É uma paixão que não tem idades e é capaz de unir miúdos, graúdos e desconhecidos em torno de um bem maior: encontrar o cromo que tanto se procura. A febre das coleções internacionais tende a surgir de dois em dois anos, precisamente quando o futebol de clubes para e os jogadores deixam a sua rotina diária para se focarem num bem maior: representar o seu país ao mais alto nível nas melhores competições do planeta. É aí que os adeptos ganham um novo passatempo, que também é capaz de colocar em franja os mais nervosos, como se se tratasse de uma grande penalidade no último minuto. O ritual da camisola e do cachecol é trocado pela abertura da saqueta, pela incessante descoberta do que está no seu interior e pela tradição de colar o jogador no respetivo lugar, sempre com o cuidado e a atenção que o momento merece, para que não haja falhas.
https://observador.pt/especiais/a-revolta-chegou-as-colecoes-de-cromos-topps-usou-mourinho-para-destronar-a-panini-mas-adeptos-nao-estao-contentes-com-a-caderneta-do-euro/
Depois de, em 2024, a coleção de cromos do Campeonato da Europa se ter estreado na Topps, marca que, a partir de 2031, vai produzir a caderneta do Campeonato do Mundo, a febre dos cromos está de volta à Panini, que teve o condão de preparar a maior coleção de sempre. Corria o ano de 1970 quando a FIFA decidiu elaborar a primeira caderneta de cromos de um Mundial. Estávamos no México e a escolhida foi a Panini, que reuniu 270 cromos na sua primeira edição. Desde então começou uma longa ligação entre a entidade que tutela o futebol mundial e a empresa italiana, que vai terminar em 2030, ao cabo de 60 anos. Será a Panini a responsável por fazer a coleção da edição centenária, que vai passar por Portugal. Até lá, a empresa foi responsável pela produção de 15 coleções, ainda que nem todas tenham chegado a Portugal, algo que só aconteceu a partir do Mundial de Espanha, em 1982, e vinha com grandes dificuldades logísticas, dado que a Panini não tinha distribuidora em Portugal, tendo de fazer uma parceria com a Agência Portuguesa de Revistas. Atualmente, a Panini não tem sede no nosso país, com o mercado português a ser assegurado pela sucursal espanhola.
A edição deste ano do Campeonato do Mundo tem como pano de fundo os EUA, ainda que Canadá e México também surjam como organizadores, embora num panorama bem mais alternativo. Se recuarmos até 1994, ano em que o Mundial pisou pela última vez o território norte-americano, Diego Armando Maradona (que foi suspenso por doping durante a prova), Hristo Stoichkov, Romário, Bebeto ou Gheorghe Hagi afirmavam-se como as grandes estrelas da competição. Contudo, o cromo mais procurado no que concerne à coleção da Panini era o de Roberto Baggio, que tinha conquistado a Bola de Ouro no ano anterior. O cromo era de tal maneira valioso que, à época, valia mais do que toda a coleção completa, retrata uma reportagem do The Guardian, que destaca ainda o preço atual do cromo: 30 euros. Se recuarmos oito anos, até ao México-1986, Maradona e Gary Lineker eram os mais desejados. O primeiro estava pronto para apontar o célebre golo da mão de Deus, ao passo que o segundo se exibia com um sorriso capaz de cativar qualquer um.

A febre dos cromos chega, inclusivamente, aos jogadores que representam as suas seleções em Mundiais e, em 2010, os jogadores da Seleção portuguesa chegaram a pedir ao staff técnico para se deslocarem às papelarias locais para comprarem saquetas, dado que a comitiva nacional estava a estagiar em Magaliesburgo, a uma hora de Joanesburgo. Quanto à edição do Campeonato da Europa de 1984, esta pode custar até dois mil euros. As coleções de cromos de futebol expandiram-se, inclusivamente, às competições femininas, ainda que, no Mundial-2023 e no Euro-2025, as vendas de Panini e Topps, respetivamente, tenham sido inferiores ao que acontece nas edições masculinas.
