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Assédio laboral na Enfermagem: um problema que o SNS já não pode mais ignorar

Quando faltam profissionais, aumenta a pressão sobre as equipas e sobre quem gere os serviços. Criam-se ambientes de tensão permanente, desgaste psicológico e conflito.

Luís Silva
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Faltam mais de 14 mil enfermeiros no Serviço Nacional de Saúde. O dado, recentemente divulgado pela Ordem dos Enfermeiros, não é apenas um número preocupante. É o retrato de um sistema sob enorme pressão, que continua a sobreviver à custa do sacrifício diário dos seus profissionais.

Quem trabalha no terreno sabe bem do que falamos. Serviços permanentemente desfalcados, equipas reduzidas ao limite, horários sucessivamente ultrapassados e profissionais exaustos física e emocionalmente. Há enfermeiros a trabalhar para além das 35 horas semanais contratadas, acumulando turnos e responsabilidades, porque simplesmente não existem recursos humanos suficientes para assegurar os cuidados necessários.

E é aqui que começa um dos problemas mais graves e silenciosos do SNS: o crescimento do assédio laboral.

Quando faltam profissionais, aumenta a pressão sobre as equipas e sobre quem gere os serviços. Criam-se ambientes de tensão permanente, desgaste psicológico e conflito. Multiplicam-se situações de intimidação, pressão emocional, desvalorização profissional e medo.

Segundo dados divulgados pela Autoridade para as Condições do Trabalho, em 2025 foram registadas 3.481 queixas relacionadas com assédio laboral. Apenas 20 deram origem a contraordenações. Na saúde, e particularmente na Enfermagem, esta realidade assume contornos profundamente preocupantes.

O assédio laboral não é um conflito menor nem um problema de personalidade. É uma forma de violência no trabalho. E deixa marcas profundas.

Os enfermeiros vítimas de assédio enfrentam ansiedade, depressão, desgaste emocional extremo, perturbações do sono, isolamento social e perda de motivação. Muitos acabam por abandonar serviços, pedir baixas prolongadas ou, em casos mais graves, desistir da própria profissão.

Ao mesmo tempo, assistimos à violação frequente de direitos laborais básicos, como o direito ao horário flexível previsto na lei. A pressão para “aguentar”, “assegurar” e “não deixar cair o serviço” tornou-se, em demasiadas instituições, um mecanismo silencioso de normalização do abuso.

Mas, importa dizer isto com clareza: não podemos continuar a exigir aos enfermeiros que salvem diariamente o SNS à custa da sua própria saúde física e mental.

O impacto desta realidade vai muito além dos profissionais. Equipas desgastadas significam serviços fragilizados, ambientes tóxicos, aumento do absentismo, perda de qualidade assistencial e maior risco para os doentes.

O chamado “mobbing” — a prática continuada de humilhação, pressão psicológica e perseguição no local de trabalho — continua presente em muitos contextos profissionais. Pode surgir entre colegas, entre chefias e subordinados ou em estruturas hierárquicas desequilibradas onde o medo substitui a liderança.

Quem cuida dos outros não pode continuar a trabalhar adoecido, desvalorizado e sem proteção.

Combater a falta de enfermeiros e erradicar o assédio laboral tem de ser uma prioridade nacional. Defender os enfermeiros é defender o SNS. E defender o SNS é garantir cuidados de saúde seguros, humanos e dignos para todos os portugueses.