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Sem participação social, não há futuro para o SNS

O futuro do Serviço Nacional de Saúde não será decidido só nos hospitais, ministérios ou gabinetes técnicos, mas também pela capacidade de envolver os cidadãos nas políticas de saúde.

José João Mendes
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No final do ano passado, o Conselho Nacional de Saúde (CNS), em parceria com a Organização Mundial da Saúde Região Europeia, o European Observatory on Health Systems and Policies e a Escola Nacional de Saúde Pública da NOVA, publicou o relatório “Participação Social em Saúde — Como promover e desenvolver em Portugal?” sobre o futuro da governação em saúde em Portugal.

A sua publicação surge num momento particularmente sensível para o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e para os sistemas de saúde europeus, marcado por diversos fatores como o envelhecimento populacional, a pressão sobre os profissionais de saúde, as dificuldades de acesso e a erosão de confiança institucional agravada no período pós-pandémico. O relatório parte de uma ideia central: os desafios contemporâneos da saúde já não podem ser resolvidos apenas através de respostas administrativas, hospitalares ou tecnocráticas. A sustentabilidade futura do SNS dependerá da capacidade de envolver cidadãos, comunidades e instituições numa lógica de corresponsabilização democrática e participação estruturada.

No nosso país, discutimos frequentemente o SNS em termos de financiamento, listas de espera, urgências, recursos humanos ou tecnologia. Todos estes temas são importantes, mas há uma questão menos debatida: quem participa verdadeiramente na construção das políticas de saúde?

O relatório apresenta uma mudança de paradigma. Não trata a participação como um gesto simbólico de consulta pública, mas como uma dimensão constitutiva da governação em saúde. A ideia é simples. Um sistema de saúde deve prestar cuidados às pessoas, mas deve também ser construído com elas.

Durante décadas, o sistema organizou-se sobretudo segundo uma lógica vertical, técnica e centralizada, em que o cidadão surgia essencialmente como utilizador ou beneficiário. O relatório propõe outra visão: cidadãos, profissionais, academia e organizações locais devem participar de forma estruturada no planeamento, monitorização e avaliação das políticas de saúde. Não se trata de enfraquecer o conhecimento técnico, mas de conciliá-lo com legitimidade democrática.

Esta mudança torna-se particularmente importante perante os desafios estruturais que Portugal enfrenta. O país envelhece rapidamente, a doença crónica domina a carga de doença, o isolamento social aumenta e o SNS vive de uma forte pressão operacional. Nenhum sistema responderá adequadamente a estes desafios apenas com mais centralização ou atos médicos. A sua sustentabilidade futura dependerá também da capacidade de construir comunidades mais informadas e corresponsáveis pelos seus percursos de saúde.

É neste contexto que o relatório insiste na importância da saúde local. A criação de conselhos locais de participação comunitária é uma das suas ideias mais relevantes. O documento propõe um desenvolvimento progressivo destes mecanismos até 2030, envolvendo municípios, juntas de freguesia, escolas, farmácias comunitárias, associações e estruturas sociais locais. Vários sistemas de saúde europeus e norte-americanos têm vindo a reforçar estruturas locais de participação comunitária e coordenação territorial em saúde, reconhecendo que a proximidade entre instituições e cidadãos constitui um fator crítico de confiança e sustentabilidade.

O relatório identifica corretamente uma fragilidade histórica portuguesa: a baixa cultura de participação cívica e a excessiva centralização institucional. A participação social não nasce por decreto, exige tempo, confiança e envolvimento comunitário.

O próprio Conselho Nacional de Saúde é apresentado como uma experiência ainda em construção. A avaliação apoiada pela OMS reconhece progressos desde 2017, mas identifica limitações importantes: reduzida representatividade da sociedade civil, fraca ligação territorial e pouca visibilidade pública. Estas limitações mostram que a democracia sanitária é ainda incipiente em Portugal.

É precisamente neste ponto que o papel das universidades assume importância estratégica. O relatório atribui às instituições académicas e aos centros de investigação uma função estruturante na produção e aplicação de conhecimento científico associado à participação em saúde, incluindo metodologias participativas e desenvolvimento de competências cívicas e comunicacionais. E num momento cada vez mais marcado pela desinformação e erosão da confiança institucional, estas podem assumir-se como espaços de mediação cívica entre conhecimento científico e sociedade.

As universidades passam a ser chamadas a tornarem-se plataformas de mediação entre conhecimento científico, sociedade civil e políticas públicas. Neste contexto, os estudantes da área da saúde devem ser entendidos como agentes fundamentais desta transformação estrutural., com o relatório a sugerir uma mudança profunda na sua formação. Mais do que formar técnicos altamente diferenciados, as universidades terão de preparar profissionais com competências clínicas, comunicacionais e comunitárias, capazes de trabalhar em redes colaborativas e junto das comunidades.

Isto representa uma alteração da própria cultura universitária em saúde. Durante décadas, muitos modelos formativos centraram-se predominantemente na doença, na instituição hospitalar e na especialização técnica. O relatório propõe uma formação mais próxima das comunidades, da prevenção, da saúde pública e da participação cidadã. Os atuais alunos da área da saúde serão profissionais de um SNS mais complexo, digital, descentralizado e dependente de redes colaborativas e comunitárias. Terão de ser formados numa lógica participativa e comunitária, para se tornarem atores centrais da transformação do sistema.

No fundo, este relatório compreende algo essencial: a crise contemporânea dos sistemas de saúde não é apenas financeira ou operacional. É também uma crise de confiança, proximidade e participação. A pandemia mostrou que sistemas de saúde sem confiança pública têm maior dificuldade em mobilizar cidadãos, combater desinformação e garantir adesão coletiva às políticas de saúde. Por isso, a participação social deve ser entendida como condição de sustentabilidade do SNS.

O maior desafio, contudo, continua a ser cultural e político. Implementar esta visão implica redistribuição de poder, descentralização real, mudança organizacional e capacidade de construir confiança duradoura entre instituições e cidadãos. Talvez o verdadeiro mérito deste relatório esteja precisamente aí: recordar-nos que sem participação social, o SNS corre o risco de continuar público no financiamento, mas distante das pessoas que deveria representar.