Quase 1.000 cromos, exclusivos e recorde de páginas: a maior coleção de sempre (que custa como nenhuma outra)
Com o aumento do Campeonato do Mundo em 50%, de 32 para 48 seleções, a coleção da Panini teve de acompanhar o incremento da FIFA e, de forma natural, esta é a maior caderneta de sempre: 112 páginas e um total de 980 cromos, incluindo 68 especiais. Cada seleção aparece, como habitual, em duas páginas, tendo um total de 20 cromos (18 jogadores, o símbolo da federação e a tradicional pose dos jogadores antes do jogo). Uma das novidades desta edição prende-se com a numeração, com a Panini a optar por fugir à tradição de listar os cromos do número 1 ao número 980, preferindo dividi-los por secção, de 1 a 20 no caso das seleções. Uma dessas secções inclui os cromos exclusivos da Coca-Cola, um dos principais patrocinadores da FIFA e do Mundial, que, em Portugal, são vendidos de forma diferente do resto do mundo, que distribui as figuras através do rótulo da embalagem. No nosso país, por conta das normas do sistema Volta, o colecionador só consegue aceder ao cromo através de pontos disponibilizados na aplicação da marca de bebidas, tendo de apresentar o talão de compra.
Em Portugal, cada saqueta, que contempla sete cromos, custa 1,5 euros, o maior valor de sempre de uma coleção da Panini. Nas grandes superfícies, uma caixa de oito saquetas custa 12 euros e, pelo menos nas primeiras semanas, o consumidor corria o risco de não conseguir encontrar cromos das seleções que se apuraram em março, dado que, naturalmente, a produção da Panini já tinha começado nessa altura. Se olharmos para a primeira edição comercializada em Portugal, a caderneta custava 25 escudos (12 cêntimos aos dias de hoje), número que passou a 1,24 euros em 1998, dois euros em 2010 e 4,50 euros em 2018, com cinco saquetas de oferta. Em 2022, a caderneta era vendida a 3,50 euros e incluía quatro saquetas. Agora, em 2026, o consumidor tem de gastar cinco euros para começar a coleção, tendo direito a quatro saquetas, ainda que a Panini tenha desenvolvido parcerias em diversos setores, com vista a “oferecer” a caderneta. Por exemplo, no dia 17 de maio, a edição diária do jornal Record vinha com a caderneta e oito cromos, a troco de 1,60 euros.
Em comparação com o Mundial-2006, o preço por saqueta de cromos disparou 275%, num período em que a inflação aumentou cerca de 50% em Portugal (a saqueta passou de 40 cêntimos em 2006 para os atuais 1,5 euros). Se o preço de cada saqueta tivesse acompanhado o aumento da inflação, o preço atual seria de 56 cêntimos, ao passo que, se o aumento real fosse 150%, o valor atual era de um euro, segundo cálculos da Rádio Renascença. Ainda assim, se calcularmos o preço de cada cromo, dado que esta é a primeira vez que uma coleção tem saquetas com sete cromos, é de 21 cêntimos, um cêntimo a mais do que acontecia no Qatar-2022 (um euro por cinco cromos). Recuando no tempo, o custo por cromo passou dos 12 cêntimos de 2014 para os 18 cêntimos em 2018, ainda que tenha aumentado apenas três cêntimos desde então. A tendência do aumento de cromos por saqueta tende a acompanhar a maior coleção de sempre, com o número total de cromos a passar de 597 para 980 em 20 anos, revelando um aumento de 310 cromos de 2022 para 2026.
Nesse sentido, completar a coleção custa, no melhor dos cenários (tirar, à primeira, todos os 980 cromos, sem repetidos), 210 euros, com o colecionador a precisar de adquirir 140 saquetas. Em 2006, completar a caderneta custava 48 euros (120 saquetas) e, em 2022, o valor total ficava pelos 134 euros (134 saquetas), menos 76 euros face a este ano. Contudo, numa coleção deste calibre, a probabilidade de não ter repetidos é substancialmente baixa, ainda que a Panini tenha revelado ao Observador que, nesta coleção, a probabilidade de calhar um cromo repetido é bem mais baixa, estratégia desenvolvida pela empresa para “facilitar” a tarefa do colecionador. Segundo o investigador Milton Jara, do Instituto de Matemática Pura e Aplicada brasileiro, terminar a coleção sem trocas de cromos deverá custar 1.446 euros, com o colecionador a precisar de 964 saquetas e 6.750 cromos, à luz dos cálculos do matemático. Na mesma onda está o estudo do professor Paul Harper, da Escola de Matemática da Universidade de Cardiff, que aponta para um investimento de 1.569 euros (7.316 cromos) sem trocas.
