia. Fatih Birol apontava para junho como um mês de viragem. Mais recentemente, a Agência repetiu o aviso, afirmando que os países estavam a viver das reservas de petróleo e de produtos petrolíferos, reservas que estavam quase a ser esgotadas.

O grupo de coordenação criado ao nível da Comissão Europeia para monitorizar as condições de fornecimento do mercado confirmou que todos os países da UE estão a ser afetados pelas dinâmicas geradas pelo fecho de Ormuz nos produtos petrolíferos. “Até agora, a União Europeia tem sentido os efeitos no preço, sem sofrer disrupções físicas ao nível do abastecimento ou do consumo. No entanto, se a situação não melhorar nas próximas semanas, os mercados vão ficar ainda mais apertados, especialmente para o jet fuel”, avisou num relatório conhecido na semana passada.

Em Portugal, quer o Governo quer a Galp, têm garantido a continuidade do abastecimento às necessidades do mercado e a TAP não cancelou voos. Ainda esta semana, à margem da inauguração de um posto de carregamento elétrico rápido, João Diogo Marques da Silva, um dos CEO da Galp, deixou uma mensagem de tranquilidade.

“Estamos muito bem assegurados, tanto do ponto de vista da gasolina, do gasóleo, como do jet fuel, que são os produtos principais. Os portugueses podem estar tranquilos“.

Fonte oficial da Galp reafirma ao Observador que neste momento “estima-se que o consumo se encontre devidamente coberto, havendo níveis adequados de stock e quantidades de jet de importação já devidamente contratadas junto de fornecedores da bacia atlântica.” A prioridade “continua a ser assegurar a operação fiável e eficiente dos seus equipamentos de refinação de modo a responder às necessidades dos seus clientes tanto quanto possível com produção própria.”

A empresa “não comenta detalhes comerciais específicos sobre contratos de aprovisionamento, fornecedores ou geografias de origem”. Mas acrescenta que “com a informação disponível neste momento, não identificamos riscos de abastecimento no curto prazo.”

O secretário de Estado da Energia, ouvido no Parlamento sobre a crise energética e o risco para turismo, admitiu que de um momento para o outro um fornecedor pode interromper entregas, mesmo com contrato. Mas Jean Barroca afirmou também que uma crise de escassez de jet afetará também outros países. “Se houver uma crise europeia, os aviões não voam para cá. As crises são sistémicas”.

Kuwait vendeu quase metade do jet importado por Portugal no ano passado

Os dados do INE, pedidos pelo Observador, sobre o fluxo de importação de jet nos últimos três anos mostram uma forte dependência das compras portuguesas de mercados asiáticos. Em 2023 e 2024, as importações destes mercados representaram respetivamente 83% e 94,5% do valor das importações totais de jet. Em 2025, a percentagem cai, mas ainda é muito significativa — 77%. Nos últimos dois anos, o Kuwait destacou-se como o maior fornecedor de combustível de aviação a Portugal, sobretudo em 2025 quando vendeu 250 milhões de euros, quase metade de todo o jet importado nesse ano, que ascendeu a cerca de 530 milhões de euros.

Outros fornecedores importantes são países asiáticos — com foco para a Índia, a Coreia do Sul e a China. Estes são mercados especialmente afetados pelo fecho do estreito de Ormuz no que toca ao fornecimento de petróleo e que, segundo consultoras internacionais como a Kpler, estão a travar as exportações de produtos petrolíferos.

Os números do INE consultados pelo Observador mostram também que é a partir de maio que as importações de jet começam a ganhar relevância. Ou seja, as importações nacionais coincidem com o período de aperto mundial do jet e a procura por fontes de abastecimento alternativas está longe de ser um exclusivo português.

Tal como a Galp já explicou, a refinaria de Sines consegue abastecer até 80% do consumo anual deste produto em Portugal, mas quando há picos de procura no verão, é necessário importar maiores quantidades. Com o cadeado do Irão no Golfo Pérsico ainda fechado, Portugal terá de virar-se para oeste.

A bacia do Atlântico já é a geografia alternativa para o abastecimento. Os números das importações brutas de petróleo até março mostram que o Brasil é o maior fornecedor, seguido da Argélia, Nigéria e, em menor escala, os Estados Unidos e o Azerbaijão. Os dados relativos ao jet para o mesmo período indiciam que o mercado americano será uma das alternativas de abastecimento, já que pela primeira vez em cinco anos há importações deste destino, a par com compras a Espanha e aos Países Baixos.

O VGO, fundamental para o gasóleo, vinha da Rússia e passou a vir da Arábia Saudita

O jet não é o único produto que Portugal importava em grandes quantidades da região do Golfo. Nos últimos três anos, entre 2023 e 2025, a Arábia Saudita foi o principal fornecedor de VGO (sigla inglesa para gasóleo de vácuo), substituindo em grande medida a Rússia.

Na sequência da invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022, a Galp anunciou o corte das relações comerciais com a Rússia, cujo principal impacto foi o VGO, um produto utilizado no fabrico de gasóleo.

https://observador.pt/especiais/como-o-fecho-da-refinaria-de-matosinhos-aumentou-compras-a-russia/

Em 2023 e 2024, a Arábia Saudita foi a origem de quase 50% do valor de VGO importado por Portugal e que terá sido usado na refinaria de Sines para processar gasóleo. Esta quota caiu no ano passado para pouco menos de 20%, num mix mais diversificado de fornecedores que incluiu entre os mais importantes a Itália, a Turquia e a Argélia.

Nos primeiros três meses deste ano, os maiores valores de VGO vieram de países terceiros e territórios não especificados. Esta categoria é usada pelo INE quando estão envolvidos países terceiros ou circuitos complexos a partir dos quais não é possível determinar o país de origem no quadro das trocas comerciais. Entram aqui um terço das importações de VGO realizadas nos primeiros meses de 2026. Os outros fornecedores foram os Países Baixos, Estados Unidos e Itália.

Portugal também é importador de gasóleo. Este produto foi dos mais penalizados no início da escalada de preços devido à dependência da Europa do abastecimento daquela região. Mas neste caso, as compras aos países do Golfo são muito menos relevantes. A maioria do diesel importado vem de Espanha

Sabe-se também que quando soou o alarme no jet, a ministra da Energia, Maria da Graça Carvalho, reuniu-se com a Galp, mas também com a principal petrolífera espanhola, a Repsol.