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"Não posso negar que o Frederico me dá mais trabalho...": Villas-Boas sobre rivais, segredos do campeão, mercado e uma nova polémica

André Villas-Boas deixou alguns dos segredos do ressurgimento do FC Porto e falou de forma aberta das rivalidades dos dragões antes de admitir a via judicial perante última proposta de centralização.

Bruno Roseiro
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Os ventos mudaram, o contexto passou a ser outro. No futebol, com o regresso aos títulos máximos após um ano zero onde a necessidade de dar primazia à vertente financeira por uma questão de sobrevivência foi superior. Na vertente feminina, que assegurou a subida ao principal escalão num ano em que chegou pela primeira vez a uma final da Taça de Portugal. Nas modalidades, com o título europeu do hóquei em patins e o regresso às vitórias no voleibol feminino antes do anúncio tão desejado da fundação do futsal no clube. Na formação, com as conquistas nacionais dos Campeonatos Sub-19 e Sub-17 (além da liderança no Sub-15).

Foi também nesta parte mais ligada à formação que começou a participação de elementos do FC Porto na 4.ª Conferência Bola Branca, com José Tavares, responsável dos azuis e brancos para a área, a juntar-se a Tomás Morais, diretor geral do Sporting na Academia, e Guilherme Moller, diretor do Benfica Campus. Assumiu uma mudança de paradigma nos azuis e brancos mas a nível de investimento nas infraestruturas, sempre com a ideia de “formar a vencer”. “A prioridade é dar o tempo e a oportunidades para os jovens jogadores estarem no sítio certo”, apontou, destacando também a “atitude nobre e muito digna” da equipa Sub-19 do Sporting em fazer uma guarda de honra na entrada dos dragões no jogo após a conquista do título.

Mais tarde, André Villas-Boas chegou também ao auditório. Cumprimentou quem estava na primeira fila, acenou a mais algumas pessoas, perguntou a José Tavares se estava tudo bem e ficou focado, quase vidrado, a olhar em frente e a ouvir as histórias que António Simões, Fernando Santos (que quando viu o líder do FC Porto piscou logo o olho e fez um aceno) e António Ribeiro Cristóvão iam contando histórias de variadas décadas de futebol, dos tempos de Eusébio ao Europeu de 2016, passando por muitos outros momentos que ainda hoje marcam o futebol nacional. A presença era notada, a sua intervenção viria de seguida. E sem conotações extra, apesar de ter ficado em Lisboa depois de participar no Festival Eco também na capital.

“Leitura política não se pode tirar mas é sempre um gosto. No outro dia visitei também os deputados na Assembleia da República e disse-lhes que ser portista em Lisboa é um desporto de alta competição. Sempre que um portista chega aqui recebe a alma portista, de resistência. Os clubes de Lisboa têm grande poder demográfico. Ser campeão, isso sim, é um prazer. Fizemos grandes mudanças estruturais, da direção desportiva ao treinador e aos jogadores que nos levaram ao sucesso. É dessa transformação que me dá muito gosto falar. 2024/25 foi um ano difícil, neste de 2025/26 tivemos um sucesso estrondoso”, começou por referir a abrir, antes de mostrar confiança na continuidade de Francesco Farioli depois das apostas mal sucedidas que teve em Vítor Bruno e Martín Anselmi no seguimento da saída de Sérgio Conceição.

“O que se passa atualmente no futebol, no futebol europeu sobretudo, é que existem mudanças abruptas de treinador, como se viu com o Xabi Alonso no Real Madrid ou o Liam Rosenior no Chelsea. São cada vez mais projetos instáveis e Farioli sentiu-se em casa, agarrado a uma visão. Fizemos também as nossas mudanças. Já senti na pele também a necessidade de mudanças quando era treinador. O que Farioli encontrou no FC Porto foi estabilidade e comunicação direta, isso é muito dificil de encontrar”, destacou Villas-Boas.

“Com o Vítor Bruno, estávamos numa situação difícil a nível de resultados. O FC Porto apanhou-se na possibilidade de ficar em primeiro 1.000 dias quando fomos jogar à Madeira, num jogo que acabou mais cedo pelo famoso nevoeiro. Depois deu-se a meia-final da Taça da Liga com o Sporting, deu-se uma derrota em Barcelos, deu-se a derrota com o Nacional. Optámos depois por um treinador que achávamos que nos ia levar ao topo, que jogava num 3x4x3 ou num 3x5x2 mais dinâmico, que deu vontade de explorar. Correram as duas mal, foi por isso que mudámos e que investimos o dinheiro que adquirimos em janeiro”, explicou, rejeitando também eventuais contactos pelos principais jogadores neste mercado. “Da parte dos jogadores mais consagrados temos tido poucas abordagens. É bom sinal. Queremos manter a base. Temos modificações a fazer, poucas, mas os clubes nacionais vivem também de movimentos de mercado”, frisou o líder portista.