Caso o colecionador opte pelas trocas, se estas forem realizadas por duas pessoas, o preço cai 30%, para os 1.098 euros. Caso sejam cinco pessoas, o total desce 57%, fixando-se nos 674 euros, ao passo que, se forem dez, cifra-se nos 502 euros, baixando 68%. Nesse sentido, completar a coleção do Mundial-2026 não deverá custar menos de 500 euros, com o valor a aproximar-se dos 1.570 euros. Ainda assim, há papelarias que estão a optar por vender a coleção completa por valores entre os 300 e os 500 euros, algo que promete facilitar a missão dos colecionadores numa altura em que as saquetas escasseiam um pouco por todo o país, com o Observador a encontrar relatos de falta de stock em papelarias do Norte, da região de Lisboa, no Ribatejo e até no Alentejo. Nesse sentido, os consumidores estão a optar por comprar as saquetas em caixas, algo que também estará na origem da rutura do stock, ainda que a informação não tenha sido confirmada pela Panini. Passando pelo site português da marca, a palavra que mais salta à vista é “esgotado”, sendo que, à data de publicação deste artigo, a caderneta e todas as caixas disponíveis, que vão dos 14 (oito saquetas) aos 229 euros (caixa especial com 100 saquetas), estão esgotadas.
Bem no centro de Lisboa, a Papelaria Garrett tem sido assolada por este fenómeno, com os pacotes de 20 caixas (com 1.000 saquetas) a desaparecerem em menos de cinco horas. Há até quem tenha estado semanas sem ter cadernetas e cromos para venda, com esta rutura a alastrar-se para outros países, como Espanha, Alemanha e Brasil. E é no Brasil que nasceu uma das maiores “polémicas” relativa a esta caderneta de cromos da Panini, dado que, na seleção brasileira, não consta o nome e a fotografia de Neymar. Como é sabido, o astro brasileiro esteve em dúvida até ao anúncio da convocatória de Carlo Ancelotti, algo que terá influenciado as escolhas da Panini. Ainda assim, a Panini, que falhou em cinco brasileiros, garante que o jogador do Santos vai ter o seu próximo cromo, estando prevista a sua comercialização através dos cromos de atualização, que podem ser colocados, por uma das suas extremidades, em cima de qualquer outro cromo. Em sentido inverso, a empresa italiana mostrou-se totalmente certeira no que toca à Seleção portuguesa, dado que todos os jogadores presentes na caderneta vão competir na América do Norte.
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Por ser um negócio tão universal, que atravessa mais de 130 países, a caderneta de cromos do Mundial acaba por alimentar os mercados paralelos que, por esta altura, são bastante requisitados pelos consumidores por conta da rutura de stock. Nesse sentido, um cromo de Lionel Messi ou Cristiano Ronaldo pode custar 200 euros em plataformas como o OLX, o eBay ou a Vinted, sendo que, na Argentina, há até relatos da ausência da figura de Messi, com os especialistas a afirmarem que a Panini optou por reduzir a produção do cromo do capitão para alimentar o negócio. Dentro dos centros de produção da Panini, a impressão dos cromos decorre durante praticamente as 24 horas do dia, com a invenção da máquina que ainda hoje é utilizada a pertencer aos irmãos Benito e Giuseppe Panini, há 60 anos. Nesse processo, as folhas são impressas com centenas de jogadores, antes de serem cortadas e divididas em pequenas pilhas para serem misturadas pela máquina em ciclos de rotação rápida.
TikTok, Ronaldo e Messi e esperar um ano: como se explica o fenómeno dos cromos
É nas redes sociais que Gil Ferreira partilha a sua paixão pelos cromos e o mundo das coleções, inicialmente através do Canal Cromo, que conta com quase 50 mil subscritores, e atualmente através de outras plataformas, como o Instagram e o Facebook. A paixão pelas coleções de cromos começou aquando do Mundial-2002 e nunca mais desapareceu, a ponto de Gil ter, aos dias de hoje, todas as coleções dos Mundiais comercializadas pela Panini em território português. Em relação à mais recente, o criador de conteúdo completou-a em pouco mais de um mês, ainda que esta coleção seja “uma loucura”. “Neste momento é impossível encontrar caixas, cromos e cadernetas. Vários criadores de conteúdo começaram a postar conteúdo no TikTok. Tem havido muitos vídeos virais em Portugal, o que leva as gerações mais novas a ir atrás da coleção. O facto de ser o último Mundial do Messi e do Ronaldo também ajuda. Antes de começar a ser vendida, pensava que esta coleção ia ser um flop de vendas devido ao preço, mas foi completamente o contrário”, começou por dizer ao Observador.
