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As sociedades modernas e os cérebros do Paleolítico

Talvez seja precisamente a tensão entre instituições modernas e cérebros ancestrais que define grande parte da instabilidade política contemporânea.

Paulo Finuras
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Há uma ideia profundamente otimista que domina grande parte do pensamento político moderno: a de que os seres humanos se adaptam rapidamente às mudanças sociais que eles próprios criam.

Porém, a evidência da psicologia evolucionista, da antropologia e mesmo da ciência política sugere algo muito diferente. As sociedades humanas mudaram a uma velocidade extraordinária. A natureza humana, muito menos.

Este talvez seja um dos factos mais importantes, e simultaneamente mais ignorados, para compreender as tensões políticas e sociais do século XXI.

Durante mais de 95% da existência do Homo sapiens, os seres humanos viveram em pequenos grupos tribais relativamente homogéneos, normalmente compostos por algumas dezenas ou poucas centenas de indivíduos. A sobrevivência dependia de relações face a face, reputação direta, alianças pessoais, cooperação limitada ao grupo e elevada vigilância social. Foi nesse contexto que evoluíram os mecanismos psicológicos que ainda hoje moldam o comportamento humano.

A nossa mente não foi desenhada para democracias liberais de massas, redes sociais globais, burocracias estatais gigantescas, mercados financeiros abstratos ou organizações multinacionais. Foi moldada para tribos!

A política moderna raramente integra esta realidade de forma séria.

Grande parte das teorias políticas tradicionais continua a partir implicitamente da ideia de que os seres humanos são agentes essencialmente racionais, facilmente moldáveis pelas instituições, pela educação ou pelos incentivos económicos.

Mas a história política sugere algo bastante mais desconfortável, isto é, que  as instituições modernas não eliminam os mecanismos ancestrais da mente humana. Limitam-nos. Canalizam-nos. Tentam civilizá-los. E muitas vezes falham.

Do ponto de vista evolucionista, vários fenómenos políticos contemporâneos tornam-se muito mais compreensíveis.

O tribalismo político, por exemplo, não surge apenas de ignorância ou polarização mediática. Tem raízes profundas em mecanismos ancestrais de distinção entre “nós” e “eles”, fundamentais para a sobrevivência em ambientes competitivos ao longo da evolução humana.

A tendência para demonizar adversários políticos, atribuir intenções malévolas ao exogrupo ou proteger irracionalmente o próprio grupo ideológico não é uma aberração moderna. É, na verdade, uma manifestação contemporânea de predisposições muito antigas.

Da mesma forma, o crescimento do populismo em períodos de insegurança económica, ameaça cultural ou perceção de caos social também não é particularmente surpreendente quando observado através de uma lente biopolítica.

Em ambientes ancestrais marcados por ameaça e instabilidade, a procura de liderança forte (na figura do “grande homem”) centralização de poder e maior coesão grupal podia aumentar as probabilidades de sobrevivência coletiva.

Ora, a democracia liberal exige precisamente o contrário de muitos desses impulsos intuitivos.

Exige tolerância para com grupos diferentes. Exige cooperação abstrata com desconhecidos. Exige confiança institucional. Exige aceitação de regras impessoais. Exige controlo emocional. Exige aceitar derrotas eleitorais sem recorrer à violência. Exige distinguir oposição política de ameaça existencial.

Nada disto é particularmente “natural” do ponto de vista evolucionista.

A democracia liberal talvez seja uma das maiores construções artificiais da história humana – não porque seja ilegítima, mas precisamente porque exige que os seres humanos contrariem várias predisposições psicológicas profundamente enraizadas.

É por isso que as democracias são tão frágeis.

E é também por isso que períodos de instabilidade social, desigualdade percebida, erosão da confiança institucional ou rápida mudança cultural tendem a ativar mecanismos psicológicos mais primitivos ligados ao medo, à ameaça, à punição e à procura de proteção grupal. De resto, a própria tecnologia amplifica este fenómeno.

Atualmente, as redes sociais funcionam frequentemente como aceleradores de mecanismos ancestrais de reputação, competição por estatuto, exibição tribal e vigilância moral coletiva. O resultado é paradoxal.

Vivemos nas sociedades mais tecnologicamente sofisticadas da história. Mas muitos dos nossos comportamentos políticos continuam a ser profundamente tribais.

A modernidade alterou o ambiente, é verdade, porém não reescreveu a arquitetura fundamental da mente humana.

A própria expansão das sociedades humanas pode ser interpretada como uma tentativa contínua de resolver um problema evolucionista central: como manter cooperação estável em grupos cada vez maiores e mais anónimos.

Nas pequenas tribos ancestrais, a confiança era garantida sobretudo por reputação direta, vigilância social e reciprocidade imediata.

Nas sociedades modernas, pelo contrário, esses mecanismos tornaram-se insuficientes.

Foi necessário criar substitutos artificiais: leis, tribunais, constituições, polícias, burocracias, mercados regulados, sistemas de reputação indireta, e instituições democráticas. Mas essas estruturas funcionam apenas enquanto existir confiança suficiente no sistema.

Quando essa confiança colapsa, os mecanismos ancestrais reaparecem rapidamente: tribalismo, procura de líderes fortes, desumanização do adversário, radicalização moral, e fragmentação social.

É precisamente aqui que a perspetiva evolucionista se torna particularmente relevante para a ciência política contemporânea.

Porque talvez o maior erro de muitas análises modernas seja assumirem que a civilização eliminou os mecanismos ancestrais da natureza humana.

Não eliminou.

Apenas os colocou sob tensão permanente.

E talvez seja precisamente essa tensão, entre instituições modernas e cérebros ancestrais, que define grande parte da instabilidade política contemporânea.

A tecnologia mudou o mundo. A natureza humana mudou muito menos.