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A cova que Passos está a cavar

A acumulação de aparições sem consequência sem risco, sem cargo, sem  responsabilidade, vai esvaziando a autoridade que uma vez teve.

Vasco Osório de Queiroz
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“O postiço fica sem nada: fica sem integridade, fica como um prostituto sem caráter,  sem reduto de pensamento, simplesmente vendido ao aplauso que o momento lhe possa  fornecer.” A frase é de Pedro Passos Coelho, dita na terça-feira, no auditório da  Faculdade de Direito de Lisboa. Quem o ouvia na primeira fila era André Ventura. Se  há ironia no ar, é densa.

Porque a descrição serve, involuntariamente, como auto-retrato.

Passos escolheu aparecer ao lado de Ventura e foi ao lado de Ventura que criticou a  falta de “ritmo” do Executivo, num evento que era, formalmente, uma ocasião  académica sobre constitucionalismo. A presença de Ventura não foi acidental nem  logística. Foi uma escolha. E as escolhas dizem sempre mais do que os discursos.

O diagnóstico que foi lá fazer tem a substância política do agrado perpétuo, o líder que  governa para as sondagens, o discurso que nunca diz não. Tudo isso existe. Mas Passos  escolheu dizer isto ali, com aquela companhia, naquele tom. E ao fazê-lo, cedeu ao  mesmo pecado que estava a denunciar: preferiu o aplauso da plateia ao rigor da  mensagem. Ventura não esperou vinte e quatro horas para cobrar o favor, afirmando  publicamente que Passos se estava a referir ao Governo. Ninguém pode dizer que foi  uma surpresa. Era o único desfecho possível.

Este é o padrão que se repete. Em março, numa entrevista ao ECO, a primeira em mais  de oito anos, Passos defendeu que o Governo deveria ter procurado entendimentos com  o Chega e a IL para garantir reformas estruturais. Depois vieram outras intervenções,  sempre numa linha de crescente acidez contra quem governa. Montenegro respondeu  sem dizer o nome, desafiando quem tiver um caminho diferente e alternativo a  apresentar-se. As eleições directas no PSD realizaram-se. Passos não se candidatou.  Mas também não parou.

O que fica de cada intervenção é menos do que aquilo que havia antes dela. É aqui que  reside o verdadeiro problema de Passos. Não é que esteja errado em tudo o que diz. É que a acumulação de aparições sem consequência sem risco, sem cargo, sem  responsabilidade vai esvaziando a autoridade que uma vez teve. A crítica feita de fora,  repetida sem proposta alternativa clara, transforma-se progressivamente em ruído. E o  ruído, por mais virtuoso que seja na intenção, serve sobretudo quem tem interesse em  amplificá-lo.

Montenegro respondeu no debate quinzenal com a metáfora do corredor de fundo, do  atleta com endurance que sabe que numa maratona não se sprinta nos primeiros tempos.  É uma resposta pouco inspirada, mas politicamente inteligente. Não eleva o conflito,  não dá combustível, não transforma Passos em mártir. É a resposta de quem governa  para quem comenta.

E é exactamente essa a distinção que Passos parece ter perdido de vista: governar e  comentar são exercícios diferentes, com lógicas diferentes e com custos diferentes.  Quem governa erra em público e paga o preço. Quem comenta pode dizer tudo e é

precisamente por isso que o comentário permanente, sem o contrapeso da  responsabilidade, acaba por desgastar não o alvo, mas quem o faz.

Passos foi primeiro-ministro num dos períodos mais duros da democracia portuguesa.  Essa é uma credencial real. Mas credenciais não se acumulam, consomem-se. E a este  ritmo, com esta frequência, com este tipo de palcos, Passos está a gastar o capital que  lhe resta numa série de intervenções que geram títulos de manhã e esquecimento à tarde.

Há uma cova a ser cavada nesta história. E a pá está nas mãos dele.