Quanto aos preços praticados no mercado nacional, o dono do Canal Cromo ressalvou que, “desde 2018, que as cadernetas custam cinco euros”, exemplo que vai em sentido contrário ao que acontece na Alemanha, onde o preço se fixa nos dois euros, mas sem starter pack (caderneta vendida com saqueta). Quanto aos repetidos, é tudo uma questão de sorte. “Num dos vídeos abri dez starter packs e, em 70 cromos, não saiu nenhum repetido. A chance de sair era grande porque é um produto selado. Depois, em duas caixas seladas, na primeira saiu-me seis cromos repetidos em 350 e na segunda foram oito. Comparando com a Liga portuguesa, muitas vezes encontras 30/40 repetidos numa caixa de 400 cromos. É uma redução imensa de cromos repetidos, mas isto depende de como a pessoa quer fazer a sua coleção. Nem toda a gente compra uma caixa de uma vez. Na minha opinião, comprar saquetas individualmente acresce à probabilidade de repetidos. Abri duas caixas de 50 e, na primeira, tive 150 repetidos, mas na segunda já só tive oito. Podia ter tido muito azar e encontrar uma caixa praticamente gémea da primeira, o que era terrível. Não é linear, mas a minha vida como colecionador diz que comprar caixas seladas é mais proveitoso do que saquetas individuais”, sublinhou.
https://www.youtube.com/watch?v=Qif5C_IGmQM
“No último Mundial vimos uma grande diferença, que foi a Panini optar por uma cor uniforme em todo o cromo. Antes tínhamos um cromo mais clássico, com fundo de estádio ou estúdio. Atualmente são cores mais vivas, o cromo tenta inspirar-se nas cartas do FIFA porque a Panini perdeu parte do público juvenil. A maior parte dos colecionadores são os adultos. Em 1982 e 1986 as páginas só tinham uma cor e, a partir de 1990, tivemos uma modernização dos cromos. Em 2022 passámos para a cor uniforme, que era o azul-roxo. Agora é um azul uniforme. Coleciono a caderneta virtual desde o Euro-2008. A Topps fê-lo nos primeiros anos com a Champions, mas depois acabou. Na Panini, a partir de agora há um conteúdo pago, com saquetas deluxe. Acho que nenhuma empresa está interessada em fazer cadernetas virtuais. A Topps tem uma aplicação – Topps Total Football – com cartas que podem ser impressas e recebidas em casa. Para imprimir tens que pagar e existe um marketplace em que vais ganhando tokens conforme o teu desempenho. É tipo FIFA. Essa é a conexão que já existe entre o mundo virtual e o mundo físico”, acrescentou Gil, sublinhando que, nesta coleção, os “cromos das cidades-sede e dos estádios não estão na coleção física”.
“As pessoas associam muito o Mundial à Panini, é um casamento perfeito. A competição é especial. O Europeu e a Champions não têm essa magnitude. A coleção do Europeu feminino de 2023 tinha 300 e poucos cromos. No Mundial de Clubes o material dos cromos era diferente, com papel mais lúcido e com brilho, havia menos cromos de jogadores por equipa (15) e nem todas as equipas estavam licenciadas. O Euro-2023 foi a primeira coleção da Topps dedicada a Europeu feminino e acho que foi bem conseguida. Em termos de Panini, a primeira coleção foi a do Mundial-2011, que é muito difícil de encontrar porque só foi lançada na Alemanha e na Áustria. A coleção completa com os cromos por colar anda na casa dos quatro dígitos. Com os cromos colados está à venda por 500 euros. É muito rara porque houve pouca impressão. De 2006 para cá, nenhuma caderneta chegou perto destes valores. A caderneta colada do Mundial-2022 custa cerca de 80 euros”, partilhou o colecionador com o Observador.
