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O veredito do fantasma

Passos Coelho não é um candidato em espera. É um espelho. E a imagem que a classe política e o país lá veem é insuportável de encarar.

Rui Sampaio
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O silêncio de Pedro Passos Coelho nunca foi uma ausência, foi sempre uma incubação. Na política portuguesa, onde a sobrevivência mediática exige uma tagarelice diária e uma opinião sobre tudo, a recusa em participar no ruído transformou o antigo primeiro-ministro num fenómeno psicológico invulgar. Sempre que ele decide falar, o sistema não se limita a ouvi-lo. O sistema sofre um espasmo. As suas intervenções recentes confirmam esta regra, operando menos como declarações políticas e mais como testes de esforço à maturidade institucional do país.

Para compreendermos a coreografia de pânico que se instala, na esquerda que o diaboliza e na direita que se encolhe, é preciso ignorar a espuma dos comentadores e atentar na mecânica do poder. O atual ecossistema político, ancorado num centro que gere equilíbrios de curto prazo, especializou-se na administração de paliativos. Discute-se a décima da taxa, o bónus mensal, o cheque setorial. É uma política de anestesia. Quando Passos Coelho surge, traz consigo algo que o atual debate excluiu por conveniência: a gravidade.

O que ele afirmou recentemente não é uma provocação reacionária, como a oposição logo tentou enquadrar, mas uma constatação factual que a governação contemporânea tenta desesperadamente ocultar. Portugal atingiu um paradoxo histórico: consolidou uma estabilidade contabilística superficial enquanto presencia o colapso estrutural das funções soberanas. Temos impostos de padrão nórdico a financiar serviços públicos de matriz balcânica.

Neste contexto, o discurso de Passos Coelho rasga a ilusão de ótica do “contas certas”. Ele expõe que um Estado não é forte apenas porque não entra em bancarrota técnica, é falhado se, cobrando o máximo histórico em receita fiscal, se revela incapaz de garantir saúde, justiça ou segurança sem empurrar o cidadão para o setor privado. A ferida que o antigo líder do PSD toca não é a da austeridade passada, mas a da mediocridade presente.

A reação partidária às suas palavras é, por isso, um compêndio de psicanálise. Para o Partido Socialista, Passos Coelho é o espantalho utilitário. A esquerda portuguesa há muito que deixou de ter um projeto transformador para o futuro, substituindo-o pela evocação perpétua do “tempo da Troika”. Ao agitar o fantasma de Passos, a esquerda tenta mobilizar o eleitorado pelo medo, camuflando a sua própria incapacidade de reformar o país ao longo da última década.

Mas é na direita que o sintoma se revela mais severo. O atual PSD sofre de um trauma freudiano em relação ao seu antigo líder. A liderança atual procura uma quadratura do círculo impossível: quer os votos da moderação, mas teme a fuga do eleitorado para as margens radicais, quer ser vista como reformista, mas foge de qualquer rutura que incomode corporações ou lóbis instalados. Quando Passos fala, com a clareza cortante de quem já não tem eleições para ganhar, expõe a timidez tática dos seus sucessores. Ele lembra a uma direita complexada que a moderação não significa a aceitação pacífica dos dogmas do adversário.

Não há, no discurso de Passos Coelho, o apelo de um populista que promete soluções fáceis para problemas complexos, o oxigénio que alimenta o radicalismo atual. Pelo contrário, há a secura de quem avisa que a fuga à realidade tem sempre um preço diferido. É exatamente por isso que as suas palavras geram tanta rejeição no espaço público. O eleitorado português, habituado a ser tratado como um menor de idade pelo Estado-providência, detesta ser confrontado com a exigência da responsabilidade.

A tragédia do debate público português não é Pedro Passos Coelho continuar a ensombrar a política nacional, é o facto de, dez anos após a sua saída do poder, o país não ter produzido um único líder político, à esquerda ou à direita, com a mesma densidade conceptual e a mesma imunidade ao ciclo noticioso de 24 horas.

Aqueles que analisam as suas declarações à procura de sinais táticos para uma candidatura presidencial ou uma conspiração interna no PSD não estão apenas errados, estão a medir um problema tectónico com uma régua de plástico. Passos Coelho não é um candidato em espera. É um espelho. E a imagem que a classe política e o país lá veem refletida, a de um país viciado no declínio suave, assustado com o seu próprio futuro, é insuportável de encarar.