Villas-Boas abordou também dois jogadores formados no clube, Rodrigo Mora e Diogo Costa, com quem espera contar na próxima época. “Esta temporada o Rodrigo encontrou-se numa posição diferente. Na era Anselmi era um avançado com liberdade, isso potenciou a criatividade do Mora. O sistema de Farioli joga na posição 8 avançado ou 10, é obrigado a outra intensidade defensiva e provavelmente não consegue colocar em campo toda a criatividade mas que trabalha mais para a equipa e para a ambição do treinador. Em golos não foi como na temporada anterior mas o talento está lá. É um dos grandes talentos, dos melhores do mundo. Na construção do plantel correspondem as decisões do treinador e contamos com ele. Há sempre jogadores que sonham com outros voos mas está nos nossos planos manté-lo. No ano passado foi abordado pelo Al-Ittihad, mas o FC Porto não chegou a acordo. O Diogo é um guarda-redes muito requisitado, que pode ter convites e tem ambição de jogar noutros campeonatos. Camisola 2? Ainda está em reflexão… A camisola 2 para o FC Porto traz muito peso, memória, peso e carga…”, apontou o presidente portista.

Antes da falar da necessidade de encontrar um novo ponta de lança, tendo em conta o regresso previsto de Samu apenas para outubro, Villas-Boas deixou também rasgados elogios às mudanças que feitas na direção desportiva. “Os alvos para essa posição estão identificados. Temos uma lista dos melhores talentos por posição, depois por escalões, por contrato, com quem podemos negociar de forma mais aberta. Maio é uma altura má para negociar, pede-se muito dinheiro. O grande mercado movimenta-se em agosto. Vamos tentar identificar, encurtar distâncias e depois aproximamo-nos na devida altura. No departamento de scouting também houve mudanças e a direção desportiva foi entregue ao Tiago Madureira com sucesso. Trouxe uma linha de decisão clara e tudo isso se tem tranformado num ano perfeito do Dragão em que nos falta apenas os Sub-15. Era um desejo conquistar todos os escalões, como aconteceu em 1996″, recordou.

Mais na parte final, antes de abordar também o futebol feminino, o futsal e a possibilidade de haver atletismo mas via Fundação, Villas-Boas falou também dos rivais e homólogos… em patamares diferenciados. “Quem me dá mais trabalho? Aqui não posso negar que o Frederico [Varandas] me dá mais trabalho… Temos uma animosidade particular entre um e outro, não gostamos um do outro. Eu não confio nele, ele não confia em mim. O Rui [Costa] é um senhor do futebol, um dos melhores talentos portugueses de sempre. Uma pessoa, digna, humana, que lidera o Benfica, o nosso maior rival, um rival histórico do FC Porto. Com muito orgulho, somos agora o clube com mais títulos do futebol nacional. Eu com o Rui tenho uma ligação estreita, direta, de certa forma também não fui agradável com ele quando disse que estava n o bolso do Frederico. Com o Frederico temos uma animosidade pessoal porque me ataca no campo pessoal e não posso permitir, no familiar também. No campo profissional partilhámos alguma visão, como na questão da centralização dos direitos”, assumiu, antes de admitir recorrer à via judicial perante “a ideia apresentada pelo Nacional e pelo Marítimo que pode implodir o futebol português”. “E sim, queria explicar esta parte”, disse.

“Trabalhámos dois anos numa chave de repartição, e bem, em sede da direção da Liga. O FC Porto não foi apoiante da candidatura de Reinaldo Teixeira mas ainda no outro dia lhe escrevi a dar os parabéns pelo grande trabalho, principalmente no campo da Liga centralização. Tinhamos feito grandes progressos. 80% ou 90% da demografia de adeptos está concentrada nos três grandes, sem desrespeito pelos demais. Sporting, FC Porto e Benfica dominam. Até 80%, assim será seguramente. Em alinhamento, concedemos perder dinheiro para que haja mais dinheiro para os outros mas não podemos perder tudo de uma vez. Temos que continuar a competir. Com todo o respeito, o Nacional, mesmo com os grandes, tem o estádio ocupado em 50%. Penso que o posicionamento do Sporting será o mesmo do FC Porto. Atuaremos judicialmente caso a proposta do Maritimo e Nacional seja aprovada e não iremos colaborar com qualquer operador. É preciso um devido enquadramento. Os três grandes já perdem dinheiro. Há aqui clubes que saem valorizados, no caso Sp. Braga, V. Guimarães e Famalicão, mas é preciso consciência”, destacou.

A fechar, André Villas-Boas falou também de uma possível saída de José Mourinho… sem emitir qualquer opinião sobre a possibilidade de Marco Silva rumar à Luz. “José Mourinho é a referência do treinador do futebol português, um ídolo de gerações. Sempre foi a referência para nós treinadores. Se há miúdos de 16 ou 18 anos que querem ser treinadores, foi por culpa do fenómeno Mourinho, da transição de um aluno de escola para as faculdades. Isso permitiu-nos estar num campo de referência no sistema educativo e isso facilita com que a qualidade do talento seja de excelência máxima e por isso geramos mais talento. O seu distanciamento será para um clube de topo europeu, perde-se apenas a sua proximidade”, concluiu.