Com o preço elevado e o grande número de cromos, houve colecionadores que optaram por não comprar já a caderneta da Panini, preferindo fazê-lo daqui a um ano. De acordo com o Canal Cromo, esta estratégia é muito utilizada, com os colecionadores a esperarem que os preços do mercado baixem para fazer a sua coleção. “Vai haver, certamente, muitos vendedores a venderem. Isto é uma febre momentânea. O Mundial do colecionismo começa um mês e meio antes e a tendência é para baixar a febre quando a competição começar. O que pode alterar isso é Portugal chegar longe. As pessoas acreditam que Portugal pode chegar muito longe”, explicou antes de o Observador lhe lançar um desafio: é possível comprar a caderneta completa do Euro-2016, que contempla dois importantes fatores inflacionários — sucesso de Portugal e o facto de ter sido há dez anos? A resposta é afirmativa e os preços encontram-se abaixo dos 300 euros. “Tens sets completos à venda, mas quanto mais antigo for, mais difícil de encontrar vai ser. Não é linear. Por exemplo, a do Mundial-2010 é mais fácil de encontrar que a de 2014. Se, em 2026, quiseres começar a coleção do Euro-2026, tens de ir para sites internacionais de trocas. Os cromos brilhantes eram raríssimos e, neste momento, são caríssimos”, completou.
Como solução para completar a coleção, Gil Ferreira sugere os “eventos de trocas que acontecem semanalmente em Lisboa e no Porto”. “A maioria das pessoas tenta terminar a coleção até ao Mundial começar. Esta coleção está igual à de 2022. De zero a dez dou sete. A Panini investiu em criadores de conteúdos conhecidos no Instagram. Foi surpreendente porque a publicidade só começou a aparecer depois de a Topps ter anunciado a parceria com a FIFA para 2031. Nos últimos meses tem havido um crescimento exponencial, mesmo em eventos. Estive recentemente num evento de dois dias no estádio do V. Guimarães, que também tinha outras coleções e outro tipo de colecionismo, como Pokemon e One Piece. Participaram 3.000 pessoas. O próximo grande evento será no dia 18 de julho em Ovar”, enalteceu.

Burlas, mercado paralelo e o futuro da coleção com a mudança para a Topps
Com o sucesso da coleção de cromos do Mundial-2026 veio um aumento significativo do número de burlas, com o Portal da Queixa a bater recordes neste sentido. “De quatro em quatro anos existem os paraquedistas, que andam um bocadinho perdidos. Quem cai em burlas são os colecionadores que chegam ao hobby e não sabem o que fazer. Tenho visto praticamente todos os dias no Facebook imensos perfis de burlas. A pessoa tem que ter mesmo muito cuidado. No mercado paralelo há cromos feitos em PDF. A coleção é caríssima e o colecionismo anda de mãos dadas com o negócio. A Panini vê-nos como o público alvo. O objetivo deles não é fazer-nos felizes, é ter lucro. Quem vem para o colecionismo e acha a coleção cara, que não se meta nisto”, alertou o criador de conteúdo.
Quanto ao futuro, Gil considera que a mudança dos direitos do Mundial da Panini para a Fanatics, a empresa-mãe da Topps, a partir de 2031, pode acarretar problemas. “A Topps já tem grande parte do monopólio de direitos (UEFA, Premier League e FIFA). O que espero é uma saturação do mercado. Paralelamente às coleções de cromos, que não é o forte deles, a Topps tende a ‘americanizar’ as coleções de cromos vendendo cartas. A Topps faz isto desde o início de 2021, quando começou a produzir muitos sets de coleções da UEFA. São muitas coleções lançadas, o que está a saturar o mercado. 2031? Espero uma saturação do mercado em relação aos produtos americanos, mas espero que haja melhoria em termos de cromos. A coleção da Premier League foi um grande êxito. Espero que não se foquem apenas nas cartas. A experiência com o Euro-2024 foi um tiro ao lado”, explicou.
Quanto à Panini, restam “os direitos das ligas portuguesa, espanhola e italiana, Brasileirão e Libertadores”. Para o fundador do Canal Cromo, falta “agressividade no mercado” à empresa italiana, que podia “tentar recuperar os direitos”. “Não os vejo a fazê-lo e isso só vai aumentar o monopólio da Topps, o que não favorece os consumidores”, concluiu em conversa com o Observador.
“A situação vai estar praticamente normalizada”: Panini diz que coleção é “um pouco mais cara” e está “tranquila” para 2031
Para a Panini, a rutura de stock que está a acontecer é tudo menos normal, com a empresa a considerar que a grande procura tem origem na “rapidez com que se despertou o interesse”, dado que este Mundial tem 48 seleções, o que gerou “maior interesse nos 132 países onde há a coleção”. “A campanha publicitária é a que realizamos regularmente para este tipo de eventos. Estamos a trabalhar intensamente para colmatar a atual escassez através da reposição contínua. A gráfica está a trabalhar 24 horas por dia e sete dias por semana. Dentro de poucos dias a situação vai estar praticamente normalizada. Ainda assim, reforço que o produto está a ser reposto de forma gradual”, explicou ao Observador Lluís Torrent, diretor-geral da Panini Espanha e Portugal, que se confessou “surpreendido” pelo atual fenómeno. Nesse sentido, a Panini está a atuar numa situação limite, com três turnos diários, prevendo-se que a normalização aconteça nas próximas duas semanas.

Questionado sobre o aumento de preços, o diretor-geral recusou essa ideia, explicando que “os cálculos têm de ser feitos corretamente”. “Há um número grande de seleções, como todos sabemos. Tem de haver o mesmo número de cromos para cada seleção. Obviamente vai custar um pouco mais completar a coleção, porque há mais cromos, mas no último Mundial a saqueta tinha cinco cromos e custava um euro. Desta vez são sete e cada uma custa 1,50 euros, ou seja, 21 cêntimos cada cromo. Tendo em conta o aumento do custo de vida ao longo destes quatro anos, não é assim tão exagerado. As saquetas são aleatórias. Há um mito de que alguns cromos nunca aparecem e que outros aparecem com mais frequência. Isso é categoricamente falso. Os cromos são impressos e selados aleatoriamente, todos na mesma quantidade. Isto significa que, por ser aleatório, quando vais comprar no ponto de venda, às vezes ficas na esperança de conseguir o cromo especial daquele jogador de que tanto gostas. Todos os cromos saem exatamente da mesma forma e da mesma maneira. Não há diferença”, acrescentou.
“Temos de estar muito atentos para garantir que não há pirataria. Por um lado, lamentamos imenso mas, por outro lado, isso significa que há muito interesse e que as pessoas querem esse produto e fazem coisas que não deviam para o conseguir. O mundo digital é, obviamente, um domínio que, como todos sabemos, está a tornar-se cada vez mais dominante e a crescer. Têm surgido indícios que sugerem que o mundo digital vai suplantar o mundo físico, mas não é esse o caso, felizmente. A surpresa de abrir a saqueta, de ter o Cristiano [Ronaldo], o Lamine [Yamal] ou quem quer que seja que se está à procura, prende o colecionador, especialmente o que tem filhos com idades entre os 6 e os 14 anos. Ainda assim, há mais velhos que também o fazem, especialmente agora no Mundial, em que há muitos pais e avós que estão a voltar a colecionar e que estão a incentivá-lo. Ter o cromo faz com que aquele rapaz ou aquela rapariga tímida se torne mais sociável e passe a fazer parte do grupo de amigos. É uma forma de socializar”, referiu.
As coleções acabam sempre. Quem quiser completar a coleção pode fazê-lo. Em todas as coleções há instruções na caderneta para solicitar os chamados cromos finais, que dependem do tipo de coleção. Se for uma coleção que tenha apenas 180 cromos, o número de cromos que se pode solicitar é 20 ou 25. Mas para uma coleção tão grande como a do Mundial, pode-se encomendar muitos mais. Obviamente recebemos as cartas com a lista dos cromos em falta e fornecemo-los”, explicou o empresário catalão de 77 anos que está no cargo desde 1979.
Quanto à perda dos direitos a partir de 2031, Lluís Torrent assumiu-se “tranquilo”. “Não vai acontecer nada de importante, garanto. Perdemos os direitos? Sim, mas não perdemos os direitos da seleção espanhola, não perdemos os direitos da Seleção portuguesa e não perdemos os direitos de várias seleções. De qualquer forma, não posso falar mais. Não se preocupem que nós vamos continuar a fazer coleções”, garantiu, explicando que a Panini lança “cerca de 60 coleções” todos os anos no mercado ibérico, embora o futebol “marque o ritmo” e tenha as “coleções mais vendidas”. “Temos, por exemplo, a série de televisão Bluey ou Stitch, que é da Disney, ou Stranger Things. Até ao final do ano vamos lançar o Dragon Ball Daima. Há imensas coleções, de todo o tipo, que não têm nada a ver com futebol”, completou.
A paixão que começou no tempo da farinha ganhou vida depois da reforma: “Rei dos Cromos” é, por estes dias, uma das atrações do Rossio
É na famosa baixa lisboeta que a paixão dos cromos ganha um destaque particular nas tardes quentes de maio, quando o sol e a temperatura de verão se fazem sentir e convidam a trocar a rua pelos banhos gelados e sofá de casa. Ainda assim, é por entre os muitos turistas que caminham pela capital portuguesa que se faz o negócio dos cromos, seja junto aos Restauradores ou no Rossio. É junto ao Teatro Nacional Dona Maria II que se encontra, junto a um banco de rua, um dos negócios mais antigos no que respeita à venda e troca de cromos. António e Fernanda são o famoso casal Matias, com o homem a intitular-se de “Rei dos Cromos”, nomenclatura que pode ser polémica e induzir à polémica por estas bandas. Contudo, o que salta à vista junto ao Rossio é que, numa das tardes de calor em Lisboa, o único comerciante é António, um homem que esteve emigrado em França e já fez um pouco de tudo, desde o fabrico de escapes de automóveis até ao trabalho na construção. Desde há vários anos que se dedica aos cromos, algo que começou a fazer depois de se ter reformado, apesar de os colecionar desde novo, na altura em que os adesivos se “colavam com farinha”.
https://observador.pt/especiais/monarquicos-e-republicanos-frente-frente-motivo-um-cromo/
Foi através de um conhecido que, curiosamente, também tinha a sua banca no Rossio, que António entrou no negócio, começando por “guardar os molhos para vender e trocar”. Inicialmente, começou com uma banca na estação do Rossio, mas acabou por se chatear depois de ter pagado duas multas por falta de licença e teve de encontrar um espaço alternativo. Assim, chegou às imediações do teatro e começou a pagar a licença do banco, que custa “cerca de 90 euros”. “Fui o único a quem pediram licença”, exclamou ao Observador. “Já vendi milhares de cromos, e não é só de futebol. O cromo que foi mais difícil de encontrar foi o do Cristiano Ronaldo, do Euro-2004. Na altura vendi barato, depois tornou-se muito mais caro… não sabia o preço dele, fui enganado (risos). Agora é capaz de valer 500 euros. No Mundial-2022 vendi o cromo de ouro do Ronaldo por 500 euros”, revelou o senhor Matias, acrescentando que também chegou a vender “o Neymar por 300 euros”.
Apesar de, em grande parte dos dias, a fila junto à banca do “Rei dos Cromos” saltar à vista por entre a multidão que passeia pela zona, muitos colecionadores optam por deixar a lista dos cromos em falta junto de António Matias, passando noutra altura para os recolherem. De forma natural, Ronaldo é dos mais requisitados, embora, por esta altura, o stock esteja limitado. Afinal, os problemas relacionados com a distribuição também afetam os comerciantes de rua. “Tenho clientes de Marrocos, do Teatro e até o Marcelo Rebelo de Sousa me chegou a comprar. Isto torna-se uma família, quando vêm sempre aqui e já não querem outra coisa”, acrescentou, antes de dizer que “José Reza, Maria Rueff e Ricardo Pereira” são os outros dos famosos que se deslocam à sua banca.

A paixão e a venda de cromos vai continuar nas próximas semanas e mantém-se durante todo o ano, porque, apesar de o futebol e as grandes competições serem o maior chamariz, há muitas outras coleções que tendem a conquistar os portugueses. Quanto a António Matias, o dia começa cedo e deverá manter-se assim até para lá do final do Mundial. “Quando chego a casa agarro-me aos cromos e, às vezes, só me vou deitar às 2/3 horas… agarrado aos cromos”, concluiu.



